Doppler das Artérias Renais: VPS, Índice Renal-Aorta, Parvus-Tardus e Stent
Como o Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC orienta o estudo das artérias renais: quando investigar, técnica em supino e decúbito lateral, critérios diretos e indiretos de estenose significativa, oclusão, seguimento após stent e o que o laudo precisa conter.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Estenose ≥60% da artéria renal: VPS ≥200 cm/s e índice renal-aorta (VPS renal ÷ VPS aórtica) ≥3,5; ≥80% quando também VDF ≥150 cm/s e fluxo intrarrenal parvus-tardus com TA ≥70 ms. Oclusão: sem fluxo e rim <8,5 cm. Diferença >1,5 cm entre os rins é critério indireto. Após stent, reestenose ≥60% com VPS >390 cm/s e IRA ≥5; seguimento no 1º e 6º mês e depois anual (DIC/SBC 2016 e 2019).
A estenose da artéria renal é a causa mais comum de hipertensão secundária (1% a 6% dos hipertensos) e um marcador independente de infarto, AVC e morte cardiovascular. Entre os métodos de imagem, o ultrassom é o ponto de partida: sem radiação, sem contraste nefrotóxico e, em laboratórios competentes, raramente discordante da arteriografia. A recomendação brasileira combina critérios na própria artéria e no rim.

Quando investigar
- Hipertensão iniciada com 30 anos ou menos
- Hipertensão grave iniciada com 55 anos ou mais
- Hipertensão acelerada (piora súbita ou persistente de pressão antes controlada)
- Hipertensão resistente (falha de três classes em dose plena, incluindo diurético)
- Hipertensão maligna, com lesão aguda de órgão-alvo
- Piora da função renal após IECA ou BRA
- Atrofia renal inexplicada ou diferença de tamanho entre os rins > 1,5 cm
- Edema pulmonar súbito e inexplicado (flash pulmonary edema)
- Insuficiência renal ou cardíaca inexplicadas; angina refratária; DAC multiarterial; aneurisma da aorta abdominal
Adaptado de Santos SN et al., Arq Bras Cardiol 2019, Tabela 14 (baseada nas diretrizes americanas).
Causas
Aterosclerose — 85% a 90%
Óstio e segmento proximal, uni ou bilateral; aumenta com idade, diabetes e doença em outros leitos.
Displasia fibromuscular — cerca de 10%
Não inflamatória, mais em mulheres jovens; segmento médio-distal, em geral bilateral — por isso a artéria precisa ser seguida até o hilo.
Técnica
- Supino, cortes transverso e longitudinal: aorta e origem das renais.
- Decúbito lateral, corte coronal: segmentos médio e distal, diâmetro longitudinal do rim e fluxo nas segmentares ou interlobares (polos superior, médio e inferior).
- Modo B: placas, ecogenicidade e tamanho do rim. Color/power: perviedade, turbulência e redução da luz.
- Doppler pulsado: VPS e VDF na origem e em qualquer ponto suspeito, ângulo < 60° na renal e 0° nas intraparenquimatosas. VPS aórtica no longitudinal, perto da AMS, para o IRA.
- Renais acessórias: presentes em 20–30% das pessoas; o USV identifica cerca de 67% delas (98% das principais). Estenose isolada de acessória é incomum (1–1,5%).
Critérios diretos e indiretos
A VPS normal da renal fica em torno de 100 ± 20 cm/s. Os cortes para estenose acima de 60% variaram de 180 a 285 cm/s entre os estudos (Hoffman, Hansen, Miralles, Engelhorn, AbuRahma); o IRA, de 3,2 a 3,7 (3,5 desde Taylor, Universidade de Washington). A VDF ≥ 150 cm/s identifica as estenoses de 80% ou mais (Olin). O DIC consolidou esses dados assim:
| Grau | VPS renal | IRA | VDF renal | Fluxo intrarrenal | VPS stent | IRA stent |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Normal | < 200 | < 3,5 | < 150 | TA < 70 ms | < 390 | < 5 |
| < 60% | ≥ 200 | < 3,5 | < 150 | TA < 70 ms | < 390 | < 5 |
| ≥ 60% | ≥ 200 | ≥ 3,5 | < 150 | TA < ou ≥ 70 ms | > 390 | ≥ 5 |
| ≥ 80% | ≥ 200 | ≥ 3,5 | ≥ 150 | TA ≥ 70 ms, parvus-tardus | ≥ 390 | ≥ 5 |
| Oclusão | Sem fluxo; rim ipsilateral < 8,5 cm | Pode ter parvus-tardus | Sem fluxo no stent | |||
Velocidades em cm/s. TA: tempo de aceleração. Fonte: Santos SN et al., Arq Bras Cardiol 2019, Tabela 15; Alcântara ML et al., 2016, Tabela 1.
