Isquemia Mesentérica Crônica: Fisiopatologia, Tríade Clínica e Diagnóstico — SVS 2021
Dor pós-prandial, emagrecimento e food fear em paciente com MAOD aterosclerótica. DUS mesentérico (PSV ≥275 cm/s na AMS, acurácia 96%) e AngioTC como padrão definitivo — Recomendações 1–4 da Diretriz SVS 2021.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Isquemia mesentérica crônica (CMI): tríade clássica de dor pós-prandial (88% dos casos), emagrecimento (74%) e food fear. DUS com PSV ≥275 cm/s na artéria mesentérica superior tem sensibilidade de 92% e acurácia de 96% — exame de triagem. AngioTC é o padrão definitivo para anatomia pré-operatória. Obstrução de pelo menos 2 vasos mesentéricos (AMS + TC ou AMI) é o padrão diagnóstico — Recomendações 1–4, Diretriz SVS 2021.
A isquemia mesentérica crônica (CMI) é uma síndrome clínica subestimada: 17% dos idosos têm doença aterosclerótica oclusiva mesentérica (MAOD) significativa no rastreio, mas menos de 1% desenvolve sintomas clínicos — e quando os desenvolve, o diagnóstico levará em média 15 meses a ser estabelecido. Esta parte inaugural da Série I sistematiza as Recomendações 1–4 da Diretriz da Society for Vascular Surgery 2021 sobre fisiopatologia, apresentação clínica e diagnóstico da CMI.

Fisiopatologia da CMI
A CMI resulta da incapacidade de aumentar adequadamente o fluxo sanguíneo mesentérico após as refeições. Em jejum, 20% do débito cardíaco perfunde os vasos mesentéricos. No pós-prandial, o fluxo aumenta 100–150% (pico entre 30–90 minutos, persistindo 4–6h). A MAOD aterosclerótica bloqueia essa resposta hiperêmica, criando um desequilíbrio entre oferta e demanda que causa dor visceral isquêmica.
Por que a CMI geralmente exige doença em 2 ou mais vasos?
A extensa rede colateral mesentérica — artéria marginal de Drummond e arco de Riolano — conecta CA, AMS e AMA, permitindo compensação quando apenas um vaso está ocluído. Oderich et al. relataram que 98% dos pacientes com CMI têm estenose significativa em dois dos três vasos mesentéricos, e 92% têm oclusão crítica ou estenose na AMS. No entanto, CMI com doença isolada da AMS é possível quando a rede colateral é inadequada.
Apresentação Clínica — A Tríade da CMI
| Sinal/Sintoma | Prevalência | Característica |
|---|---|---|
| Dor pós-prandial | 88% | Abdominal medial/alta, cólica ou vaga, inicia 30 min após refeição, dura até 6h |
| Emagrecimento | 74% | Progressivo; por restrição alimentar voluntária e malabsorção |
| Food fear | 45–63% | Restrição de alimentos para evitar dor; frequentemente não relatada espontaneamente |
| Diarreia | 35% | Malabsorção intestinal; presente em casos mais avançados |
Perfil típico do paciente com CMI (meta-análise SVS — 18.726 pacientes)
Recomendações 1–4 — Diagnóstico da CMI
Rec. 1 — Grade 1 (Strong), QoE B
Investigação expedita para excluir malignidades GI e outras causas: EGD, colonoscopia, TC abdominal, ultrassom abdominal.
Rec. 2 — Grade 1 (Strong), QoE B
Diagnóstico de CMI com apresentação clínica adequada + estenose >70% em CA ou AMS. Aceitável também com estenose >70% em apenas um dos vasos com quadro clínico consistente.
Rec. 3 — Grade 1 (Strong), QoE B
Duplex ultrassom mesentérico (DUS) como exame de rastreio preferido para MAOD.
Rec. 4 — Grade 1 (Strong), QoE B (1B)
AngioTC como exame de imagem definitivo preferido. Arteriografia por cateter quando anatomia não está clara na AngioTC.
Critérios Diagnósticos do DUS Mesentérico
| Vaso | Grau de Estenose | PSV (cm/s) | Sens | Espec | NPV | Acurácia |
|---|---|---|---|---|---|---|
| AMS | ≥70% | ≥275 | 92% | 96% | 99% | 96% |
| AMS | ≥70% (alt.) | EDV ≥45 | 90% | 91% | 91% | 91% |
| CA | ≥50% | ≥240 | 87% | 80% | 63% | 82% |
| CA | ≥70% | ≥320 | — | — | — | 85% |
| AMA | ≥50% | >250 | — | — | — | 95% |
AngioTC — o padrão-ouro atual
Acurácia 95–100% para CMI. Técnica multiplanar reformatação 3D, medidas centrais dos vasos. Além de confirmar a doença mesentérica, exclui diagnósticos alternativos (neoplasia, pancreatite) e define anatomia para planejamento da revascularização — incluindo inflow e outflow, qualidade dos vasos receptores e acessos vasculares.
Referência
Huber TS, Björck M, Chandra A, Clouse WD, Dalsing MC, Oderich GS, Smeds MR, Murad MH. Chronic mesenteric ischemia: Clinical practice guidelines from the Society for Vascular Surgery. J Vasc Surg. 2021;73(1S):87S–115S. DOI: 10.1016/j.jvs.2020.10.029
Perguntas Frequentes
O que é a isquemia mesentérica crônica (CMI) e como ela se diferencia da isquemia mesentérica aguda?
Por que a tríade clínica clássica de CMI (dor + emagrecimento + food fear) frequentemente está incompleta na apresentação?
Qual PSV no duplex ultrassom confirma estenose significativa da artéria mesentérica superior e qual é a acurácia do exame?
Quando a AngioTC deve ser solicitada e quando a arteriografia por cateter ainda é necessária?
Por que o diagnóstico de CMI é frequentemente atrasado em mais de 1 ano?
Paciente assintomático com estenose de AMS no duplex ultrassom: o que fazer?
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