Isquemia Mesentérica Crônica: Diagnóstico — ESVS 2025 (Recs 1–8)
DUS pós-jejum ≥4h como exame de primeira linha, CTA para planejamento e modelo preditivo com escore ≥19 = 92% de probabilidade diagnóstica — Recomendações 1–8 das Diretrizes ESVS 2025 para doenças mesentéricas e renais.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: CMI é diagnosticada com sintomas crônicos + estenose >50% AMS e >50% outro vaso mesentérico (Rec 1, Classe I — ESVS 2025). DUS pós-jejum ≥4h é o exame de 1ª linha: PSV AMS ≥275 cm/s para estenose ≥70% (Rec 4, Classe I LoE B). Modelo preditivo: escore ≥19 pontos = 92% de probabilidade de CMI. Incidência: 9,2/100.000 hab/ano. Somente 16% dos casos monovasculares vs 81% multivasculares confirmam CMI.
A isquemia mesentérica crônica (CMI) continua sendo subdiagnosticada pela ausência de um único marcador diagnóstico e pela heterogeneidade da apresentação. As Diretrizes ESVS 2025 (Koelemay MJ et al., EJVES 2025;70:153–218) propõem, pela primeira vez, critérios diagnósticos claros, um modelo preditivo validado e um algoritmo de imagem hierárquico — com 102 recomendações baseadas em revisão sistemática de 3.116 artigos.

Assista: CMI Diagnóstico — ESVS 2025 (J1)
1. Contexto da Diretriz ESVS 2025
As Diretrizes ESVS 2025 para Doenças das Artérias e Veias Mesentéricas e Renais (Koelemay MJ et al.) são a primeira atualização abrangente nesse território desde as diretrizes SVS 2021. De 102 recomendações totais, 60 são completamente novas, 21 foram reclassificadas e 21 mantidas. O Capítulo 3 (CMI) contém as Recomendações 1–25, divididas neste post entre diagnóstico (Recs 1–8) e tratamento (Recs 9–25 — ver post J2).
Metodologia: revisão sistemática de 3.116 artigos; avaliação GRADE com 4 revisores independentes; consenso de 28 especialistas de 18 países europeus. Classificação: Classe I (recomendado), IIa (deve ser considerado), IIb (pode ser considerado), IIIa (não recomendado — sem evidência), IIIb (contraindicado — evidência de malefício). Nível B = pelo menos 1 ECR; Nível C = consenso/estudos observacionais.
2. Epidemiologia e Definição
A incidência anual de CMI foi estimada em 9,2/100.000 habitantes em estudo holandês de base populacional — provavelmente subestimada pela dificuldade diagnóstica. A doença é predominantemente aterosclerótica (> 90%) e afeta principalmente mulheres (> 60%) na 6ª-7ª décadas. A prevalência de doença mesentérica multivascular em coortes de CMI é de 60–70%, e esse perfil determina tanto o risco de progressão quanto a probabilidade diagnóstica.
| Rec | Classe | LoE | Recomendação |
|---|---|---|---|
| 1 | I | C | CMI presente se sintomas crônicos + estenose > 50% AMS e > 50% em outro vaso mesentérico (Changed) |
| 2 | IIb | C | CMI pode estar presente se sintomas + estenose > 70% da AMS isolada (Changed) |
| 3 | I | C | CMI deve ser tratada em centros especializados com capacidade endovascular e cirurgia aberta |
| 4 | I | B | DUS pós-jejum ≥4h como exame de 1ª linha no diagnóstico de CMI (Unchanged) |
| 5 | I | C | CTA: preferida para diagnóstico definitivo, planejamento e exclusão de outras causas (Unchanged) |
| 6 | IIb | C | AngioRM como alternativa à CTA quando contraste iodado está contraindicado (Unchanged) |
| 7 | I | C | Avaliar perfil cardiovascular e oferecer prevenção secundária em todos os pacientes com CMI (New) |
| 8 | I | C | Orientar pacientes assintomáticos com doença mesentérica multivascular sobre sintomas de CMI (New) |
3. Critérios de Diagnóstico — DUS Mesentérico
O DUS mesentérico com jejum mínimo de 4 horas é essencial: a ingestão alimentar provoca vasodilatação mesentérica fisiológica que eleva os PSVs basais em até 30%, comprometendo a especificidade dos critérios velocimétricos. O exame deve incluir AMS, Tronco Celíaco (TC) e idealmente a Artéria Mesentérica Inferior (AMI).
