Ultrassom Após EVAR: Endoleaks, Endotensão e Seguimento
O protocolo do Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC para o ultrassom após correção endovascular do aneurisma da aorta abdominal: as 11 etapas do exame, os tipos de endoleak e sua conduta, a endotensão, a leitura do saco e quando o ultrassom pode substituir a angiotomografia.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Após EVAR, a vigilância é vitalícia e o dado mais importante é o diâmetro do saco: diminuindo = sucesso; estável (mesmo com endoleak II) = sem intervenção imediata; crescendo = revisão. Endoleaks I e III devem ser corrigidos prontamente; o II é acompanhado. O exame segue 11 etapas da aorta suprarrenal ao enxerto cruzado. Sem complicações no primeiro ano e saco estável <4 cm, o ultrassom anual pode substituir a angio-TC; crescimento >3 mm leva de volta à tomografia (DIC/SBC 2016).
O EVAR trocou uma cirurgia de grande porte por um procedimento de baixa morbimortalidade, mas cobrou um preço: cerca de 30% dos pacientes têm alguma complicação no seguimento, e 2% a 3% precisam de reintervenção — em qualquer fase. A angio-TC repetida soma radiação, contraste iodado e custo. O ultrassom, quando bem feito, identifica o tipo de vazamento melhor que a tomografia e é a única ferramenta que vê vazamentos posicionais.

Objetivos do exame
Avaliar a perviedade da endoprótese, medir o saco residual, detectar endoleaks, oclusão ou estenose de ramos, trombos e migração e, tardiamente, a progressão da doença acima e abaixo do dispositivo. Para isso, o pedido completo inclui USV aortoilíaco, das artérias digestivas e das renais. Os decúbitos laterais (cortes coronais) são os melhores para ver a relação do dispositivo com as renais e para caçar vazamentos. O exame completo leva de 30 a 45 minutos.
Conhecer o dispositivo ajuda: endopróteses diferem no desenho (módulo único ou multimodular), no metal e no tecido, na fixação (supra ou infrarrenal, com ou sem ganchos) e na configuração — aortoaórtica tubular (em desuso pela degeneração do colo distal), aorto-uni-ilíaca com plug e enxerto cruzado, ou aortobi-ilíaca.
O protocolo em 11 etapas
| # | Etapa | O que procurar |
|---|---|---|
| 1 | Aorta supra, justa e infrarrenal acima da fixação | Diâmetro, dilatação focal (degeneração do colo) e trombo; Doppler pulsado nos ramos viscerais. |
| 2 | Ramos viscerais | Tronco celíaco e AMS (a AMI é ocluída no EVAR); óstios das duas renais — podem ser cobertos por mau posicionamento, migração, dissecção ou pelo sistema de fixação. |
| 3 | Fixação proximal | Pesquisa minuciosa de endoleak Ia. |
| 4 | Corpo da endoprótese | Perviedade da luz e dos ramos ao modo B e color (power ideal); falhas de enchimento = trombo; relatar ramos cruzados, angulações e kinking. |
| 5 | Saco aneurismático | AP, laterolateral e extensão, de adventícia a adventícia, na sístole; medidas extras se a morfologia for irregular. |
| 6 | Conteúdo do saco | Trombo homogêneo e ecogênico com retração = favorável; heterogêneo com área hipoecoica = suspeitar vazamento. |
| 7 | Endoleaks II e III | Caixa de cor pequena, PRF baixo, varredura sequencial — junções dos módulos, altura da AMI e das lombares. A pulsação da aorta gera artefatos. |
| 8 | Fixação distal | Endoleak Ib, estenose por deformidade ou kinking; ilíaca interna pérvia (fixação na ilíaca comum) ou ocluída (fixação na externa). |
| 9 | Plug oclusor | Endoleak Ic nas endopróteses aorto-uni-ilíacas. |
| 10 | Ilíacas fora do enxerto | Estenoses e stents prévios; curva trifásica na ilíaca externa reduz (não exclui) a chance de lesão proximal significativa. |
| 11 | Porções extra-aórticas | Enxerto femorofemoral cruzado: anastomoses, corpo e fluxo nas artérias doadora e receptora. |
Adaptado de Alcântara ML et al., 2016, Quadro 9. Se alguma etapa não puder ser cumprida, o motivo deve constar no laudo.
Endoleaks: tipos e conduta
Endoleak é a presença de fluxo fora da endoprótese e dentro do saco. Ocorre em 15% a 20% dos pacientes nos primeiros 30 dias, quase sempre sem sintomas. Incidência aproximada por tipo: 4% (I), 10% (II) e 2% (III).
Tipo I — sítios de fixação
Ia proximal, Ib distal, Ic no plug oclusor da ilíaca contralateral. Pressuriza o saco com pressão sistêmica: corrigir assim que diagnosticado.
Tipo II — ramos com fluxo retrógrado
Mesentérica inferior, lombares, renais acessórias. IIa (simples): um só vaso de entrada e saída, curva "to-and-fro". IIb (complexo): ao menos um vaso de entrada e outro de saída, fluxo mono ou bifásico. Marcadores de persistência: VPS alta no trajeto, AMI e lombares pérvias e, sobretudo, AMI calibrosa — no estudo de Arko, AMI de 5,6 ± 1,8 mm fecharam em 6 meses e as de 7,2 ± 1,3 mm persistiram. Conduta: acompanhar; tratar se o saco crescer.
