Dr. Mauricio Hiroshi Yamada

Excelência Técnica e Formação Sólida

Dr. Mauricio Hiroshi Yamada é referência em Cirurgia Vascular e Endovascular. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), consolidou sua especialização nos maiores centros médicos de São Paulo, incluindo o Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).

Residência em Cirurgia Vascular (IAMSPE-SP)

Título de Especialista (SBACV)

Certificação em Doppler Vascular (CBR)

Cirurgia Endovascular (CBR)

Maringá Vasculares
Eco-Doppler para Especialistas — Cap. 2

Guia Avançado: Eco-Doppler dos Troncos Supra-Aórticos (TSAo)

Capítulo 2 da série técnica para especialistas: protocolo completo de avaliação dos Troncos Supra-Aórticos — anatomia, seleção de sondas, padrões de fluxo, critérios de estenose carotídea e vertebral, síndrome do roubo da subclávia e armadilhas técnicas.

Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular em Maringá

Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295

📅 13 de junho de 202616 min de leitura

No Capítulo 1 desta série recapitulamos a fisiopatologia geral das doenças vasculares arteriais e venosas periféricas. Neste Capítulo 2, aplicamos essa base a um protocolo específico: o Eco-Doppler dos Troncos Supra-Aórticos (TSAo) — carótidas, vertebrais e segmento proximal das subclávias. O mapeamento dos TSAo não deve ser encarado como um registro estático, mas como uma análise funcional e dinâmica da hemodinâmica cervical.

Infográfico: Guia Avançado de Eco-Doppler dos Troncos Supra-Aórticos (TSAo) — indicações clínicas, seleção de sondas, critérios de estenose carotídea e vertebral, síndrome do roubo da subclávia e regra da angulação menor ou igual a 60 graus
Protocolo resumido do Eco-Doppler dos TSAo: seleção de sonda, critérios de estenose, patologias específicas e armadilhas técnicas.

Assista: Guia Avançado de Eco-Doppler dos TSAo (Capítulo 2)

1. Introdução aos TSAo e Contexto Clínico

Os troncos supra-aórticos (TSAo) compõem a unidade vascular crítica para a perfusão do encéfalo e dos membros superiores. Embora a aterosclerose seja a etiologia soberana em prevalência, o especialista deve manter alto índice de suspeição para patologias de espectro não ateromatoso, tais como:

  • Displasias (como a displasia fibromuscular);
  • Dissecções arteriais (espontâneas ou traumáticas);
  • Doenças inflamatórias (arterites de células gigantes);
  • Lesões radiculares pós-radioterapia.

2. Fundamentos Anatômicos e Variantes de Normalidade

A anatomia padrão dos TSAo inicia-se no arco aórtico com o tronco braquiocefálico (TABC) à direita, a carótida comum esquerda e a subclávia esquerda. O TABC bifurca-se em carótida comum e subclávia direitas. As carótidas comuns dividem-se em carótida interna (CI) — que apresenta uma dilatação inicial, o bulbo, possui localização posterior/externa e não emite ramos cervicais — e carótida externa (CE), anterior e interna, caracterizada por suas ramificações cervicais. As artérias vertebrais originam-se na face posterossuperior das subclávias (segmento V0) e dividem-se em: pré-transversal (V1), intertransversal entre C6 e C2 (V2) e suboccipital (V3).

Variantes de Normalidade e Implicações Clínicas

  • Nascimento da vertebral esquerda no arco aórtico: variante fundamental, pois impede a ocorrência da síndrome do roubo da subclávia à esquerda.
  • Assimetria de calibre: discrepância comum entre as artérias vertebrais direita e esquerda.
  • Tronco comum: origem conjunta do TABC e da carótida comum esquerda.
  • Artéria subclávia direita retroesofágica: nascimento da subclávia direita distalmente à origem da subclávia esquerda.

