Dr. Mauricio Hiroshi Yamada

Excelência Técnica e Formação Sólida

Dr. Mauricio Hiroshi Yamada é referência em Cirurgia Vascular e Endovascular. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), consolidou sua especialização nos maiores centros médicos de São Paulo, incluindo o Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).

Residência em Cirurgia Vascular (IAMSPE-SP)

Título de Especialista (SBACV)

Certificação em Doppler Vascular (CBR)

Cirurgia Endovascular (CBR)

Maringá Vasculares
Anticoagulação Perioperatória — CHEST 2022 · Parte 1 de 6

Anticoagulação Perioperatória — Parte 1: Estratificação de Risco Tromboembólico e de Sangramento

A base de qualquer decisão perioperatória em paciente anticoagulado: como classificar o risco tromboembólico (valva mecânica, FA, TEV) e o risco cirúrgico de sangramento segundo as Diretrizes CHEST 2022.

Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular em Maringá

Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295

📅 12 de julho de 202610 min de leitura

Resposta direta: CHEST 2022 (Douketis JD et al., Chest. 2022;162(5):e207-e243): 44 recomendações GRADE para manejo perioperatório de anticoagulantes. Passo 1 — sempre estratificar dois riscos independentes: (a) risco tromboembólico (alto/moderado/baixo para valva mecânica, FA e TEV) e (b) risco de sangramento cirúrgico (alto ≥2%, baixo-moderado 0–2%, mínimo ~0%). Esses dois eixos determinam se interromper, quando interromper e se usar bridging.

Cerca de 15–20% dos pacientes em uso crônico de anticoagulante precisam submeter-se a algum procedimento cirúrgico a cada ano. A pergunta que guia toda a decisão é sempre a mesma: o risco de tromboembolismo se eu parar supera o risco de sangramento se eu não parar? O CHEST 2022 (Douketis JD et al.) sistematizou essa resposta em 44 recomendações baseadas em GRADE. Esta primeira parte da série cobre o fundamento de tudo: a estratificação de risco.

Infográfico CHEST 2022 — Anticoagulação Perioperatória Parte 1: Definições essenciais (período perioperatório, GRADE forte vs. condicional, heparin bridging), tabela de risco tromboembólico (valva mecânica, FA e TEV em alto, moderado e baixo), tabela de risco de sangramento cirúrgico (alto ≥2%, baixo-moderado 0–2%, mínimo ~0%) e conceito de heparin bridging com HBPM.
Infográfico: Estratificação de Risco Perioperatório — CHEST 2022. Fonte: Douketis JD et al. Chest. 2022;162(5):e207-e243.

1. Definições Essenciais para Usar a Diretriz

Período Perioperatório

Do ponto de vista da anticoagulação, o CHEST 2022 define como:

  • 📅 1 semana ANTES da cirurgia até 4 semanas APÓS
  • 🏥 Cirurgia: requer anestesia geral ou regional, pode exigir internação
  • 🩺 Procedimento: intervenção diagnóstica ou terapêutica, geralmente ambulatorial

Pacientes Incluídos

A diretriz se aplica a pacientes em anticoagulação ou antiagregação crônica (≥3 meses) para:

  • • Fibrilação atrial (FA)
  • • Valva cardíaca mecânica
  • • Tromboembolismo venoso (TEV)
  • • Doença coronariana (dupla antiagregação)

Sistema GRADE na Prática: Como Ler as Recomendações

✅ Recomendação FORTE

Frase: "Recomendamos…"

Alta certeza de que os benefícios superam os riscos para a grande maioria dos pacientes. Deve ser seguida, salvo contraindicação individual explícita.

⚖️ Recomendação CONDICIONAL

Frase: "Sugerimos…"

Incerteza ou benefícios marginais. A conduta deve ser individualizada conforme preferências do paciente, comorbidades e contexto local.

2. Risco Tromboembólico (Tabela 1 do CHEST 2022)

O risco tromboembólico determina se o paciente é candidato a bridging com HBPM durante a interrupção da varfarina. Existem três níveis, avaliados separadamente para cada indicação:

Indicação🔴 Alto (>10%/ano ou mês)🟡 Moderado (4–10%)🟢 Baixo (<4%/ano)
Valva MecânicaValva mitral mecânica
Valva gaiola/disco (qualquer posição)
AVC ou AIT nos últimos 3 meses
Valva aórtica bileaflet com FA, AVC prévio, HAS, DM, ICC ou idade >75a
Valva aórtica bileaflet com 1 fator de risco (FA, AVC prévio, HAS, DM, ICC ou >75a)Valva aórtica bileaflet sem FA e sem outros fatores de risco
Fibrilação AtrialCHA₂DS₂VASc ≥7
ou CHA₂DS₂VASc ≥5 com AVC ou AIT recente (<3 meses)
FA reumática
CHA₂DS₂VASc 5–6CHA₂DS₂VASc 1–4
sem AVC ou AIT prévio
TEVTEV nos últimos 3 meses
Trombofilia grave (síndrome antifosfolípide, deficiência de proteína C ou S, fator V de Leiden homozigoto)
TEV com câncer ativo
TEV entre 3–12 meses
TEV recorrente (≥2 episódios)
Trombofilia não grave
TEV há >12 meses
Sem outros fatores de risco

