Ultrassom no Aneurisma da Aorta Abdominal: Rastreamento, Medida e Pré-Operatório
O que as recomendações do Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC (2016 e 2019) dizem sobre quem rastrear, com que intervalo reavaliar, como medir o aneurisma sem erro e que informações o ultrassom pode antecipar ao cirurgião antes do reparo.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Rastrear homens de 65–75 anos e homens e mulheres de 55–75 com história familiar de AAA e/ou tabagismo. Medir o diâmetro anteroposterior na sístole, no corte transverso do ponto de maior dilatação, informando se a medida foi externa a externa (padrão da angio-TC) ou interna a interna (~4 mm menor). Reavaliar em 5 anos (2,6–2,9 cm), 24 meses (3,0–3,9), 12 meses (4,0–4,5), 6 meses (4,6–5,0) e 3 meses (>5,0 cm); intervir com ≥5,5 cm, sintomas ou crescimento >1 cm/ano (DIC/SBC 2016 e 2019).
O aneurisma da aorta abdominal costuma ficar em silêncio até romper — e a ruptura mata de 85% a 90% dos pacientes. O exame físico detecta apenas 29% dos aneurismas de 3 a 3,9 cm. Por isso o ultrassom é o centro da estratégia: barato, sem radiação, sem contraste nefrotóxico e com sensibilidade de cerca de 95% e especificidade próxima de 100%. Este post resume o que o Departamento de Imagem Cardiovascular (DIC) da SBC recomenda, da indicação ao laudo.

Definição e classificação
Aneurisma é a dilatação localizada de pelo menos 50% em relação ao diâmetro arterial proximal esperado, envolvendo obrigatoriamente todas as camadas da parede. Na prática, como o diâmetro médio da aorta infrarrenal é de cerca de 2,0 cm e o limite superior é menor que 3,0 cm, considera-se aneurisma a aorta abdominal acima de 3,0 cm. Para as ilíacas, muitos autores consideram anormal o diâmetro acima de 1,8 cm.
- Suprarrenal: acima das renais e abaixo do diafragma — exige reimplante de ao menos uma renal no reparo aberto.
- Justarrenal: junto às renais — exige clampeamento acima delas para a anastomose proximal.
- Infrarrenal: abaixo das renais — cerca de 85% dos casos. Cerca de 25% dos pacientes têm aneurisma ilíaco associado.
- Forma: a maioria é fusiforme; saculares e excêntricos não são raros, e a assimetria pode aumentar o risco de ruptura. Com o crescimento, forma-se trombo laminado que mantém a luz quase normal — por isso o diâmetro externo é o que importa.
Quem rastrear
Homens 65–75 anos
Todos, independentemente de fatores de risco.
Homens 55–75 anos
Com história familiar de AAA e/ou tabagismo.
Mulheres 55–75 anos
Com história familiar de AAA e/ou tabagismo.
Os números que sustentam a escolha: fumantes ativos têm probabilidade 7,5 vezes maior de aneurisma e ex-fumantes 3 vezes maior, com aumento de 4% no risco a cada ano de tabagismo; irmãos de portadores têm risco 12 vezes maior. No estudo MASS (67.800 homens de 65 a 75 anos), o rastreamento com acompanhamento reduziu em 42% a mortalidade relacionada ao AAA. Estudos de Vitória e Guarapari (ES) reproduziram no Brasil o mesmo perfil: homem idoso, branco e tabagista.
Uma sugestão simples e de grande alcance do grupo brasileiro: no ecocardiograma de pacientes acima de 55 anos, avaliar rapidamente a aorta abdominal pela janela subxifoide e, se houver dilatação focal, registrar no laudo a necessidade de estudo especializado.
Intervalo de reavaliação
A taxa de crescimento é proporcional ao diâmetro (média de 0,2 a 0,3 cm/ano entre 3,0 e 5,5 cm; nos fumantes a expansão é mais rápida, da ordem de 0,4 cm/ano), e o risco de ruptura sobe exponencialmente acima de 5,5 cm. O DIC adota o escalonamento do modelo sueco, que inclui as dilatações subaneurismáticas — no estudo de Wild et al., 59,6% delas evoluíram para aneurisma.
| Diâmetro anteroposterior | Repetir o ultrassom |
|---|---|
| 2,6–2,9 cm (dilatação subaneurismática) | Reavaliar em 5 anos |
| 3,0–3,9 cm | 24 meses |
| 4,0–4,5 cm | 12 meses |
| 4,6–5,0 cm | 6 meses |
| > 5,0 cm | 3 meses |
Fonte: Alcântara ML et al., Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc 2016, Quadro 4; Santos SN et al., Arq Bras Cardiol 2019, Tabela 9.
Indicação de intervenção
Diâmetro ≥ 5,5 cm · sintomas relacionados ao aneurisma · crescimento > 1,0 cm ao ano.
Diretrizes mais recentes refinaram esses limiares — a ESVS 2024, por exemplo, considera o reparo em mulheres a partir de 5,0 cm. Veja a série AAA ESVS 2024 para a comparação.