3. Indicações Clínicas para o Exame

A indicação criteriosa do exame é o primeiro passo para um diagnóstico preciso, dividindo-se em três grandes grupos:

  • Sintomas neurovasculares: investigação de AVE isquêmico (transitório ou permanente), insuficiência vertebro-basilar (vertigens rotatórias, diplopia, ataxia) e drop-attacks — quedas súbitas por enfraquecimento dos membros inferiores, sem perda de consciência (diagnóstico diferencial crítico de síncope cardíaca).
  • Análise de difusão de doenças: avaliação da carga aterosclerótica em pacientes com coronariopatia ou arteriopatia de membros inferiores.
  • Avaliação pré-operatória e sinais físicos: risco cirúrgico em grandes procedimentos, investigação de sopros cervicais e avaliação de assimetria tensional entre os membros.

4. Protocolo Técnico e Otimização de Imagem

A escolha da sonda é ditada pela profundidade do vaso e pelo biotipo do paciente:

SondaFrequênciaLocal Arterial
Linear vascular7-4 MHzCC, CI cervical, CE, oftálmica e vertebral
Microconvexa5-9 MHzTABC, subclávia, origem da vertebral e CI pós-bulbar
Abdominal convexa1-5 MHzPescoços curtos/espessos: TABC, subclávia e CI pós-bulbar
Linear superficial> 10-12 MHzArtéria temporal

Instalação e convenções: paciente em decúbito dorsal, braços ao longo do corpo. Para manter o rigor técnico, devem-se adotar as convenções de imagem: no corte longitudinal, a parte craniana à esquerda da tela; no Doppler colorido, fluxo em direção ao cérebro em vermelho e em direção oposta em azul.

📐 Regra de Ouro da Angulação

O ângulo de incidência do feixe Doppler deve ser sempre menor ou igual a 60°. Acima desse limite, pequenas variações no ângulo geram erros desproporcionalmente grandes no cálculo de PSV e EDV — comprometendo a aplicação confiável dos critérios de Grant e das demais tabelas velocimétricas apresentadas neste capítulo.

5. Resultados Normais e Padrões de Fluxo

A morfologia da onda de fluxo é estritamente dependente da resistência vascular do leito distal:

  • Baixa resistência (cérebro): fluxo anterógrado contínuo na sístole e na diástole (CI e vertebral distal).
  • Alta resistência (músculos): fluxo bi ou trifásico (artéria subclávia).
  • Padrões mistos: observados no TABC, CC, CE e vertebral proximal — esta última devido aos ramos musculares cervicais.

"É o local que determina o fluxo."

6. Avaliação Quantitativa da Estenose Carotídea

Apesar do avanço da imagem anatômica, o critério hemodinâmico (velocimetria) permanece como a única técnica validada para graduação de estenose. A planimetria no modo B possui limitações severas em pescoços curtos ou calcificações densas com cones de sombra. O padrão-ouro para o laudo é a diretriz NASCET, sendo o método europeu ECST proscrito nesta prática.

EstenosePSV CI (cm/s)EDV CI (cm/s)Razão PSV (CI/CC)Placa (% NASCET)
Normal< 125< 40< 2Nenhuma
< 50%< 125< 40< 2< 50%
50-69%125 - 23040 - 1002 - 4≥ 50%
≥ 70%> 230> 100> 4≥ 50%
Pré-oclusãoElevada, fraca ou indetectávelVariávelVariávelVisível
OclusãoIndetectávelN/AN/AVisível (luz ausente)

Critérios de Grant et al. (2003) para Estenose da Carótida Interna.

7. Caracterização da Placa Aterosclerótica

A estabilidade da placa é definida por sua morfologia. Uma úlcera é caracterizada por uma cratera com mais de 2 mm de profundidade, com a presença de um fundo na base da placa ateromatosa. Duas classificações descritivas são usadas na prática:

7.1 Consenso de Paris (1996) — Critérios Descritivos

  • Ecogenicidade: anecogênica (sangue), hipoecogênica (entre sangue e músculo), isoecogênica (músculo) ou hiperecogênica (osso).
  • Estrutura: homogênea ou heterogênea.
  • Superfície: lisa, irregular ou ulcerada (cratera maior que 2 mm).

7.2 Classificação de Gray-Weale (Modificada por Geroulakos)

  • Tipo 1: anecogênico (menos de 15% de eco).
  • Tipo 2: predominantemente anecogênico (15-50% de eco).
  • Tipo 3: predominantemente ecogênico (50-80% de eco).
  • Tipo 4: placa ecogênica (mais de 85% de eco).