Princípio-chave: O risco tromboembólico é avaliado independentemente do risco de sangramento. Um paciente com alto risco tromboembólico submetido a cirurgia de baixo risco ainda pode receber bridging. Um paciente de baixo risco tromboembólico submetido a cirurgia de alto risco não se beneficia de bridging.

3. Risco de Sangramento Cirúrgico (Tabela 2 do CHEST 2022)

O risco de sangramento é determinado pelo tipo de procedimento, não pela patologia de base do paciente. O CHEST 2022 classifica em três categorias:

🔴 Risco ALTO — ≥2% em 30 dias

Anticoagulante deve ser interrompido. Avaliar bridging conforme risco tromboembólico.

  • • Cirurgia oncológica maior (ressecção tumoral)
  • • Cirurgia ortopédica maior (ATJ, ATQ, coluna)
  • • Cirurgia cardíaca (revascularização, valva)
  • • Cirurgia intracraniana ou espinal
  • • Cirurgia urológica maior (prostatectomia, nefrectomia)
  • • Qualquer cirurgia com duração >45 minutos
  • • Anestesia neuraxial (raqui, peridural)
  • • Biópsia renal ou hepática percutânea

🟡 Risco BAIXO-MODERADO — 0–2%

Anticoagulante pode ser interrompido com janela mínima. Bridging raramente indicado.

  • • Artroscopia de joelho ou ombro
  • • Colecistectomia laparoscópica
  • • Histerectomia abdominal ou laparoscópica
  • • Endoscopia com biópsia ou polipectomia
  • • Cirurgia de mão ou pé (não neuraxial)
  • • Herniorrafia inguinal laparoscópica

🟢 Risco MÍNIMO — ~0%

Não interromper o anticoagulante. O risco de tromboembolismo decorrente da interrupção supera o risco hemorrágico do procedimento.

  • • Extração dentária simples (1–2 dentes)
  • • Procedimento dermatológico menor (biópsia, excisão <1 cm)
  • • Cirurgia de catarata (faco)
  • • Implante de marcapasso ou CDI
  • • Endoscopia digestiva diagnóstica (sem biópsia)
  • • Colonoscopia diagnóstica (sem polipectomia)

4. Heparin Bridging: O Que É e Quando Usar

Definição: Heparin bridging é o uso de HBPM em dose terapêutica (enoxaparina 1 mg/kg a cada 12 horas ou 1,5 mg/kg/dia) durante os dias em que o INR do paciente em varfarina está subterapêutico (INR <2,0), prevenindo tromboembolismo nessa janela de vulnerabilidade.

⚠️ NÃO é profilaxia de TVP

Profilaxia usa dose reduzida (40 mg/dia). Bridging usa dose terapêutica completa.

📅 Última dose: 24h antes

Parar HBPM ~24 horas antes da cirurgia. Reiniciar 48–72h após, conforme sangramento.

💊 DOACs: não precisam

Meia-vida curta (12–17h). Simplesmente interromper e retomar — sem bridging.

Estudo BRIDGE (NEJM 2015): Em pacientes com FA de baixo/moderado risco tromboembólico submetidos a cirurgia eletiva, bridging com HBPM não reduziu o risco de AVC/tromboembolismo, mas dobrou o risco de sangramento maior em comparação com placebo. Esse dado reforça que bridging é reservado ao risco tromboembólico ALTO.

5. Como Usar os Dois Eixos na Prática

A decisão perioperatória sempre cruza os dois riscos. O fluxo básico:

Risco TromboembólicoRisco Cirúrgico MÍNIMORisco Cirúrgico BAIXO-MODERADORisco Cirúrgico ALTO
🔴 AltoNão interromper anticoagulanteInterromper + bridging com HBPMInterromper + bridging com HBPM; adiar se possível
🟡 ModeradoNão interromper anticoagulanteInterromper; bridging individualizadoInterromper; bridging a discutir caso a caso
🟢 BaixoNão interromper anticoagulanteInterromper; sem bridgingInterromper; sem bridging

A Estratificação Vem Antes de Qualquer Decisão

Antes de decidir se interrompe, quando interrompe ou se usa bridging, é obrigatório responder a duas perguntas independentes: qual é o risco tromboembólico deste paciente e qual é o risco de sangramento deste procedimento? Sem esses dois eixos definidos, qualquer decisão perioperatória é empirismo.