Critérios indiretos: tamanho e fluxo intrarrenal
Diferença > 1,5 cm entre os rins sugere estenose significativa ou oclusão do lado menor. No fluxo intrarrenal, a sequência com a piora é: some o pico sistólico inicial, o tempo de aceleração (TA) alonga, o índice de aceleração cai e a sístole achata até o parvus-tardus. Em Stavros, TA > 70 ms teve sensibilidade de 78% e especificidade de 94% para estenose de 60%. São critérios específicos e pouco sensíveis — sempre em conjunto com os diretos.
Índice de resistência
IR = (VPS − VDF)/VPS, normal abaixo de 0,7 (média ~0,6; crianças pequenas podem ter mais). Reflete o parênquima — sobe na nefroesclerose. IR ≥ 0,8 associou-se a pior resposta da pressão e da função renal após revascularização e a maior mortalidade em hipertensos, mas outros estudos mostraram benefício mesmo assim: não é contraindicação ao tratamento.
Situações que distorcem os números
Coarctação da aorta, disfunção ventricular esquerda grave, dissecção ou aneurisma da aorta e VPS aórtica acima de 100 ou abaixo de 40 cm/s. A taxa de exames inadequados varia de 8% a 23,5% (obesidade, gases, respiração, equipamento).
Após a revascularização
A angioplastia com stent tem sucesso igual ou superior a 95%, com reestenose de 10% a 26%. A causa mais comum é a hiperplasia intimal, vista como espessamento concêntrico, homogêneo, ecolucente e de superfície lisa. O stent normal aparece hiperecoico e fibrilar, com fluxo laminar; a protrusão para dentro da aorta é esperada quando a lesão tratada era ostial.
Como o stent eleva as velocidades, usam-se cortes próprios: VPS > 390 cm/s e IRA ≥ 5 para reestenose ≥ 60% (Chi: VPS ≥ 395 e IRA ≥ 5 para ≥ 70%; Del Conde: VPS ≥ 383 e IRA ≥ 5 para 60–99%). Seguimento com USV no 1º mês — que serve de referência —, no 6º mês e depois anualmente, ou a qualquer momento se houver sintomas.
O que o laudo deve trazer
- Dificuldade técnica, se houver.
- Presença ou não de aterosclerose ou de sinais de displasia fibromuscular.
- Localização e grau da estenose.
- VPS e VDF na artéria renal e VPS na aorta.
- IP e IR nas intraparenquimatosas, de preferência na segmentar.
- Tamanho dos rins.
Referências:
Santos SN, Alcantara ML, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Posicionamento de Ultrassonografia Vascular do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;112(6):809-849. doi:10.5935/abc.20190106
Alcântara ML, Santos SN, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Recomendações para Avaliação Ultrassonográfica da Aorta Abdominal e Ramos: Grupo de Trabalho do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – DIC – SBC. Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc. 2016;29(nº especial):e1-e68. doi:10.5935/2318-8219.20160012
Resumo independente, sem vínculo com as sociedades autoras. Não substitui a leitura dos documentos originais.
Perguntas Frequentes
Qual é o critério mais importante para estenose da artéria renal ao Doppler?
Como se calcula o índice renal-aorta (IRA)?
O fluxo parvus-tardus intrarrenal basta para o diagnóstico?
Como sugerir oclusão da artéria renal?
Os critérios mudam depois do stent?
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