8. Patologias Vertebrais e Síndrome do Roubo da Subclávia

A estenose vertebral é predominantemente ostial. A quantificação segue critérios velocimétricos rigorosos, com pequenas variações entre autores:

AutorEstenosePSV (cm/s)EDV (cm/s)Razão PSV (Est/Desc)
Hua (2009)≥ 50%≥ 140≥ 35≥ 2,1
Koch (2009)≥ 50%> 114
Yurdakul (2011)≥ 50%> 108> 36> 2,2

A síndrome do roubo resulta de oclusão ou estenose proximal da subclávia ou do TABC. O roubo parcial exibe um entalhe protossistólico; o roubo completo mostra fluxo invertido contínuo. O diagnóstico deve ser sensibilizado pelo teste de hiperemia reativa, insuflando o manguito acima da pressão braquial.

Nota técnica: caso a artéria vertebral esquerda tenha origem aórtica direta (variante de normalidade descrita na Seção 2), o diagnóstico de roubo da subclávia à esquerda está excluído.

9. Patologias Complexas: Dissecções, Inflamações e Displasias

  • Dissecção: principal etiologia de AVE em jovens; manifesta-se como hematoma de parede (coleção hipoecogênica) ou sinal indireto de fluxo resistivo.
  • Doenças inflamatórias: o sinal do halo (espessamento parietal circunferencial) marca a fase ativa. A Arterite de Takayasu atinge preferencialmente a artéria subclávia pós-vertebral — diferencial anatômico vital. Deve-se examinar sistematicamente as artérias temporais e axilares (Doença de Horton).
  • Lesões radiculares: vasos retraídos com componente esclerótico exuberante após radioterapia.
  • Displasias: caracterizadas por sinuosidades em "colar de pérolas" ou estenoses tubulares longas — ver também a displasia fibromuscular no Capítulo 1.

10. Avaliação Pós-Procedimento e Limites do Exame

Na endarterectomia, o foco é a superfície de clivagem e o patch. No stenting, monitora-se a expansão da prótese e o risco de reestenose miointimal.

⚠️ Armadilhas Diagnósticas

  • Hemodinâmicas: valvulopatias, arritmias e estados hiperdinâmicos (anemia, tireotoxicose).
  • Anatômicas: pescoço curto/grosso, bifurcações altas (C2-C3) e sombras acústicas de calcificações densas.
  • Relacionadas ao paciente: traqueostomia, cicatrizes extensas ou pele severamente ressecada.

11. Glossário

  • TSAo: Troncos Supra-Aórticos
  • TABC: Tronco Braquiocefálico
  • CC: Carótida Comum
  • CI: Carótida Interna
  • CE: Carótida Externa
  • AVE: Acidente Vascular Encefálico
  • PSV: Velocidade de Pico Sistólico (Peak Systolic Velocity)
  • EDV: Velocidade Diastólica Final (End-Diastolic Velocity)
  • NASCET: North American Symptomatic Carotid Endarterectomy Trial
  • ECST: European Carotid Surgery Trial

Conclusão e Próximos Passos

O domínio do Eco-Doppler de TSAo exige a integração de uma sólida cultura vascular — apresentada no Capítulo 1 — com a precisão técnica detalhada neste capítulo, permitindo que o examinador transcenda a imagem e interprete a real fisiopatologia circulatória do paciente.

Os próximos capítulos desta série continuarão aprofundando protocolos específicos de Eco-Doppler vascular para especialistas. Acompanhe as atualizações nesta seção do site.

*Este texto tem caráter de revisão e recapitulação teórica, destinado a profissionais de saúde e estudantes da área. Não substitui a leitura das diretrizes, da literatura primária e da prática supervisionada. A correlação clínico-radiológica e o julgamento do médico assistente permanecem indispensáveis.

Ref: North American Symptomatic Carotid Endarterectomy Trial (NASCET). · Grant EG, et al. Carotid artery stenosis: gray-scale and Doppler US diagnosis — Society of Radiologists in Ultrasound Consensus Conference, 2003. · Consensus de Paris (1996) para caracterização ultrassonográfica de placa carotídea. · Gray-Weale AC, et al. (modificado por Geroulakos). · Hua Y, et al. (2009); Koch S, et al. (2009); Yurdakul M, et al. (2011) — critérios velocimétricos para estenose vertebral.

