Doppler do Tronco Celíaco e das Mesentéricas: Critérios, Stent e Ligamento Arqueado
O que as recomendações do Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC trazem para o estudo das artérias digestivas: anatomia ultrassonográfica, curvas normais, critérios de estenose em vasos nativos e com stent, o sinal do fluxo hepático retrógrado e a síndrome do ligamento arqueado.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: O USV é o primeiro exame na suspeita de isquemia intestinal crônica. AMS: ≥50% com VPS >295 e VDF >45 cm/s; ≥70% com VPS >400 e VDF >70 cm/s. Tronco celíaco: ≥50% com VPS >240 e VDF >40; ≥70% com VPS >320 e VDF >100 cm/s. Fluxo retrógrado na hepática comum sugere oclusão ou estenose crítica do TC. Com stent, os cortes sobem (AMS 325/412; TC 274/363 cm/s). Ligamento arqueado: VPS do TC sobe na expiração e normaliza na inspiração, sem ateromatose (DIC/SBC 2016 e 2019).
A doença das artérias digestivas evolui calada graças a uma rede colateral generosa: a angina mesentérica e a perda de peso só aparecem, em geral, quando dois ou mais vasos estão comprometidos. A arteriografia continua sendo a referência, mas é invasiva e fica para quem vai ser tratado. O ultrassom, isento de risco, é o primeiro exame indicado — e a recomendação brasileira diz exatamente quais números usar.

Anatomia que o ultrassonografista precisa ter em mente
- Tronco celíaco: logo abaixo do hiato aórtico; após 2–3 cm divide-se em hepática comum e esplênica — o "sinal da gaivota". O padrão clássico existe em cerca de 70% das pessoas.
- Mesentérica superior: 0,5 a 2 cm abaixo do TC, em ângulo agudo de 15–30° com a aorta, passando entre pâncreas e veia renal esquerda. Em cerca de 24% das pessoas o fígado recebe sangue pela AMS.
- Mesentérica inferior: na altura de L3, 4 a 5 cm acima da bifurcação aórtica, com 2–3 mm de calibre.
Graças às colaterais, oclusões proximais crônicas isoladas costumam ser bem toleradas. Aterosclerose responde por mais de 90% dos casos, em geral como extensão da doença da aorta, com predomínio em homens idosos (3:1). O estudo deve incluir AMS, TC e AMI, com prioridade para os dois primeiros.
Indicações e técnica
Dor abdominal pós-prandial recorrente, emagrecimento sem causa e sopro abdominal. Na isquemia aguda o ultrassom tem pouco papel — o quadro clínico e a urgência não permitem.
- Preparo da aorta: pela manhã, jejum, sem cigarro, chiclete ou bebida gaseificada; antifisético opcional.
- Supino com cabeceira a 30°; transdutor convexo ou setorial de 2–5 MHz.
- Transverso epigástrico: AMS anterior, aorta posterior e veia renal esquerda entre elas. Longitudinal da aorta: TC e AMS.
- Color e power para perviedade, turbulência e redução da luz; Doppler espectral na origem e nos pontos suspeitos, ângulo ≤ 60° em direção ao fluxo.
- As velocidades variam com a respiração: medir em apneia breve.
Curvas normais
Baixa resistência
Tronco celíaco (diástole ampla, fígado e baço) e AMS no período pós-prandial (diástole sobe, reverso desaparece).
Alta resistência
AMS em jejum (VDF próxima de zero e componente reverso no fim da sístole, como uma artéria periférica) e AMI.
Critérios de estenose — nativos e com stent
| Grau / parâmetro (cm/s) | AMS nativa | TC nativo | AMS — stent | TC — stent |
|---|---|---|---|---|
| ≥ 50% — VPS | > 295 | > 240 | 325 | 274 |
| ≥ 50% — VDF | > 45 | > 40 | 30 | 58 |
| ≥ 70% — VPS | > 400 | > 320 | 412 | 363 |
| ≥ 70% — VDF | > 70 | > 100 | 110 | 105 |
| Oclusão | Ausência de fluxo; no TC, fluxo retrógrado na hepática comum | |||
Fontes: Santos SN et al., Arq Bras Cardiol 2019, Tabela 13 (nativos); Alcântara ML et al., 2016, Tabela 2 (nativos e stent, pontos de corte de AbuRahma).
- A VPS é o parâmetro de melhor correlação com a arteriografia, e a velocidade alta só vale com placa no local.
- Critérios históricos de Moneta (anos 1990) para ≥ 70%: VPS ≥ 275 cm/s na AMS e ≥ 200 cm/s no TC — origem do uso do USV como triagem.
- AMI: VPS ≥ 250 cm/s foi a que melhor se correlacionou com estenose ≥ 50%.
- Fluxo retrógrado na hepática comum é altamente sugestivo de estenose grave ou oclusão do tronco celíaco.
Seguimento após stent
O tratamento endovascular tem morbimortalidade menor que a cirurgia convencional (3,7% contra 13%) e é a primeira opção para muitos autores. O sucesso técnico passa de 90% na AMS e no TC, mas a reestenose intrastent varia de 29% a 40%. O USV é o exame de escolha para o seguimento: 1º mês, 6º mês e depois anual, avaliando perviedade, posição do stent, estenose residual e reestenose — sempre com os cortes próprios para stent.
Síndrome do ligamento arqueado
O ligamento arqueado mediano une os pilares do diafragma acima da origem do tronco celíaco. Quando se insere mais baixo, comprime o TC — mais na expiração. Também chamada síndrome de Dunbar ou da banda celíaca, tem incidência de 1,7% a 4%, predomina em mulheres de 20 a 40 anos e cursa com emagrecimento, dor pós-prandial, náuseas, vômitos e sopro epigástrico.
Critérios ultrassonográficos
- Ausência de ateromatose no tronco celíaco
- Aumento da VPS na origem do TC na expiração
- Normalização da VPS na inspiração
Laudo e limitações
O laudo traz dificuldades técnicas, presença ou não de aterosclerose, localização da lesão, grau de estenose e as VPS e VDF medidas. Limitações: abdome hostil, obesidade, meteorismo, dor abdominal intensa na isquemia aguda, examinador e equipamento.
Referências:
Alcântara ML, Santos SN, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Recomendações para Avaliação Ultrassonográfica da Aorta Abdominal e Ramos: Grupo de Trabalho do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – DIC – SBC. Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc. 2016;29(nº especial):e1-e68. doi:10.5935/2318-8219.20160012
Santos SN, Alcantara ML, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Posicionamento de Ultrassonografia Vascular do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;112(6):809-849. doi:10.5935/abc.20190106
Resumo independente, sem vínculo com as sociedades autoras. Não substitui a leitura dos documentos originais.
Perguntas Frequentes
Quais velocidades indicam estenose da artéria mesentérica superior?
E no tronco celíaco?
O exame da mesentérica superior precisa ser feito em jejum?
Como o Doppler diagnostica a síndrome do ligamento arqueado?
Posso usar os mesmos critérios em artérias mesentéricas com stent?
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