Doppler Arterial Aortoilíaco e de Membros Inferiores: Razão V2/V1 e Padrões de Curva
Como o Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC gradua estenoses e oclusões do eixo aortoilíaco e dos membros inferiores, lê a curva da femoral comum, interpreta os padrões espectrais e avalia aneurismas, pseudoaneurismas e stents.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Estenose arterial periférica se gradua pela razão V2/V1 (VPS no ponto de maior velocidade ÷ VPS 1–2 cm antes no aortoilíaco ou 1–4 cm antes nos membros, ângulo ≤60°): <2 = <50%; ≥2 = ≥50%; ≥4 = ≥70%. No eixo aortoilíaco, VPS >300 cm/s também indica lesão significativa. Curva trifásica na femoral comum praticamente afasta lesão aortoilíaca; monofásica parvus-tardus e VPS ≤45 cm/s sugerem oclusão (DIC/SBC 2016 e 2019).
Diferente das carótidas, com suas tabelas em decis, o território arterial periférico se resolve com um critério só: a razão entre a velocidade no ponto de estenose e a velocidade logo antes dela. A recomendação do DIC/SBC aplica a mesma regra da aorta às tibiais, acrescenta pistas indiretas preciosas — a curva da femoral comum — e organiza os padrões espectrais numa tabela que vale ter à mão no laboratório.

Quando pedir
Eixo aortoilíaco
- Claudicação com pulso femoral diminuído ou ausente; claudicação glútea; disfunção erétil
- Dor em repouso; isquemia aguda por embolia distal
- Sopro abdominal; ITB reduzido; curva femoral alterada em exame prévio
- Seguimento de enxertos e stents; suspeita de dissecção ou arterite
Membros inferiores
- Diagnóstico anatômico em sintomáticos candidatos a revascularização e planejamento cirúrgico
- Seguimento da progressão; aneurismas periféricos; pseudoaneurismas (diagnóstico e tratamento)
- Enxertos autógenos ou sintéticos; sítios de angioplastia, stent, trombólise e aterectomia
- Trauma, massas, dissecção, embolia, malformações, FAV, aprisionamento da poplítea
Graduação: a razão V2/V1
Identificada a placa no modo B e o ponto de turbulência no color, mede-se a VPS no local de maior velocidade (V2) e no segmento normal imediatamente proximal (V1: 1 a 2 cm antes no eixo aortoilíaco; 1 a 4 cm antes nos membros), sempre com ângulo ≤ 60° paralelo ao jato.
| Classificação | Razão V2/V1 | Comportamento habitual a jusante |
|---|---|---|
| Estenose < 50% | < 2,0 | Trifásico |
| Estenose ≥ 50% | ≥ 2,0 | Pode permanecer trifásico, com aceleração preservada |
| Estenose ≥ 70% | ≥ 4,0 | VDF sobe no ponto; jusante monofásica, TA prolongado, VPS baixa |
| Oclusão | Ausência de fluxo, mesmo com parâmetros para baixas velocidades | |
Fonte: Santos SN et al., Arq Bras Cardiol 2019, Tabelas 11 e 17; Alcântara ML et al., 2016.
No eixo aortoilíaco, VPS acima de 300 cm/s também é aceita como marcador de lesão hemodinamicamente significativa. Contra a angiografia, o USV tem sensibilidade de 86% e especificidade de 97% para lesões acima de 50%, e um exame negativo tem alto valor preditivo negativo — evita arteriografias desnecessárias. Na série de Back et al., 70% dos pacientes foram operados apenas com o mapeamento por ultrassom.
A femoral comum como janela para o aortoilíaco
Quando o abdome não colabora — ou quando é preciso afastar rápido uma lesão proximal —, três parâmetros na artéria femoral comum resolvem boa parte dos casos, sem grande interferência de lesões contralaterais ou femorais, desde que haja algum escoamento distal:
- Morfologia: trifásica praticamente afasta lesão aortoilíaca significativa. Bifásica (perde o reverso, mas mantém ascensão rápida, estreita e alta) aparece em 94% das estenoses de 50–99%. Monofásica (ascensão lenta, amortecida, diástole toda acima da linha de base) aparece em cerca de 80% das oclusões. A leitura qualitativa tem acurácia de 90%, mas não separa bem estenose de oclusão.
- VPS na femoral comum: 90% dos pacientes com estenose têm VPS acima de 45 cm/s; cerca de 80% dos que têm oclusão, VPS de até 45 cm/s. Acurácia de cerca de 85% para oclusão, perto de 90% quando somada à curva monofásica.
- Tempo de aceleração: prolongado nas artérias distais indica lesão significativa a montante.
Oclusão e embolia
Antes da oclusão, curva de alta resistência, pico sistólico baixo e estreito e ausência de diástole. No segmento, nenhuma cor; colaterais de saída e o ponto de reenchimento podem ser localizados. Depois, curva monofásica com VPS reduzida e tempo de aceleração longo (parvus-tardus). Uma imagem hipoecoica com interface côncava voltada ao fluxo colorido, somada a curva pré-oclusiva em staccato, sugere oclusão tromboembólica.