Tipo III — defeito da endoprótese
IIIa: vazamento juncional ou desconexão de módulos. IIIb: furo no tecido — menor (< 2 mm, como furos de sutura) ou maior (> 2 mm). Corrigir prontamente.
Tipo IV e tipo V
IV: porosidade do tecido, visto só na arteriografia imediata (menos de 30 dias) — praticamente desapareceu com os materiais atuais. V: endotensão (abaixo).
Por que o Doppler leva vantagem: ele mostra a direção do fluxo e detecta fluxos de baixa velocidade que a tomografia só capta em fase tardia. Na série citada pelo DIC, o tipo de vazamento confirmado na cirurgia foi identificado corretamente em 74% dos casos pelo ultrassom e em 42% pela angio-TC.
Endotensão e a leitura do saco
Endotensão é o saco que continua pressurizado e crescendo sem causa evidente — ultrafiltração pelo tecido, seroma, infecção ou um vazamento que os exames não mostram. Subtipos: A sem endoleak, B endoleak selado, C com endoleak I ou III, D com endoleak II.
Diminuindo
A pressão no saco caiu — o objetivo do tratamento.
Estável
Equilíbrio de pressões, mesmo com endoleak tipo II. Sem intervenção imediata.
Crescendo
Revisão cirúrgica, detectando-se ou não o vazamento.
Quando o ultrassom pode substituir a angio-TC
A recomendação da Society for Vascular Surgery citada pelo DIC: angio-TC com 1 e 12 meses, e também aos 6 meses se o exame de 1 mês mostrar vazamento ou outra anormalidade. Sem endoleak nem crescimento no primeiro ano, o ultrassom passa a ser alternativa — com saco estável e menor que 4 cm, USV anual; crescimento maior que 3 mm do basal leva de volta à tomografia (anual ou semestral).
O protocolo da Universidade de Pittsburgh, usado desde 2003, adota o USV isolado a partir de 1 ano para sacos menores que 4 cm ou com redução de pelo menos 5 mm em relação à angio-TC de 1 mês, e mostrou-se seguro. Condição: laboratório experiente e paciente com biotipo que permita exame adequado.
Limites do ultrassom e outras complicações
- Migração: o USV não é bom método. Deslocamento de 5 a 10 mm em relação ao exame anterior já é significativo; usar a AMS e as renais como referência. Vazamento, trombo acima do dispositivo ou colo muito distorcido devem levantar a suspeita.
- Kinking e trombose de ramo: podem decorrer da migração ou da retração do saco; colo angulado e aorta distal estreita predispõem. A oclusão é a consequência mais comum.
- Fratura: falência estrutural rara (cerca de 5,5%), causa de falência tardia, com migração e vazamentos.
- Sítio de punção: complicações em cerca de 3% — trombose, dissecção, pseudoaneurisma, hematoma e infecção.
Contraste por microbolhas
As microbolhas aumentam o sinal em dezenas de decibéis e emitem harmônicos que o equipamento separa do tecido, revelando fluxos lentos. Na série de Napoli, todos os pacientes com saco crescendo e sem vazamento à angio-TC e ao USV convencional tinham endoleak com contraste — de aparecimento mais tardio (o "endoleak hipodinâmico" descrito por Bush). O DIC recomenda reservá-lo para sacos que crescem sem causa definida no exame habitual, com termo de consentimento. Detalhes de técnica e dose no post UV8.
E após a cirurgia aberta?
A cirurgia aberta tem morbidade perioperatória maior, mas resultado tardio excelente: em 36 anos de seguimento (Hallett), a complicação mais frequente foi o aneurisma anastomótico, em 3%. Infecção, deiscência com pseudoaneurisma, fístula aortoentérica e trombose de ramo são raras. O protocolo de ultrassom é parecido com o do EVAR: aorta acima da prótese e ramos, anastomose proximal (em geral terminoterminal, logo abaixo das renais), corpo do enxerto, anastomoses distais e ilíacas.
No pré-operatório, vale procurar e destacar no laudo as anomalias venosas que complicam a aneurismectomia: veia renal esquerda retroaórtica ou circum-aórtica, duplicação da cava e cava à esquerda — além de rim em ferradura e aneurisma inflamatório (cerca de 5% dos AAA).
Referências:
Alcântara ML, Santos SN, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Recomendações para Avaliação Ultrassonográfica da Aorta Abdominal e Ramos: Grupo de Trabalho do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – DIC – SBC. Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc. 2016;29(nº especial):e1-e68. doi:10.5935/2318-8219.20160012
Santos SN, Alcantara ML, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Posicionamento de Ultrassonografia Vascular do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;112(6):809-849. doi:10.5935/abc.20190106
Resumo independente, sem vínculo com as sociedades autoras. Não substitui a leitura dos documentos originais.
Perguntas Frequentes
Qual é o dado mais importante do ultrassom de seguimento após EVAR?
Todo endoleak precisa ser tratado?
O ultrassom pode substituir a angiotomografia no seguimento do EVAR?
O que é endotensão?
Quando usar contraste por microbolhas após EVAR?
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