Manejo Perioperatório de DOACs
Protocolo baseado em evidências (JAMA 2024) para suspensão e retomada de apixabana, rivaroxabana, edoxabana e dabigatrana em procedimentos eletivos e de urgência.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Cerca de 20% dos pacientes em uso de DOACs passam por algum procedimento cirúrgico ou invasivo anualmente. O manejo perioperatório exige decisões precisas sobre interrupção pré-operatória e retomada pós-operatória para minimizar simultaneamente os riscos de tromboembolismo e sangramento — sem recorrer à terapia de ponte, que comprovadamente prejudica.

Visão geral do protocolo: farmacologia, cronograma de interrupção/retomada, ajuste renal e manejo em urgência.
Assista: Manejo Perioperatório de DOACs — Protocolo Atualizado
1. Fundamentos Farmacológicos
Os DOACs inibem seletivamente o fator Xa (apixabana, rivaroxabana, edoxabana) ou o fator IIa / trombina (dabigatrana). Suas propriedades farmacocinéticas são a base de todo o protocolo perioperatório:
| Propriedade | Apixabana | Rivaroxabana | Edoxabana | Dabigatrana |
|---|---|---|---|---|
| Mecanismo | Inh. Fator Xa | Inh. Fator Xa | Inh. Fator Xa | Inh. Fator IIa |
| Meia-vida (h) | 9–11 | 9–11 | 10–14 | 12–14 (até 24h se CrCl <50) |
| Pico de Ação (h) | 2–3 | 2–3 | 2–3 | 2–3 |
| Clearance Renal | 25% | 33% | 50% | 80% |
| Reversor | Andexanet-alfa / PCC | Andexanet-alfa / PCC | Andexanet-alfa / PCC | Idarucizumabe / PCC |
2. Estratificação do Risco de Sangramento
O tempo de interrupção é determinado pela categoria de risco hemorrágico do procedimento:
Risco Mínimo
- • Extrações dentárias simples
- • Procedimentos dermatológicos menores
- • Cirurgia de catarata (facoemulsificação)
- • Implante de marca-passo / CDI
- • Angiografia coronária via artéria radial
Risco Baixo / Moderado
- • Colecistectomia laparoscópica
- • Reparo de hérnia abdominal
- • Histerectomia abdominal
- • Biópsia de linfonodo
- • Colonoscopia ± biópsia*
- • Endoscopia gastrointestinal
- • Cirurgia de pé ou mão
Risco Alto
- • Qualquer cirurgia com anestesia neuraxial
- • Cirurgia oncológica de grande porte
- • Artroplastia total de quadril ou joelho
- • Cirurgia cardíaca, intracraniana ou espinhal
- • Ressecção transuretral próstata/bexiga
- • Biópsia renal ou hepática
- • Bloqueios de nervo profundo
* Colonoscopia com polipectomia de pólipo >1 cm eleva o risco para Alto — interromper 2 dias antes e atrasar retomada 1–2 dias pós-procedimento (total 4–5 dias).
3. Cronograma de Interrupção e Retomada (Procedimentos Eletivos)

Figura 1 — Cronograma perioperatório de DOACs por risco e regime de dosagem (adaptado de Douketis & Spyropoulos, JAMA 2024).
| Risco | Quando Parar | Intervalo sem DOAC | Quando Retomar |
|---|---|---|---|
| Mínimo | Manter. Omitir dose matinal (2×/dia) ou atrasar para noite (1×/dia) | ~12h (mínima) | Mesmo dia — noite do procedimento |
| Baixo / Moderado | 1 dia antes | ~30–36h (≈3 meias-vidas) | 24h após (hemostasia confirmada) |
| Alto | 2 dias antes | ~60–68h (≈5 meias-vidas) | 48–72h após (hemostasia confirmada) |
⚠️ Ajuste renal — Dabigatrana (CrCl 30–49 mL/min)
A meia-vida da Dabigatrana pode atingir 18–24h em pacientes com CrCl 30–49 mL/min. O protocolo deve ser estendido:
- • Risco Baixo/Moderado: interromper 2 dias antes (+1 dia adicional)
- • Risco Alto: interromper 4 dias antes (+2 dias adicionais)
- • CrCl <30 mL/min: Dabigatrana é contraindicada
🚫 Sem "Ponte" (Bridging) com Heparina
O LMWH como ponte em pacientes com DOAC aumenta sangramento de 1,8% para 6,8% (P<0,001) sem reduzir tromboembolismo arterial (0,3% vs 0,5%; P=0,46) — estudo PAUSE, n=3.007. A exceção é a LMWH em dose profilática (não terapêutica) por 48–72h pós-operatórias em cirurgias de alto risco para TVP (ortopédicas maiores, oncológicas), aguardando liberação para o DOAC.
4. Anestesia Neuraxial — Protocolo Especial
Para minimizar o risco de hematoma epidural — raro, mas com potencial de paraplegia irreversível —, as diretrizes ASRA e ESRA recomendam janela maior que o protocolo eletivo padrão:
Apixabana · Edoxabana · Rivaroxabana
3 dias antes
Intervalo >72h entre última dose e punção neuraxial.
Dabigatrana
4 dias antes
Meia-vida prolongada exige janela adicional. Aplicável também a bloqueios de nervo profundo e injeções epidurais de esteroides.
5. Algoritmo para Emergência e Urgência
Pacientes em uso de DOACs submetidos a cirurgias de emergência (<6h) ou urgência (6–24h) apresentam taxas de sangramento de 17–23% e tromboembolismo de 7–16%:

Figura 2 — Abordagem ao manejo perioperatório de DOACs em procedimentos eletivos e emergentes/urgentes (adaptado de Douketis & Spyropoulos, JAMA 2024).
Emergente (<6h)
- <50 ng/mL: Prosseguir à cirurgia
- ≥50 ng/mL ou nível desconhecido: Considerar reversão → prosseguir
Urgente (6–24h)
- <50 ng/mL: Prosseguir
- ≥50 ng/mL: Repetir após 8–12h; se ainda ≥50, considerar reversão
- Nível desconhecido: Considerar reversão se última dose ≤48h
Semiurgente (25–48h)
- <50 ng/mL: Prosseguir
- ≥50 ng/mL ou desconhecido: Aguardar 48h desde a última dose → prosseguir
Mensuração do Nível de DOAC
Anti-fator Xa (ng/mL) para apixabana, rivaroxabana e edoxabana; dilute thrombin time (segundos) para dabigatrana. Resultado em <30 min. Disponibilidade limitada fora de grandes centros — decisão clínica deve ser feita mesmo sem o exame.
6. Agentes de Reversão — Indicações e Custos
Idarucizumabe
Específico — Dabigatrana
5g IV — reverte efeito em minutos. Hemostasia normal em 93,4% dos casos (REVERSE-AD).
US$ 5.000–6.000
Andexanet-alfa
Específico — Inibidores Fator Xa
Atenção: associado a aumento de AVC/trombose vs PCC (10,3% vs 5,6%; P=0,048) — usar com cautela em pacientes com histórico trombótico.
US$ 10.000–12.000
PCC / PCC Ativado
Inespecífico — Todos os DOACs
Opção quando reversores específicos não estão disponíveis. Eficácia comparável ao Andexanet em estudos retrospectivos, com menor taxa de eventos trombóticos.
US$ 4.000–7.000
7. Considerações por Especialidade
🦷 Odontologia
A maioria dos procedimentos pode ser realizada sem interrupção. Para hemostasia local: bochechos com ácido tranexâmico (500 mg triturado em 5–10 mL de água) 3–4×/dia pós-procedimento.
🔬 Endoscopia / Colonoscopia
Colonoscopia simples: risco baixo/moderado — interromper 1 dia antes, retomar 1 dia após. Polipectomia de pólipo >1 cm (Alto risco): interromper 2 dias antes e atrasar retomada 1–2 dias pós-procedimento — total 4–5 dias de interrupção.
🏥 Pós-operatório sem VO
Em pacientes com gastroparesia ou íleo pós-op que não conseguem retomar medicação oral por 2–4 dias: usar HBPM em dose profilática (enoxaparina 40 mg/dia ou dalteparina 5.000 UI/dia) até retomada do DOAC.
8. Melhores Práticas e Evidências do Estudo PAUSE
Resultados do estudo PAUSE (n=3.007)
Pacientes com FA usando apixabana, dabigatrana ou rivaroxabana submetidos a procedimentos eletivos com protocolo padronizado sem bridging:
1–2%
Sangramento maior em 30 dias
0,2–0,4%
Tromboembolismo arterial em 30 dias
✅ Recomendado
- • Protocolo padronizado por risco de sangramento
- • Comunicação interdisciplinar (cirurgião, anestesiologista, farmacêutico)
- • Ferramentas de suporte digital (thrombosiscanada.ca)
- • LMWH profilática (não terapêutica) em alto risco de TEV pós-op
🚫 Não recomendado
- • Bridging com LMWH terapêutica em DOACs
- • Dosagem de nível de DOAC em cirurgias eletivas
- • Cancelamento por ausência de exame de coagulação de rotina (RNI)
- • Andexanet-alfa em pacientes com AVC ou trombose prévia
Referência científica
Douketis JD, Spyropoulos AC. Perioperative Management of Patients Taking Direct Oral Anticoagulants: A Review. JAMA. Published online August 12, 2024. doi:10.1001/jama.2024.12708
Revisão sistemática de 99 estudos (26 ensaios clínicos, 30 observacionais, 28 revisões e 15 diretrizes) publicados entre janeiro/2012 e março/2024 — base de evidência de todas as recomendações deste artigo.
Link para o artigo original: doi:10.1001/jama.2024.12708
Perguntas Frequentes
A terapia de ponte (bridging) com heparina ainda tem indicação em pacientes usando DOACs?
É necessário dosar o nível plasmático do DOAC antes de procedimentos eletivos?
Qual o protocolo para pacientes com Dabigatrana e função renal reduzida (CrCl 30–49 mL/min)?
Qual a conduta para procedimentos com anestesia neuraxial (espinhal ou epidural)?
Quando usar agentes de reversão (Idarucizumabe ou Andexanet-alfa)?
Como manejar DOACs em colonoscopia com polipectomia de pólipo grande (>1 cm)?
Quer uma segunda opinião?
Este conteúdo é voltado para profissionais de saúde. Para encaminhamento de paciente, segunda opinião ou discussão de conduta com o Dr. Maurício, entre em contato direto pelo WhatsApp.
Leia também
Tem dúvidas? Agende uma avaliação vascular
Agendar pelo WhatsApp