Perguntas Frequentes

Qual o padrão-ouro para graduar a estenose de carótida interna: planimetria ou critério hemodinâmico?
O critério hemodinâmico (velocimetria) é a única técnica validada para a graduação de estenose carotídea, conforme a diretriz NASCET — o método europeu ECST é proscrito nesta prática. A planimetria no modo B tem limitações severas em pescoços curtos ou na presença de calcificações densas com cones de sombra acústica, que impedem a medida direta confiável do lúmen residual.
O que é a Síndrome do Roubo da Subclávia e como diferenciar roubo parcial de roubo completo?
A síndrome do roubo da subclávia resulta de uma oclusão ou estenose proximal da artéria subclávia (ou do TABC), fazendo com que a artéria vertebral inverta seu fluxo para suprir o membro superior — 'furtando' fluxo que deveria seguir para o cérebro. No roubo parcial, observa-se um entalhe protossistólico (a sístole ainda é anterógrada, mas com inflexão característica); no roubo completo, o fluxo é invertido de forma contínua em todo o ciclo cardíaco. O diagnóstico deve ser sensibilizado pelo teste de hiperemia reativa, insuflando o manguito acima da pressão braquial. Nota técnica: se a vertebral esquerda tem origem aórtica direta (variante de normalidade), o diagnóstico de roubo da subclávia à esquerda está excluído.
Por que o ângulo de incidência do feixe Doppler deve ser sempre menor ou igual a 60°?
A velocidade medida pelo Doppler é calculada a partir do cosseno do ângulo entre o feixe ultrassônico e a direção do fluxo. Acima de 60°, pequenas variações no ângulo produzem erros desproporcionalmente grandes no valor calculado de PSV e EDV — o que compromete diretamente a aplicação confiável dos critérios de Grant e das demais tabelas velocimétricas. Por isso, a 'Regra de Ouro da Angulação' exige ângulo sempre ≤ 60° para qualquer cálculo de velocidade.
Como interpretar os padrões de fluxo de baixa, alta e média resistência nos TSAo?
A morfologia da onda de fluxo reflete a resistência do leito vascular distal. Vasos que irrigam o cérebro — carótida interna e vertebral distal — apresentam padrão de baixa resistência, com fluxo anterógrado contínuo na sístole e na diástole. A artéria subclávia, que irriga predominantemente músculo, tem padrão de alta resistência, com fluxo bi ou trifásico. Já o TABC, a carótida comum, a carótida externa e a vertebral proximal apresentam padrões mistos ou intermediários — esta última devido aos ramos musculares cervicais. Em resumo: é o território irrigado que determina o padrão de fluxo esperado, e qualquer desvio desse padrão é um sinal de alerta.
Qual a diferença anatômica chave entre a Arterite de Takayasu e a Doença de Horton no território cervical?
Ambas as arterites de células gigantes cursam, na fase ativa, com o 'sinal do halo' — espessamento parietal hipoecogênico e circunferencial — evoluindo para estenoses longas e regulares. A diferença anatômica vital é que a Arterite de Takayasu atinge preferencialmente a artéria subclávia pós-vertebral, enquanto a Doença de Horton classicamente acomete a artéria temporal, que deve ser examinada sistematicamente com sonda linear superficial de alta frequência (acima de 10-12 MHz), junto com as artérias axilares.
Quais variantes anatômicas dos TSAo têm implicação clínica direta no diagnóstico?
Quatro variantes merecem atenção sistemática: (1) o nascimento da artéria vertebral esquerda diretamente do arco aórtico, que impede a ocorrência de síndrome do roubo da subclávia à esquerda; (2) a assimetria de calibre entre as artérias vertebrais direita e esquerda, um achado comum e habitualmente benigno; (3) o tronco comum, com origem conjunta do TABC e da carótida comum esquerda; e (4) a artéria subclávia direita retroesofágica, que nasce distalmente à origem da subclávia esquerda. Reconhecer essas variantes evita diagnósticos equivocados de patologia.

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