Os padrões de curva arterial
| Padrão | Características | Situação |
|---|---|---|
| Trifásico | Normal, em jovens | Indivíduos normais |
| Trifásico sem componente elástico | Perda da elasticidade do vaso | Idosos normais; desalinhamento do feixe |
| Bifásico hiperêmico | Sem reverso, toca a linha de base; velocidades aumentadas | Processos inflamatórios; vasodilatação reativa |
| Bifásico pós-obstrutivo | Sem reverso, toca a linha de base; velocidades baixas | Após obstruções moderadas |
| Bifásico com reverso pandiastólico | Velocidades normais | Vaso que fornece colaterais a território estenótico |
| Bifásico "to-and-fro" | Reverso pandiastólico acentuado | Pseudoaneurisma; endoleak tipo II |
| Monofásico agudo | Velocidade baixa, TA pouco aumentado | Pós-estenose moderada a importante, com reserva de vasodilatação |
| Monofásico amortecido | Velocidade baixa, TA aumentado | Pós-estenose importante ou pós-oclusão, com reserva |
| Monofásico extremamente amortecido | Velocidade muito baixa, TA muito aumentado | Pós-oclusão, com reserva |
| Monofásico sem diástole | Velocidade extremamente baixa, sem fluxo diastólico | Pós-oclusão SEM reserva; lesões multissegmentares graves |
| Contínuo | TA tão longo que não se distingue VPS de VDF | Pós-oclusão com reserva; lesões multissegmentares graves |
| Reverso | Velocidade baixa, pode estar amortecido | Enchimento retrógrado de vaso com oclusão proximal |
Adaptado de Santos SN et al., Arq Bras Cardiol 2019, Tabela 18. TA: tempo de aceleração; VDF: velocidade diastólica final; VPS: velocidade de pico sistólico.
Protocolo: o que cada modo faz
- Modo B: transverso para diâmetro e parede (e medir dilatações e, se possível, a luz estenosada); longitudinal para aspecto da parede, luz e extensão da lesão.
- Color: perviedade pelo preenchimento da luz; aliasing em mosaico marca a turbulência e guia o volume de amostra até o ponto de maior velocidade.
- Doppler pulsado: curva no longitudinal com ângulo ≤ 60° — normal multifásica; na lesão, V2 e V1; após a lesão, turbulência ou queda da velocidade; parvus-tardus = repercussão hemodinâmica.
- Segmentos: femoral comum, femoral superficial (proximal, média e distal), poplítea, tronco tibiofibular, tibiais anterior e posterior e fibular.
Aneurisma, pseudoaneurisma e pós-intervenção
- Aneurisma periférico: localizar e medir o maior diâmetro no transverso, de adventícia a adventícia; documentar trombo com o color.
- Pseudoaneurisma: não envolve todas as camadas e tem um canal até a luz. Medir saco e colo; fluxo "to-and-fro" no colo. O Doppler guia a punção para trombina e confirma a trombose em qualquer modalidade de tratamento.
- Stents aortoilíacos: sem critério consolidado de reestenose; tendência a usar razão de VPS > 3,5, com redução do lúmen e turbulência. Ausência de fluxo = oclusão. Fratura: confirmar por radiografia.
- Enxertos: avaliar artérias doadora e receptora, anastomoses (aneurisma anastomótico, desproporção de calibre) e corpo; em femorofemoral, VPS > 300 cm/s na estenose pode justificar reintervenção. Não há prova de que vigiar enxertos sintéticos aortoilíacos aumente a perviedade.
Laudo e limitações
O laudo informa dificuldades técnicas; aspecto das paredes e diâmetros quando necessário; presença, aspecto, localização e grau das placas; velocidades nas estenoses e curva pós-estenótica; e oclusões segmentares ou totais. No eixo aortoilíaco, inclui o maior diâmetro da aorta e das ilíacas se houver dilatação.
Limitações: dependência do examinador e do equipamento, edema dos membros e úlceras abertas; no abdome, obesidade, meteorismo e abdome hostil.
Referências:
Santos SN, Alcantara ML, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Posicionamento de Ultrassonografia Vascular do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;112(6):809-849. doi:10.5935/abc.20190106
Alcântara ML, Santos SN, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Recomendações para Avaliação Ultrassonográfica da Aorta Abdominal e Ramos: Grupo de Trabalho do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – DIC – SBC. Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc. 2016;29(nº especial):e1-e68. doi:10.5935/2318-8219.20160012
Resumo independente, sem vínculo com as sociedades autoras. Não substitui a leitura dos documentos originais.
Perguntas Frequentes
Como graduar uma estenose arterial periférica pelo Doppler?
A curva da artéria femoral comum ajuda a avaliar o segmento aortoilíaco?
Qual o significado de uma curva monofásica sem fluxo diastólico?
Como o Doppler diagnostica um pseudoaneurisma?
Existe critério de velocidade para reestenose de stent ilíaco?
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