TVP: Diretrizes ESVS 2021 — Parte 3.3: TVP Relacionada a Cateter (CRT)
TVP relacionada a cateter (CRT) pela ESVS 2021: incidência (16-18% nos pacientes com CVC, 1-5% sintomáticos), mecanismos de formação (Tríade de Virchow) e tipos de cateteres, Trombocitopenia Induzida por Heparina (HIT) e Escore 4T, recomendações sobre quando remover o cateter e protocolo de anticoagulação, complicações graves, farmacologia dos DOACs, reversão de sangramento e abordagem diagnóstica.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: TVP relacionada a cateter central (CRT) ocorre em 15–30% dos CVCs sintomáticos. Anticoagulação por no mínimo 3 meses ou durante toda a permanência do cateter (o que for maior). CVC funcional e necessário pode ser mantido. DOACs são aceitáveis. Substituição rotineira de CVC sem indicação clínica não é recomendada — ESVS 2021.
Na Parte 3.2, abordamos a TVP em sítios incomuns e a investigação de trombofilias. Completamos agora o par de capítulos com o Capítulo 3.3, dedicado à TVP Relacionada a Cateter (CRT) — uma complicação frequente em ambientes hospitalares, associada ao uso de cateteres venosos centrais (CVC) e intervenções endovasculares, que exige atenção especial à Trombocitopenia Induzida por Heparina (HIT) e a decisões sobre manutenção ou remoção do dispositivo.

Assista: TVP em Sítios Incomuns e Relacionada a Cateter (CRT) — ESVS 2021
1. Definição, Incidência e Manifestação Clínica
A trombose relacionada a cateteres (CRT) é uma complicação frequente em ambientes hospitalares, associada ao uso de cateteres venosos centrais (CVC) e intervenções endovasculares. A presença de dispositivos intravasculares altera o fluxo venoso e pode causar danos à parede do vaso, completando a Tríade de Virchow (estase, lesão endotelial e hipercoagulabilidade).
Incidência (pacientes com CVC, quando rastreados)
16-18%
Apresentam Sintomas Clínicos
1-5%
2. Mecanismos de Formação (Tríade de Virchow) e Tipos de Cateteres
Lesão do Vaso
Dano à parede venosa no momento da inserção.
Estase Venosa
Alteração do fluxo normal pelo dispositivo.
Movimento Contínuo
Atrito repetido do cateter contra o endotélio.
Hipercoagulabilidade
Estados sistêmicos predisponentes (ex: câncer, infecção).
Os dispositivos mais frequentemente envolvidos incluem cateteres tunelizados e não tunelizados, cateteres de diálise, port-a-caths e cateteres centrais de inserção periférica (PICCs).
Uma meta-análise de fatores de risco para CRT em 5.636 pacientes oncológicos identificou:
- Local de inserção: femoral > subclávia > jugular.
- Localização da ponta do cateter: proximal à veia cava superior/junção átrio-VCS apresenta maior risco do que outras localizações.
- Tipo de cateter: PICC (cateter central de inserção periférica) > portas implantadas.
- Trombofilias hereditárias: fator V Leiden — OR 4,6 (IC 95% 2,6-8,1); mutação da protrombina G20210A — OR 4,9 (IC 95% 1,7-14,3).
3. HIT — Trombocitopenia Induzida por Heparina
A HIT é uma complicação crítica em pacientes expostos à heparina durante procedimentos de cateterismo. A incidência varia de <0,1% em obstetrícia a 1-5% em pacientes cirúrgicos recebendo heparina não fracionada (HNF). O mecanismo é uma reação imune contra o complexo fator plaquetário 4 (PF4)-heparina, gerando um estado extremamente pró-trombótico.
Escore 4T: essencial para determinar a probabilidade de HIT antes de testes laboratoriais confirmatórios.
Em suspeita de HIT (Escore 4T intermediário ou alto), a heparina deve ser interrompida imediatamente e substituída por anticoagulantes alternativos, como fondaparinux ou argatrobana.
4. Estratégias de Manejo: Manter ou Remover o Cateter?
O manejo da CRT envolve a decisão entre a manutenção do cateter com anticoagulação ou a remoção do dispositivo, dependendo da necessidade clínica do acesso e da progressão do trombo.
- O cateter não for mais necessário
- O cateter estiver não funcional
- A anticoagulação estiver contraindicada
- Os sintomas não resolverem
- Houver risco de perda do membro ou da vida
Considerar anticoagulação com HBPM isolada ou seguida por Antagonistas da Vitamina K (AVK), por um período mínimo de 3 meses. A anticoagulação inicial com HBPM ou Anticoagulantes Orais Diretos (DOACs) é a base do tratamento.
