TVP: Diretrizes ESVS 2021 — Parte 2.11: Trombose Venosa Superficial (TVS)
Trombose Venosa Superficial (TVS) pela ESVS 2021: Tríade de Virchow, risco de TVP oculta (~25%) e marcadores de alto risco, CUS vs WLUS, investigação de trombofilias, algoritmo de anticoagulação por extensão/localização, considerações cirúrgicas e reversão em emergência.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Na Parte 2.10, vimos os extremos mais graves do espectro da TVP — a phlegmasia alba e cerulea dolens. Voltamos agora a atenção para uma condição extremamente comum no consultório do especialista: a Trombose Venosa Superficial (TVS), tema do Capítulo 2.11 das diretrizes ESVS 2021. Frequentemente vista como "benigna", a TVS compartilha a Tríade de Virchow com a TVP, pode mimetizá-la clinicamente e, em até 25% dos casos, já coexiste com extensão para o sistema venoso profundo no momento do diagnóstico.

Assista: Trombose Venosa Superficial (TVS) — ESVS 2021
1. Fisiopatologia e Apresentação Clínica: a TVS como Mimetizadora de TVP
A TVS é frequentemente associada à estase venosa, mas também pode ocorrer de forma independente. No espectro das doenças venosas, ela compartilha a clássica Tríade de Virchow:
Aumento da atividade pró-coagulante no sangue.
Dano à parede da veia.
Fluxo venoso prejudicado.
A TVS como Mimetizadora de TVP
Clinicamente, a TVS é um dos principais diagnósticos diferenciais da TVP. Pacientes com TVS frequentemente apresentam dor, sensibilidade e edema localizado — sintomas que podem se sobrepor aos da TVP, especialmente na panturrilha. Celulite, ruptura de cisto de Baker e linfedema também podem mimetizar esse quadro.
2. O Risco Oculto: TVP Associada e Marcadores de Alto Risco
O Risco de TVP Oculta
Aproximadamente 25% dos pacientes com TVS têm extensão para o sistema profundo ou embolia pulmonar já no diagnóstico inicial.
Determinados achados elevam a suspeita e justificam investigação mais ampla — os chamados marcadores de alto risco:
Extensão do trombo superior a 5 cm.
Localização na coxa.
Proximidade da junção safenofemoral ou poplítea inferior a 2 cm.
Associação com câncer ou trombofilia.
Complicações em curto prazo: o risco de eventos tromboembólicos persiste por até 3 meses, sendo maior no primeiro mês.
3. Diagnóstico e Investigação: o Papel da Imagem
Para o especialista, distinguir entre TVS isolada e TVS associada à TVP é crucial:
| Característica | CUS (Compressão, Pontos Específicos) | WLUS (Perna Inteira) |
|---|---|---|
| Cobertura | Focado em pontos específicos (femoral e poplítea) | Avalia todo o sistema venoso, da femoral comum até as veias distais |
| TVS ou TVP distal | Pode não detectar | Recomendado para suspeita de trombose distal ou superficial |
| Recomendação | — | Classe I, Nível B — realizar bilateralmente, para determinar a extensão do trombo e excluir TVP assintomática |
Recomendação técnica (estudo Theia): o uso de ressonância magnética direta do trombo mostrou-se promissor para diferenciar trombos agudos recorrentes de trombos crônicos preexistentes, com implicações diretas na decisão terapêutica.
Diagnóstico Diferencial de TVS Não Relacionada à Estase (Cap. 2.11.7)
O especialista deve considerar causas sistêmicas quando a TVS ocorre em veias sem varizes prévias ou em locais incomuns — o que pode sinalizar hipercoagulabilidade ou malignidade oculta.
4. Risco Tromboembólico e Investigação de Trombofilias
Embora frequentemente considerada benigna, a TVS compartilha fatores de risco com a TVP e pode evoluir para tromboembolismo venoso (TEV):
O rastreio rotineiro de trombofilia hereditária não é recomendado para trombose provocada por fatores transitórios major (cirurgia, trauma, terapia estrogênica).
