TVP: Diretrizes ESVS 2021 — Parte 4.4: Trombose Venosa Profunda em Pacientes com Trombofilia
TVP em pacientes com trombofilia pela ESVS 2021: classificação e risco relativo das trombofilias hereditárias (Fator V Leiden, Protrombina G20210A, deficiências de AT, Proteína C e S), Síndrome Antifosfolípide e HPN, necrose cutânea por varfarina, quando testar para trombofilia, recomendações oficiais de Classe I a III, DOACs vs AVK na SAF e duração da anticoagulação em trombofilias de alto risco.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Após a Parte 4.3, sobre a TVP associada ao câncer, continuamos na Parte 4 das diretrizes ESVS 2021 sobre populações especiais com o Capítulo 4.4: Trombose Venosa Profunda em Pacientes com Trombofilia. O manejo dessa população exige compreender as interações entre trombofilias hereditárias e adquiridas, saber quando — e quando não — investigar, e adaptar a duração da anticoagulação ao risco real de recorrência de cada paciente.

Assista: TVP em Pacientes com Trombofilia — ESVS 2021
1. Classificação e Risco: Trombofilias Hereditárias
A trombofilia é definida pela presença de estados pró-trombóticos hereditários ou adquiridos. Embora o rastreamento tenha se tornado comum, as diretrizes enfatizam que os fatores clínicos são frequentemente preditores mais importantes de recorrência do que a própria presença de uma trombofilia isolada.
| Trombofilia | Prevalência / Características | Risco Relativo (1º TEV) |
|---|---|---|
| Fator V Leiden (Heterozigoto) | Mutação comum na população branca (5-10%). Causa resistência à Proteína C Ativada (APC). | 3 a 8x |
| Fator V Leiden (Homozigoto) | Substituição de aminoácido que impede a clivagem pelo APC. | Até 80x |
| Variante Protrombina G20210A | Substituição de nucleotídeo que eleva os níveis de antígeno de protrombina. | Aumentado |
| Deficiência de Antitrombina (AT) | Principal inibidor da trombina. Deficiência heterozigota é rara. | 5 a 20x |
| Deficiência de Proteína C | Protease dependente de vitamina K; inativa os fatores Va e VIIIa. | 7 a 10x |
| Deficiência de Proteína S | Cofator da Proteína C Ativada. | 2 a 10x |
As formas homozigotas do Fator V Leiden e a deficiência de antitrombina figuram entre as trombofilias hereditárias de maior risco relativo para um primeiro episódio de TEV, podendo elevar o risco em até 80 vezes.
2. Riscos e Prevalência: Comparação de TEV
Cruzando a prevalência na população geral com o risco relativo de um primeiro evento de TEV, é possível contextualizar o real impacto clínico de cada trombofilia:
| Tipo de Trombofilia | Prevalência na População Geral | Risco Relativo de 1º TEV |
|---|---|---|
| Deficiência de Antitrombina (Heterozigótica) | 0,02% | 10 - 30 |
| Deficiência de Proteína C (Heterozigótica) | 0,2 - 0,5% | 8 - 10 |
| Fator V Leiden (Homozigótico) | 0,06 - 0,25% | 80 |
| Síndrome Antifosfolípide | 2% | 5 - 7 |
| Mutação JAK2 | 0,1 - 0,2% | 3,2 (veias esplâncnicas) |
Trombofilia clínica: definida por um forte histórico familiar e episódio trombótico confirmado, ou por mais de um parente de primeiro grau com TEV — mas anomalias genéticas são identificadas em apenas 50% desses casos.
3. Trombofilias Adquiridas e Condições Especiais
Síndrome Antifosfolípide (SAF): a trombofilia adquirida mais clinicamente relevante, caracterizada por tromboses em qualquer leito vascular (arterial ou venoso) e complicações obstétricas. O diagnóstico requer a presença de anticorpos antifosfolípides (aPL) em duas ocasiões, com pelo menos 12 semanas de intervalo.
Testes essenciais para SAF:
- Anticoagulante lúpico
- Anticorpos anticardiolipina (IgG e IgM)
- Anticorpos anti-beta-2 glicoproteína I (IgG e IgM)
Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN): doença hematológica rara causada por mutações somáticas no gene PIGA. O uso de eculizumabe (anticorpo monoclonal anti-C5) alterou o prognóstico, mas pacientes com histórico de TEV devem manter a anticoagulação indefinidamente.
4. Deficiências de Proteína C e S: Risco de Necrose Cutânea por Varfarina
Pacientes com deficiência de Proteína C ou S apresentam risco aumentado de necrose cutânea induzida por varfarina (antagonistas da vitamina K — VKA). Isso ocorre porque a meia-vida dessas proteínas anticoagulantes é mais curta que a dos fatores de coagulação pró-trombóticos, gerando um estado transitório de hipercoagulabilidade no início do tratamento com VKA.
5. Estratégias de Investigação: Quando Testar para Trombofilia
A decisão de testar deve ser guiada pela utilidade clínica — ou seja, se o resultado vai efetivamente alterar o manejo do paciente.
Quando Considerar Testar
- Primeiro episódio de TVP não provocada, sobretudo abaixo de 40-45 anos
- Histórico familiar forte: parente de primeiro grau com TEV em idade jovem
- Trombose em locais incomuns (veias cerebrais ou viscerais)
- Histórico obstétrico: perda fetal tardia, abortos recorrentes ou pré-eclâmpsia grave
Quando Não Testar
A testagem rotineira não é recomendada para pacientes com TVP provocada por fatores de risco transitórios maiores (como grandes cirurgias ou traumas), pois o risco de recorrência é baixo e o resultado não alterará a duração do tratamento (geralmente 3 meses).