Como medir sem erro
Plano e momento
Transdutor convexo de 2–5 MHz (setorial se a janela for ruim). A partir do corte sagital, obter o transverso no ponto de maior dilatação, com a aorta circular. Ampliar a imagem e concentrar o foco no aneurisma. Medir o diâmetro anteroposterior na sístole, no momento da expansão máxima.
Externa a externa (EAE) × interna a interna (IAI)
A IAI é mais reprodutível e foi usada na maioria dos programas de rastreamento, mas fica cerca de 4 mm abaixo da EAE, que é a medida da angio-TC. A diferença pode mudar o paciente de faixa, embora isso não tenha alterado desfechos nos estudos. O essencial: o laudo deve informar a técnica e o plano usados.
Aorta tortuosa ou muito dilatada
Se o corte transverso não sai circular, a medida "em elipse" superestima o diâmetro. Medir no plano sagital ou coronal e registrar isso para que o próximo exame repita o mesmo plano.
Preparo recomendado para todos os exames da aorta e ramos: de preferência pela manhã, jejum de até 6 horas (dispensável em diabéticos), sem fumar nem mascar chiclete; dieta pobre em farináceos na véspera e simeticona opcional. Pressão contínua do subxifoide ao umbigo e o decúbito lateral ajudam a afastar os gases.
Ruptura: o papel limitado do ultrassom
A ruptura é retroperitoneal (em geral posterolateral esquerda) em cerca de 80% dos casos e anterior em 20%; a anterior costuma ser fatal antes do hospital. A tríade dor, hipotensão e massa pulsátil aparece junta em apenas 26% dos pacientes. O ultrassom pode confirmar o aneurisma à beira do leito, mas tem papel limitado para caracterizar a ruptura — não deve atrasar a angio-TC nem a ida ao centro cirúrgico.
O que o ultrassom informa antes do reparo
Quando o aneurisma atinge o limiar, a angio-TC assume o planejamento. Ainda assim, um exame bem feito antecipa as medidas da Figura 8 da recomendação: diâmetro do colo na renal mais baixa e 15 mm abaixo dela, extensão do colo, ângulo entre colo e eixo do aneurisma, diâmetro máximo, extensão do AAA, diâmetro na bifurcação, ilíacas comuns e bifurcação ilíaca. Vale ainda descrever o trombo (presente em 97% dos AAA acima de 5 cm) e o lúmen residual.
| Região | Achado desfavorável ao EVAR | Consequência |
|---|---|---|
| Acesso | Ilíaca externa < 6 mm; femoral com calcificação > 50% da circunferência; tortuosidade ilíaca > 90°; calcificação ilíaca extensa | Dificuldade ou impossibilidade de passar a bainha |
| Fixação proximal | Colo > 32 mm; colo < 15 mm; formato cônico ou cônico invertido; trombo ou cálcio; angulação > 60° com o eixo do AAA | Fora das especificações ou risco de falha de selamento (endoleak tipo I) |
| Fixação distal | Ilíaca comum > 25 mm ou com < 10 mm de segmento sadio; aneurisma ilíaco | Extensão para a ilíaca externa e exclusão da hipogástrica (isquemia pélvica, disfunção erétil) |
| Saco e ramos | Lúmen residual < 18 mm; aorta distal estreita; mesentérica inferior > 3 mm; renais acessórias | Dificuldade de liberar o dispositivo, kinking, endoleak tipo II, infarto polar renal |
Adaptado de Alcântara ML et al., 2016, Quadro 5. Muitas são contraindicações relativas, que somadas aumentam o risco de insucesso.
O que não pode faltar no laudo
- Dificuldades técnicas, quando houver.
- Maior diâmetro da aorta, com plano e técnica de medida (EAE ou IAI).
- Tortuosidade ou alongamento.
- Localização (supra, justa ou infrarrenal) e forma (fusiforme, sacular, outras).
- Trombo mural, diâmetro intraluminal e sinais de ruptura, quando presentes.
- No pré-operatório: as medidas de colo, saco e ilíacas listadas acima.
Referências:
Alcântara ML, Santos SN, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Recomendações para Avaliação Ultrassonográfica da Aorta Abdominal e Ramos: Grupo de Trabalho do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – DIC – SBC. Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc. 2016;29(nº especial):e1-e68. doi:10.5935/2318-8219.20160012
Santos SN, Alcantara ML, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Posicionamento de Ultrassonografia Vascular do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;112(6):809-849. doi:10.5935/abc.20190106
Resumo independente, sem vínculo com as sociedades autoras. Não substitui a leitura dos documentos originais.
Perguntas Frequentes
A partir de que diâmetro a aorta abdominal é considerada aneurismática?
Devo medir o aneurisma de parede externa a parede externa ou de parede interna a parede interna?
Quando o ultrassom deve ser repetido em um aneurisma pequeno?
O ultrassom substitui a angiotomografia antes do EVAR?
Por que mulheres entram no rastreamento só quando têm fatores de risco?
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