Anticoagulação Perioperatória — Parte 1: Estratificação de Risco Tromboembólico e de Sangramento
A base de qualquer decisão perioperatória em paciente anticoagulado: como classificar o risco tromboembólico (valva mecânica, FA, TEV) e o risco cirúrgico de sangramento segundo as Diretrizes CHEST 2022.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: CHEST 2022 (Douketis JD et al., Chest. 2022;162(5):e207-e243): 44 recomendações GRADE para manejo perioperatório de anticoagulantes. Passo 1 — sempre estratificar dois riscos independentes: (a) risco tromboembólico (alto/moderado/baixo para valva mecânica, FA e TEV) e (b) risco de sangramento cirúrgico (alto ≥2%, baixo-moderado 0–2%, mínimo ~0%). Esses dois eixos determinam se interromper, quando interromper e se usar bridging.
Cerca de 15–20% dos pacientes em uso crônico de anticoagulante precisam submeter-se a algum procedimento cirúrgico a cada ano. A pergunta que guia toda a decisão é sempre a mesma: o risco de tromboembolismo se eu parar supera o risco de sangramento se eu não parar? O CHEST 2022 (Douketis JD et al.) sistematizou essa resposta em 44 recomendações baseadas em GRADE. Esta primeira parte da série cobre o fundamento de tudo: a estratificação de risco.

1. Definições Essenciais para Usar a Diretriz
Período Perioperatório
Do ponto de vista da anticoagulação, o CHEST 2022 define como:
- 📅 1 semana ANTES da cirurgia até 4 semanas APÓS
- 🏥 Cirurgia: requer anestesia geral ou regional, pode exigir internação
- 🩺 Procedimento: intervenção diagnóstica ou terapêutica, geralmente ambulatorial
Pacientes Incluídos
A diretriz se aplica a pacientes em anticoagulação ou antiagregação crônica (≥3 meses) para:
- • Fibrilação atrial (FA)
- • Valva cardíaca mecânica
- • Tromboembolismo venoso (TEV)
- • Doença coronariana (dupla antiagregação)
Sistema GRADE na Prática: Como Ler as Recomendações
✅ Recomendação FORTE
Frase: "Recomendamos…"
Alta certeza de que os benefícios superam os riscos para a grande maioria dos pacientes. Deve ser seguida, salvo contraindicação individual explícita.
⚖️ Recomendação CONDICIONAL
Frase: "Sugerimos…"
Incerteza ou benefícios marginais. A conduta deve ser individualizada conforme preferências do paciente, comorbidades e contexto local.
2. Risco Tromboembólico (Tabela 1 do CHEST 2022)
O risco tromboembólico determina se o paciente é candidato a bridging com HBPM durante a interrupção da varfarina. Existem três níveis, avaliados separadamente para cada indicação:
| Indicação | 🔴 Alto (>10%/ano ou mês) | 🟡 Moderado (4–10%) | 🟢 Baixo (<4%/ano) |
|---|---|---|---|
| Valva Mecânica | Valva mitral mecânica Valva gaiola/disco (qualquer posição) AVC ou AIT nos últimos 3 meses Valva aórtica bileaflet com FA, AVC prévio, HAS, DM, ICC ou idade >75a | Valva aórtica bileaflet com 1 fator de risco (FA, AVC prévio, HAS, DM, ICC ou >75a) | Valva aórtica bileaflet sem FA e sem outros fatores de risco |
| Fibrilação Atrial | CHA₂DS₂VASc ≥7 ou CHA₂DS₂VASc ≥5 com AVC ou AIT recente (<3 meses) FA reumática | CHA₂DS₂VASc 5–6 | CHA₂DS₂VASc 1–4 sem AVC ou AIT prévio |
| TEV | TEV nos últimos 3 meses Trombofilia grave (síndrome antifosfolípide, deficiência de proteína C ou S, fator V de Leiden homozigoto) TEV com câncer ativo | TEV entre 3–12 meses TEV recorrente (≥2 episódios) Trombofilia não grave | TEV há >12 meses Sem outros fatores de risco |
Princípio-chave: O risco tromboembólico é avaliado independentemente do risco de sangramento. Um paciente com alto risco tromboembólico submetido a cirurgia de baixo risco ainda pode receber bridging. Um paciente de baixo risco tromboembólico submetido a cirurgia de alto risco não se beneficia de bridging.
3. Risco de Sangramento Cirúrgico (Tabela 2 do CHEST 2022)
O risco de sangramento é determinado pelo tipo de procedimento, não pela patologia de base do paciente. O CHEST 2022 classifica em três categorias:
🔴 Risco ALTO — ≥2% em 30 dias
Anticoagulante deve ser interrompido. Avaliar bridging conforme risco tromboembólico.