Locais Incomuns
Tromboses em veias cerebrais ou viscerais reforçam a indicação de investigação de trombofilia.
Histórico Obstétrico
Perda fetal tardia, abortos recorrentes ou pré-eclâmpsia grave são indicações relevantes de testagem.
Momento Ideal para o Teste
Nunca na fase aguda: aguardar 2 semanas após VKA ou 3 dias após DOACs. Testes genéticos podem ser feitos a qualquer momento.
6. Recomendações Clínicas Oficiais (ESVS 2021)
A tabela abaixo resume as recomendações de Classe I, IIa e III para a investigação de trombofilias:
| Recomendação | Classe | Nível |
|---|---|---|
| Para pacientes com TVP provocada, a testagem de trombofilia não é recomendada. | III | C |
| Para pacientes com TVP não provocada, a testagem rotineira para trombofilias hereditárias não é recomendada. | III | C |
| Para pacientes com TVP não provocada e histórico familiar de TEV em parente de primeiro grau, a testagem deve ser considerada. | IIa | C |
| Para pacientes com TVP não provocada, a testagem para anticorpos antifosfolípides deve ser considerada se a interrupção da anticoagulação estiver sendo planejada. | IIa | C |
7. Manejo e Anticoagulação em Populações com Trombofilia
O objetivo principal do tratamento é a prevenção da recorrência e da Síndrome Pós-Trombótica (SPT), organizado nas mesmas três fases já conhecidas: fase inicial (até 10 dias), fase principal (primeiros 3 meses) e fase estendida (além de 3 meses).
DOACs: Uso Individualizado
Apixabana, rivaroxabana, edoxabana e dabigatrana são amplamente utilizados, mas em trombofilias de alto risco ou combinadas o manejo deve ser individualizado.
Concentrados de Antitrombina
Pacientes com deficiência de AT podem necessitar de concentrados (plasmáticos ou recombinantes) em situações de estresse hemostático quando a anticoagulação não pode ser administrada.
Encaminhamento Especializado
Pacientes com defeitos trombofílicos combinados ou trombofilias graves (deficiência de AT ou SAF) devem ser referenciados a especialistas em trombose.
8. DOACs vs. AVK na SAF e Duração da Terapia
DOACs em trombofilias moderadas: dados do estudo RE-MEDY sugerem que a dabigatrana é não inferior à varfarina em pacientes com trombofilias comuns (como Fator V Leiden heterozigótico).
Os DOACs não devem ser usados em pacientes com SAF triplo-positiva ou com histórico de trombose arterial/de pequenos vasos, devido ao alto risco de eventos recorrentes.
Para pacientes com SAF triplo-positiva, o tratamento preferencial é com Antagonista da Vitamina K (AVK), com alvo de INR entre 2,0 e 3,0.
Para pacientes com TVP e trombofilia de alto risco (SAF, Fator V Leiden homozigótico, deficiências de AT, Proteína C ou S), recomenda-se considerar terapia anticoagulante em dose plena estendida, com reavaliação periódica.
Esses pacientes devem ter seguimento de longo prazo com um especialista em trombofilia, para aconselhamento e manejo de situações de estresse hemostático.
Decisão individualizada: a utilidade dos testes de trombofilia para guiar o tratamento é controversa. A decisão de estender a anticoagulação deve considerar o fenótipo clínico — o evento foi provocado ou não, qual o local da trombose, houve recorrência — independentemente do status biológico de trombofilia. A presença de uma trombofilia grave pode encorajar a extensão indefinida, especialmente em eventos não provocados, mas a decisão deve sempre equilibrar o risco de recorrência com o risco de sangramento, que é maior nos primeiros três meses de terapia.
Considerações Finais
A trombofilia adiciona uma camada importante de complexidade ao manejo da TVP, mas não deve ser vista isoladamente: o contexto clínico do evento — provocado ou não, local da trombose, histórico familiar e obstétrico — permanece o principal guia para decidir quem testar e por quanto tempo tratar. Trombofilias de alto risco, como a SAF triplo-positiva, o Fator V Leiden homozigótico e as deficiências de antitrombina, Proteína C ou S, justificam consideração de anticoagulação estendida e acompanhamento especializado de longo prazo. Já a testagem rotineira em TVP provocada ou como triagem sistemática deve ser evitada, reservando-se aos cenários em que o resultado efetivamente mudará a conduta.
*Este texto tem caráter de revisão e atualização para profissionais de saúde, com base na diretriz internacional citada. Não substitui a avaliação clínica individualizada de cada paciente.
Ref: Kakkos SK, Gohel M, Baekgaard N, et al. Editor's Choice – European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2021 Clinical Practice Guidelines on the Management of Venous Thrombosis. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2021;61(1):9-82.
Perguntas Frequentes
O que é trombofilia e o rastreamento substitui a avaliação clínica?
Qual a diferença de risco entre Fator V Leiden heterozigoto e homozigoto?
O que é a Síndrome Antifosfolípide (SAF) e como ela é diagnosticada?
Por que pacientes com deficiência de Proteína C ou S têm risco de necrose cutânea com varfarina?
Quando a testagem de trombofilia deve ser considerada, e quando não deve?
Qual anticoagulante é preferido na SAF triplo-positiva, e por quanto tempo deve durar o tratamento em trombofilias de alto risco?
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