Próxima parte da série: Interrupção e retomada da varfarina (VKA) — quando parar, quando reiniciar e o papel do INR.
Fonte: Douketis JD et al. Perioperative Management of Patients With Atrial Fibrillation Receiving a Direct Oral Anticoagulant. Chest. 2022;162(5):e207-e243.

Perguntas Frequentes

O que é heparin bridging e quando está indicado?
Heparin bridging é o uso de heparina de baixo peso molecular (HBPM) em dose terapêutica (enoxaparina 1 mg/kg a cada 12 horas) durante os dias em que o INR do paciente em uso de varfarina está subterapêutico — ou seja, enquanto o anticoagulante oral é interrompido antes da cirurgia. O objetivo é manter proteção antitrombótica durante essa janela. Importante: bridging não é profilaxia de TVP pós-operatória. É indicado principalmente em pacientes com risco tromboembólico ALTO (ex.: valva mitral mecânica, FA com CHA2DS2VASc ≥7, TEV nos últimos 3 meses). Pacientes de baixo risco NÃO devem receber bridging — o estudo BRIDGE demonstrou que ele aumenta sangramento sem reduzir tromboembolismo nesses casos.
Qual a diferença prática entre recomendação GRADE "forte" e "condicional"?
"Forte" significa que os benefícios superam claramente os riscos para a grande maioria dos pacientes — o médico DEVE fazer, salvo contraindicação individual. "Condicional" significa que há incerteza ou que os benefícios são marginais — a conduta pode ser a mesma para a maioria, mas deve ser INDIVIDUALIZADA considerando preferências do paciente, custos e contexto clínico local. No CHEST 2022, a frase usada é: recomendação forte = "recomendamos"; condicional = "sugerimos". Toda vez que você vê "sugerimos", precisa pensar se o paciente na sua frente pertence ao subgrupo que se beneficia.
Procedimentos de risco mínimo: preciso interromper o anticoagulante?
Para procedimentos de risco de sangramento mínimo (~0%) — como extração dentária simples, procedimento dermatológico menor (biópsia superficial), cirurgia de catarata ou implante de marcapasso/CDI — a orientação do CHEST 2022 é NÃO interromper o anticoagulante. O risco de tromboembolismo decorrente da interrupção supera o risco hemorrágico do procedimento. Isso se aplica tanto a varfarina (mantendo INR terapêutico) quanto aos DOACs. A decisão deve ser discutida com o cirurgião/dentista responsável.
Paciente com TEV há 2 meses vai operar. Qual o risco e o que fazer?
TEV nos últimos 3 meses classifica o paciente como risco ALTO (>10% ao mês de recorrência de TEV). Nesse cenário, o CHEST 2022 sugere, sempre que possível, adiar a cirurgia eletiva até completar pelo menos 3 meses de anticoagulação plena. Quando a cirurgia for urgente ou inadiável, o bridging com HBPM terapêutica é a estratégia preferida durante a janela de interrupção da varfarina. Para DOACs, a janela sem anticoagulação deve ser a menor possível (retomada em 24–72h conforme o risco de sangramento pós-operatório).
Como o CHA2DS2VASc define alto risco em contexto perioperatório?
No CHEST 2022, a fibrilação atrial é classificada como risco tromboembólico ALTO quando o CHA2DS2VASc é ≥7, ou ≥5 com AVC/AIT nos últimos 3 meses. Risco MODERADO: escore 5–6 sem evento recente. Risco BAIXO: escore 1–4 sem AVC/AIT prévio. Lembre-se que o CHA2DS2VASc foi derivado para estimar risco anual de AVC na FA — no contexto perioperatório, ele é usado como proxy para estratificar a necessidade de bridging, não como estimativa direta do risco cirúrgico.
DOACs precisam de bridging perioperatório?
Não. Os DOACs (rivaroxabana, apixabana, dabigatrana, edoxabana) têm meia-vida curta (12–17 horas para a maioria) e início de ação rápido (1–3 horas após a dose). Por isso, a estratégia é simplesmente interromper o DOAC com antecedência adequada (1–2 dias para risco baixo; 2–4 dias para risco alto ou função renal reduzida no caso da dabigatrana) e retomá-lo logo após a cirurgia quando o sangramento estiver controlado. Bridging com HBPM é desnecessário e aumenta o risco de sangramento sem benefício antitrombótico adicional.

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Artigo escrito e validado pelo Dr. Maurício Hiroshi Yamada (CRM-PR 21589 | RQE: 18282). Cirurgião Vascular formado pela UEL, com residência no HSPE/SP e título de especialista pela SBACV. É referência em tratamentos minimamente invasivos (Laser, Radiofrequência e Espuma) na clínica Maringá Vasculares, no Paraná.
⚕️ Aviso médico: O conteúdo desta página tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico especialista. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure um profissional de saúde habilitado. Dr. Maurício Hiroshi Yamada — CRM-PR 21589.

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