Critérios DUS para Estenose Mesentérica Significativa (Tabela 5 — ESVS 2025)
| Artéria | Grau de estenose | PSV (cm/s) | Outros critérios |
|---|---|---|---|
| AMS | ≥ 50% | ≥ 200 cm/s | Turbulência pós-estenótica |
| AMS | ≥ 70% | ≥ 275 cm/s | EDV > 45 cm/s |
| Tronco Celíaco | ≥ 50% | ≥ 200 cm/s | Razão TC/aorta > 3 |
| AMS / TC | Oclusão | Ausência de sinal Doppler | Ausência de fluxo colorido |
4. Modelo Preditivo de CMI
A ESVS 2025 apresenta pela primeira vez um modelo preditivo validado (Tabela 4 do artigo) com 8 variáveis clínicas, que gera um escore de probabilidade de CMI:
| Escore Total | Probabilidade de CMI | Interpretação |
|---|---|---|
| 0 – 5 pontos | 19% | Baixa probabilidade — investigar outras causas |
| 6 – 18 pontos | 45% | Probabilidade intermediária — DUS + CTA |
| ≥ 19 pontos | 92% | Alta probabilidade — priorizar investigação e discutir revascularização |
Variáveis incluídas no modelo: intensidade da dor pós-prandial, grau de perda de peso, presença de aversão alimentar, tabagismo, sexo, antecedente de doença cardiovascular, perfil de estenose (mono vs multivascular) e PSV no DUS. O modelo foi desenvolvido e validado na coorte mesentérica do Erasmus MC (Rotterdam).
5. Prevenção Cardiovascular — Novidade das Diretrizes 2025
As Recomendações 7 e 8 — ambas completamente novas em 2025 — ampliam o escopo da gestão da CMI além do tratamento mecânico da estenose. A Rec 7 (Classe I) obriga a avaliação do perfil cardiovascular completo em todo paciente com CMI: o risco de eventos coronários e cerebrovasculares nesses pacientes é comparável ao de pacientes com DAOP, e a prevenção secundária (antiagregante + estatina + controle de PA e glicemia) reduz mortalidade independentemente da revascularização. A Rec 8 (Classe I) é igualmente inovadora: pacientes com doença mesentérica multivascular assintomática — detectada incidentalmente em CTA — devem ser orientados sobre os sintomas de CMI para diagnóstico precoce se evoluírem para isquemia.
Conclusão: O Algoritmo Diagnóstico em 3 Passos
- Suspeita clínica: tríade (dor pós-prandial + perda de peso + aversão alimentar) + cálculo do escore preditivo (Tabela 4)
- DUS pós-jejum ≥4h: PSV AMS ≥275 cm/s ou TC ≥200 cm/s como critérios de estenose ≥70% e ≥50%, respectivamente (Rec 4, Classe I LoE B)
- CTA mesentérica: para confirmação anatômica, planejamento do acesso endovascular e exclusão de neoplasia/outra causa abdominal (Rec 5, Classe I)
Ref: Koelemay MJ, Filis K, Benninghoff M, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2025 Clinical Practice Guidelines on the Management of Diseases of the Mesenteric and Renal Arteries and Veins. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2025;70:153–218. DOI: 10.1016/j.ejvs.2025.06.010. Open Access CC BY 4.0.
Ref: Koelemay MJ et al. ESVS 2025 Clinical Practice Guidelines on the Management of Diseases of the Mesenteric and Renal Arteries and Veins. EJVES 2025;70:153–218.
Perguntas Frequentes
O que é isquemia mesentérica crônica e como ela se manifesta clinicamente?
Qual o melhor exame de imagem inicial para diagnosticar isquemia mesentérica crônica?
A presença de estenose mesentérica isolada sempre causa isquemia?
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