- • Cirurgia oncológica maior (ressecção tumoral)
- • Cirurgia ortopédica maior (ATJ, ATQ, coluna)
- • Cirurgia cardíaca (revascularização, valva)
- • Cirurgia intracraniana ou espinal
- • Cirurgia urológica maior (prostatectomia, nefrectomia)
- • Qualquer cirurgia com duração >45 minutos
- • Anestesia neuraxial (raqui, peridural)
- • Biópsia renal ou hepática percutânea
🟡 Risco BAIXO-MODERADO — 0–2%
Anticoagulante pode ser interrompido com janela mínima. Bridging raramente indicado.
- • Artroscopia de joelho ou ombro
- • Colecistectomia laparoscópica
- • Histerectomia abdominal ou laparoscópica
- • Endoscopia com biópsia ou polipectomia
- • Cirurgia de mão ou pé (não neuraxial)
- • Herniorrafia inguinal laparoscópica
🟢 Risco MÍNIMO — ~0%
Não interromper o anticoagulante. O risco de tromboembolismo decorrente da interrupção supera o risco hemorrágico do procedimento.
- • Extração dentária simples (1–2 dentes)
- • Procedimento dermatológico menor (biópsia, excisão <1 cm)
- • Cirurgia de catarata (faco)
- • Implante de marcapasso ou CDI
- • Endoscopia digestiva diagnóstica (sem biópsia)
- • Colonoscopia diagnóstica (sem polipectomia)
4. Heparin Bridging: O Que É e Quando Usar
Definição: Heparin bridging é o uso de HBPM em dose terapêutica (enoxaparina 1 mg/kg a cada 12 horas ou 1,5 mg/kg/dia) durante os dias em que o INR do paciente em varfarina está subterapêutico (INR <2,0), prevenindo tromboembolismo nessa janela de vulnerabilidade.
⚠️ NÃO é profilaxia de TVP
Profilaxia usa dose reduzida (40 mg/dia). Bridging usa dose terapêutica completa.
📅 Última dose: 24h antes
Parar HBPM ~24 horas antes da cirurgia. Reiniciar 48–72h após, conforme sangramento.
💊 DOACs: não precisam
Meia-vida curta (12–17h). Simplesmente interromper e retomar — sem bridging.
Estudo BRIDGE (NEJM 2015): Em pacientes com FA de baixo/moderado risco tromboembólico submetidos a cirurgia eletiva, bridging com HBPM não reduziu o risco de AVC/tromboembolismo, mas dobrou o risco de sangramento maior em comparação com placebo. Esse dado reforça que bridging é reservado ao risco tromboembólico ALTO.
5. Como Usar os Dois Eixos na Prática
A decisão perioperatória sempre cruza os dois riscos. O fluxo básico:
| Risco Tromboembólico | Risco Cirúrgico MÍNIMO | Risco Cirúrgico BAIXO-MODERADO | Risco Cirúrgico ALTO |
|---|---|---|---|
| 🔴 Alto | Não interromper anticoagulante | Interromper + bridging com HBPM | Interromper + bridging com HBPM; adiar se possível |
| 🟡 Moderado | Não interromper anticoagulante | Interromper; bridging individualizado | Interromper; bridging a discutir caso a caso |
| 🟢 Baixo | Não interromper anticoagulante | Interromper; sem bridging | Interromper; sem bridging |
A Estratificação Vem Antes de Qualquer Decisão
Antes de decidir se interrompe, quando interrompe ou se usa bridging, é obrigatório responder a duas perguntas independentes: qual é o risco tromboembólico deste paciente e qual é o risco de sangramento deste procedimento? Sem esses dois eixos definidos, qualquer decisão perioperatória é empirismo.
Próxima parte da série: Interrupção e retomada da varfarina (VKA) — quando parar, quando reiniciar e o papel do INR.
Fonte: Douketis JD et al. Perioperative Management of Patients With Atrial Fibrillation Receiving a Direct Oral Anticoagulant. Chest. 2022;162(5):e207-e243.
Perguntas Frequentes
O que é heparin bridging e quando está indicado?
Qual a diferença prática entre recomendação GRADE "forte" e "condicional"?
Procedimentos de risco mínimo: preciso interromper o anticoagulante?
Paciente com TEV há 2 meses vai operar. Qual o risco e o que fazer?
Como o CHA2DS2VASc define alto risco em contexto perioperatório?
DOACs precisam de bridging perioperatório?
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