TVP: Diretrizes ESVS 2021 — Parte 3.2: TVP em Sítios Incomuns
TVP em sítios incomuns pela ESVS 2021: trombose em veias cerebrais, jugulares, abdominais (mesentérica) e pélvicas, base de evidências geralmente Nível C, investigação de trombofilias hereditárias e adquiridas, caminho diagnóstico (Escore de Wells, D-dímeros, DUS/WLUS, imagens avançadas) e estratégia de anticoagulação por fase aguda e duração.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Na Parte 3.1, abrimos o terceiro bloco das diretrizes ESVS 2021 com a Trombose Venosa Profunda de Extremidade Superior (TVPES). Avançamos agora para o Capítulo 3.2, dedicado à TVP em Sítios Incomuns — tromboses que ocorrem fora do território clássico de membros inferiores, como nas veias cerebrais, jugulares, abdominais (incluindo a mesentérica) e pélvicas, exigindo investigação etiológica ativa e atenção especial às trombofilias.

Assista: TVP em Sítios Incomuns e Relacionada a Cateter (CRT) — ESVS 2021
1. Definição: Locais de Acometimento Atípicos
A TVP em sítios incomuns abrange tromboses que ocorrem fora do território venoso clássico de membros inferiores. Embora compartilhem a fisiopatologia geral da Tríade de Virchow, esses eventos apresentam alta heterogeneidade clínica — variando de quadros assintomáticos a emergências neurológicas ou abdominais — e exigem uma abordagem diagnóstica e etiológica diferenciada.
Veias Cerebrais
Trombose de seios venosos cerebrais — quadro neurológico que exige investigação etiológica ativa.
Veias Jugulares
Frequentemente associada a cateteres venosos centrais (ver Parte 3.3).
Veias Abdominais (Mesentérica)
Inclui a trombose da veia mesentérica, de apresentação abdominal inespecífica.
Veias Pélvicas
Pode estar associada a fatores hormonais, gestação ou compressão anatômica.
2. Achado-Chave: uma Base de Evidências Limitada
A maioria das recomendações para TVP em sítios incomuns deriva de relatos ou séries de casos, refletindo a raridade e a heterogeneidade dessas apresentações. O nível de evidência é geralmente baixo (Nível C), o que reforça a importância da individualização e do julgamento clínico especializado.
3. Trombofilias: Quando e Por Que Investigar
Diferentemente da TVP provocada de membros inferiores — onde o teste de trombofilia não é recomendado de rotina —, a ocorrência de trombose em um sítio incomum é, por si só, um gatilho crítico para a investigação hematológica.
Relevância Diagnóstica
O teste de trombofilia é considerado potencialmente útil em TVP de sítios incomuns (ex: veias cerebrais), especialmente em eventos não provocados.
Perfil do Paciente
A utilidade é maior em pacientes jovens (abaixo de 45 anos) ou com histórico familiar de primeiro grau de TEV.
Marcadores Específicos
A presença de trombofilias graves pode encorajar o tratamento estendido (duração indefinida).
4. Trombofilias Hereditárias e Adquiridas: Tabela de Risco
A tabela abaixo resume as condições a considerar no diagnóstico diferencial de tromboses em sítios atípicos, e seu impacto relativo no risco de tromboembolismo venoso (TEV):
| Tipo | Condição / Marcador | Impacto no Risco de TEV |
|---|---|---|
| Hereditária | Deficiência de Antitrombina | Aumento de 5 a 20 vezes |
| Hereditária | Deficiência de Proteína C ou S | Aumento de 2 a 10 vezes |
| Hereditária | Fator V Leiden (Heterozigoto) | Aumento de 3 a 8 vezes |
| Hereditária | Variante de Protrombina G20210A | Aumento moderado de risco |
| Adquirida | Síndrome Antifosfolípide (SAF) | Aumento de 20 a 80 vezes |
| Adquirida | Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN) | Risco trombótico elevado via ativação de complemento |
| Adquirida | Síndromes Mieloproliferativas (JAK2V617F) | Risco aumentado de trombose sistêmica |
5. Caminho Diagnóstico Sistematizado
O sucesso no manejo da TVP — em sítios clássicos ou incomuns — depende da aderência a protocolos validados:
Escore de Wells: a avaliação de probabilidade pré-teste deve preceder qualquer exame de imagem, categorizando o risco como "provável" ou "improvável".
D-dímeros: possuem alto valor preditivo negativo (99-100%), sendo úteis para excluir TVP em casos de baixa probabilidade.
Ultrassonografia (DUS): é a modalidade de primeira linha. Em suspeita de TVP distal ou em sítios que dificultam a compressão, a ultrassonografia de perna inteira (WLUS) é recomendada.
Imagens Avançadas: venografia por TC ou RM, indicadas quando a ultrassonografia é inconclusiva ou inviável — especialmente em território pélvico, veia cava ou veias cerebrais.
6. Estratégia de Anticoagulação: Fase Aguda
Na fase aguda, a anticoagulação imediata com Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) ou Heparina Não Fracionada (HNF) é o primeiro passo do tratamento, independentemente do sítio acometido.
7. Duração do Tratamento: Fator de Risco Transitório vs. Permanente
Após a fase aguda, a decisão sobre a duração da anticoagulação depende da natureza do fator de risco identificado:
Indicado quando associado a um fator de risco transitório (ex: cirurgia recente, imobilização).
Considerada quando associado a um fator de risco permanente — especialmente na presença de trombofilias graves (ver seção 3).
Considerações Finais
A TVP em sítios incomuns — cerebral, jugular, abdominal/mesentérica e pélvica — exige um alto índice de suspeição etiológica, com investigação ativa de trombofilias hereditárias e adquiridas, especialmente em pacientes jovens, eventos não provocados ou com histórico familiar de TEV. O caminho diagnóstico segue os mesmos princípios da TVP clássica (Escore de Wells, D-dímeros, DUS/WLUS e imagens avançadas quando necessário), enquanto a duração da anticoagulação — 3 meses ou indefinida — deve ser definida conforme a natureza transitória ou permanente do fator de risco identificado.
*Este texto tem caráter de revisão e atualização para profissionais de saúde, com base na diretriz internacional citada. Não substitui a avaliação clínica individualizada de cada paciente.
Ref: Kakkos SK, Gohel M, Baekgaard N, et al. Editor's Choice – European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2021 Clinical Practice Guidelines on the Management of Venous Thrombosis. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2021;61(1):9-82.
Perguntas Frequentes
O que são os 'sítios incomuns' de TVP?
Por que a base de evidências para TVP em sítios incomuns é mais limitada?
Quando investigar trombofilias em TVP de sítios incomuns?
Quais trombofilias têm maior impacto no risco de TEV?
Como é o caminho diagnóstico para TVP em sítios incomuns?
Como é definida a duração da anticoagulação na TVP de sítios incomuns?
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