Considerar Investigação Quando:
- TVS/TVP não provocada com história familiar de primeiro grau;
- Casos de recorrência;
- Presença de Síndrome Antifosfolipídeo (SAF), especialmente se houver planos de interrupção da anticoagulação.
| Tipo de Trombofilia | Exemplos |
|---|---|
| Hereditária | Deficiência de Antitrombina, Proteína C e S; Fator V Leiden; variante da Protrombina G20210A |
| Adquirida | Anticorpos Antifosfolipídeos; Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN) |
5. Algoritmo de Tratamento Anticoagulante
O manejo da TVS visa mitigar o risco de extensão para o sistema venoso profundo e prevenir a embolia pulmonar. Após avaliação clínica e WLUS, a decisão terapêutica depende da extensão e da localização do trombo:
Apenas observação/sintomáticos: anticoagulação geralmente não recomendada (Classe III).
Fondaparinux 2,5 mg por 45 dias (Classe B) ou HBPM em dose intermediária por 45 dias (Classe IIa).
Anticoagulação em dose terapêutica total (Classe C) — proximidade perigosa do sistema profundo.
Os anticoagulantes empregados são categorizados pelo seu mecanismo de ação:
| Categoria | Agentes |
|---|---|
| Indiretos (dependem da Antitrombina) | Heparina Não Fracionada (HNF), Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM), Fondaparinux |
| Diretos — Inibidores de Xa | Apixabana, Edoxabana, Rivaroxabana |
| Diretos — Inibidores de IIa (trombina) | Dabigatrana |
6. Considerações Cirúrgicas e Manejo de Longo Prazo
NÃO recomendada para tratar a TVS (Classe III).
Considerar após mais de 3 meses, com estabilização da fase inflamatória (Classe IIa, Nível C).
Considerar em pacientes com características de muito alto risco (Classe IIb, Nível C).
7. Manejo de Sangramento e Reversão em Emergência
Para o especialista, a segurança é tão vital quanto a eficácia. Em casos de sangramento maior, agentes de reversão específicos devem ser reconhecidos rapidamente:
| Anticoagulante / Situação | Agente de Reversão |
|---|---|
| Dabigatrana | Idarucizumabe (dose IV de 5 g) — antídoto específico |
| Inibidores do Fator Xa (Apixabana, Rivaroxabana) | Andexanet Alfa |
| VKA e inibidores de Xa sem antídoto específico disponível | Concentrado de Complexo Protrombínico (PCC) — opção geral |
8. Perspectiva do Paciente e Direções Futuras
Pacientes valorizam a terapia de compressão para reduzir sequelas a longo prazo, mesmo quando o benefício é incerto.
Demanda por explicações detalhadas sobre a razão de oferecer (ou não) estratégias de remoção de trombo.
Alto interesse em DOACs devido à facilidade de uso em comparação aos VKAs tradicionais.
Áreas para Pesquisas Futuras
O capítulo 2.11 aponta lacunas que o especialista deve monitorar: a definição da intensidade e duração ideal da anticoagulação especificamente para a TVS, o papel exato da cirurgia na prevenção da recorrência, a melhor compreensão da TVS não relacionada à estase venosa, e o desenvolvimento de modelos de predição de risco para recorrência de eventos trombóticos superficiais.
Considerações Finais
A TVS está longe de ser uma condição trivial: compartilha fisiopatologia com a TVP, pode mimetizá-la clinicamente e, em 1 a cada 4 pacientes, já coexiste com extensão para o sistema profundo ou embolia pulmonar no momento do diagnóstico. O WLUS bilateral é a ferramenta central para estratificar o risco e guiar a decisão terapêutica — que varia da simples observação, na TVS pequena e distante da junção, à anticoagulação em dose plena, na TVS próxima ao sistema profundo. A cirurgia aguda não tem papel no tratamento da TVS, mas a ablação de veias incompetentes pode ser considerada após a estabilização da fase inflamatória.
*Este texto tem caráter de revisão e atualização para profissionais de saúde, com base na diretriz internacional citada. Não substitui a avaliação clínica individualizada de cada paciente.
Ref: Kakkos SK, Gohel M, Baekgaard N, et al. Editor's Choice – European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2021 Clinical Practice Guidelines on the Management of Venous Thrombosis. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2021;61(1):9-82.
Perguntas Frequentes
O que é a Trombose Venosa Superficial (TVS) e por que ela compartilha a Tríade de Virchow com a TVP?
Qual a frequência de TVP oculta ou embolia pulmonar em pacientes com TVS?
Quais são os marcadores de alto risco na TVS que indicam necessidade de investigação mais ampla?
Quando o WLUS deve ser realizado na suspeita de TVS, e por que bilateralmente?
Como é definido o tratamento anticoagulante da TVS conforme sua extensão e localização?
A cirurgia tem papel no tratamento da TVS?
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