Prevenção: uma revisão sistemática de 2014, com 12 ECRs em pacientes oncológicos, mostrou que a HNF profilática esteve associada a uma redução significativa na incidência de TVP de extremidade superior sintomática (RR 0,48; IC 95% 0,27-0,86), sem impacto na mortalidade ou em sangramento maior/menor.
Dados do registro RIETE (Registro Informatizado de Enfermedad TromboEmbólica):
- 67% dos pacientes com CRT isolada e 49% dos com CRT + EP foram tratados com HBPM em longo prazo (vs. 27% e 47%, respectivamente, com AVK).
- Ao longo do seguimento (mediana de 3,5 meses na CRT isolada e 4,5 meses na CRT + EP), ocorreram: EP em 2,8%, TVP recorrente em 7% e hemorragia maior em 2,8% dos pacientes anticoagulados.
5. Complicações Graves
Se não adequadamente manejada, a CRT pode evoluir para:
- Recorrência da TVP
- Síndrome Pós-Trombótica (SPT)
- Embolia pulmonar
- Sepse
6. Farmacologia: Propriedades dos DOACs
Para TVP em sítios incomuns ou CRT, a escolha do anticoagulante deve considerar a função renal e a necessidade de reversibilidade imediata.
| Agente | Alvo | Dose Típica (Fase Inicial) | Reversão Específica |
|---|---|---|---|
| Dabigatrana | Trombina (IIa) | 150 mg 2x/dia (após 5 dias de parenteral) | Idarucizumabe |
| Rivaroxabana | Fator Xa | 15 mg 2x/dia por 3 semanas, então 20 mg 1x/dia | Andexanet Alfa |
| Apixabana | Fator Xa | 10 mg 2x/dia por 7 dias, então 5 mg 2x/dia | Andexanet Alfa |
| Edoxabana | Fator Xa | 60 mg 1x/dia (após parenteral) | Andexanet Alfa |
7. Manejo de Sangramento e Reversão de Emergência
Em situações de complicações hemorrágicas durante o tratamento de TVP, os agentes de reversão específicos incluem:
| Anticoagulante | Estratégia de Reversão |
|---|---|
| VKA (Varfarina) | Complexo Protrombínico (PCC) de quatro fatores e Vitamina K IV |
| Heparina Não Fracionada (HNF) | Sulfato de Protamina — neutralização completa |
| HBPM | Sulfato de Protamina — neutralização parcial (30-40% da atividade anti-Xa) |
| Dabigatrana | Idarucizumabe (fragmento de anticorpo monoclonal) — reversão imediata de 100% |
8. Abordagem Diagnóstica Sistematizada
Escore de Wells
A avaliação de probabilidade pré-teste deve preceder qualquer exame de imagem, categorizando o risco como "provável" ou "improvável".
Ultrassonografia (DUS)
Modalidade de primeira linha. Em suspeita de TVP distal ou sítios de difícil compressão, a ultrassonografia de perna inteira (WLUS) é recomendada.
Imagens Avançadas
Venografia por TC ou RM, indicadas quando a ultrassonografia é inconclusiva ou inviável — especialmente em território pélvico, veia cava ou veias cerebrais.
Considerações Finais
O manejo da TVP relacionada a cateter exige alto índice de suspeição para condições subjacentes, como a Trombocitopenia Induzida por Heparina (HIT), avaliação cuidadosa de quando manter ou remover o dispositivo (Recomendação 57), anticoagulação por no mínimo 3 meses (Recomendação 58), e vigilância para complicações graves como recorrência, SPT, embolia pulmonar e sepse. A individualização do tratamento, baseada no risco de recorrência e no perfil de sangramento do paciente, permanece como o pilar das diretrizes ESVS 2021 — tanto para a CRT quanto para a TVP em sítios incomuns.
*Este texto tem caráter de revisão e atualização para profissionais de saúde, com base na diretriz internacional citada. Não substitui a avaliação clínica individualizada de cada paciente.
Ref: Kakkos SK, Gohel M, Baekgaard N, et al. Editor's Choice – European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2021 Clinical Practice Guidelines on the Management of Venous Thrombosis. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2021;61(1):9-82.
Perguntas Frequentes
O que é a TVP relacionada a cateter (CRT) e qual sua incidência?
Quais são os mecanismos de formação do trombo em pacientes com cateteres?
O que é HIT e como avaliar o risco com o Escore 4T?
Quando o cateter relacionado à trombose deve ser removido?
Qual o protocolo de anticoagulação para CRT?
Quais são as complicações graves da CRT e como reverter sangramentos em emergência?
Quer uma segunda opinião?
Este conteúdo é voltado para profissionais de saúde. Para encaminhamento de paciente, segunda opinião ou discussão de conduta com o Dr. Maurício, entre em contato direto pelo WhatsApp.
Saiba como funciona o Eco-DopplerLeia também
Tem dúvidas? Agende uma avaliação vascular
Agendar pelo WhatsApp