Artérias Vertebrais, Roubo da Subclávia e Doppler Transcraniano
A circulação posterior e o Doppler transcraniano na atualização DIC/CBR/SBACV 2023: estenose e hipoplasia vertebral, oclusão por nível, roubo da subclávia, microembolia, reserva vasomotora e monitorização da endarterectomia.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: A artéria vertebral deve ser estudada junto com as carótidas, da origem (sede mais comum das estenoses) aos segmentos distais. Estenose proximal pela tabela de Hua (50–69%: Vmax ≥140 cm/s; 70–99%: ≥210 cm/s). Hipoplasia: ≤2 mm em V2 e IR >0,75. Roubo da subclávia: tipo 1 desaceleração sistólica, tipo 2 inversão sistólica, tipo 3 inversão sistodiastólica. No Doppler transcraniano, microembolia (HITS) indica risco 7,5× maior de recorrência; reserva vasomotora com aumento <10% ao CO₂ está prejudicada (Albricker ACL et al., Arq Bras Cardiol 2023).
Cerca de 25% dos AVC isquêmicos envolvem a circulação posterior, e a aterosclerose responde por 20% deles. Estenose vertebrobasilar na vigência de AVC ou AIT posterior aumenta em ~33% o risco de recorrência no primeiro mês. Por isso a atualização brasileira trata a vertebral como parte indissociável do exame das carótidas — e acrescenta o Doppler transcraniano (DTC).


Exame das vertebrais
A posição é a mesma do estudo das carótidas; a profundidade varia com a anatomia do pescoço e a escala de cores deve ser reduzida para aumentar a sensibilidade. Inclua sempre a origem do vaso — sede mais frequente das estenoses, em geral extensão de placas da subclávia — e os demais segmentos extracranianos.
Estenose proximal (V0–V1) — Tabela 6 (adaptada de Hua et al.)
| Estenose | Vmax | IVV* | VDF |
|---|---|---|---|
| < 50% | ≥ 85 cm/s | ≥ 1,3 | ≥ 27 cm/s |
| 50–69% | ≥ 140 cm/s | ≥ 2,1 | ≥ 35 cm/s |
| 70–99% | ≥ 210 cm/s | ≥ 4 | ≥ 55 cm/s |
*IVV: razão entre a velocidade máxima no ponto da estenose e no segmento V2.
- A VPS na origem é o parâmetro de maior especificidade, mais que IVV e VDF.
- Vertebrais tortuosas podem acelerar fisiologicamente.
- Curva espectral amortecida a jusante corrobora estenose proximal significativa; com boa imagem, mede-se o lúmen residual com power angio.
- V2–V4: não há tabela. Use análise multiparamétrica — turbulência, aceleração focal, aumento dos índices de velocidade e amortecimento distal.
Hipoplasia (Tabela 5)
- Diâmetro ≤ 2 mm no segmento V2
- Redução do componente diastólico
- Índice de resistência > 0,75
- Vertebral contralateral > 4 mm, com velocidades normais
Oclusão: a curva depende do nível (Quadro 8)
| Nível | Achado |
|---|---|
| Oclusão proximal | Pode haver reabitação distal (V2–V3) por colaterais: ramos tireocervicais, rede anastomótica de Bosniak ou de Mirabile |
| Oclusão distal pré-ACPI | Fluxo de baixa amplitude, alta resistência e sem componente diastólico em V1–V2 |
| Oclusão de V4 após a ACPI | Curva cervical normal — o fluxo segue para a artéria cerebelar posteroinferior e o cerebelo |
| Oclusão da basilar | Curvas de oclusão distal nas duas vertebrais |
A armadilha está na V4: lesões graves ou até oclusões acima da ACPI podem não alterar nada nas curvas cervicais (V0–V3). Por isso a atualização recomenda avaliar os segmentos intracranianos da vertebral e a basilar pela janela foraminal nos pacientes sintomáticos sem lesão extracraniana que explique o quadro (nova recomendação, I-B). Isso exige transdutor setorial de 2 MHz ou menos com mapeamento em cores.
Síndrome do roubo da subclávia
Estenose significativa ou oclusão do tronco braquiocefálico ou da subclávia proximal faz a vertebral ipsilateral "roubar" fluxo da contralateral para suprir o braço. A curva e a direção do fluxo na vertebral do lado doente, em repouso ou após hiperemia reativa (manguito insuflado no braço ipsilateral e desinsuflado), definem o tipo:
Tipo 1 — Latente
Desaceleração sistólica; a manobra de hiperemia pode potencializar o fenômeno.
Tipo 2 — Intermitente ou parcial
Inversão sistólica do fluxo.
Tipo 3 — Completo
Inversão sistodiastólica do fluxo.
Ao contrário das estenoses vertebrais distais, em que a diástole é a primeira a mudar, no roubo a primeira alteração é sistólica — uma breve desaceleração quase imperceptível para examinadores menos experientes. Na estenose grave do tronco braquiocefálico pode haver também roubo carotídeo, com inversão sistólica na carótida.
Doppler transcraniano na doença carotídea e vertebral
O objetivo do DTC em portadores de aterosclerose cervical é estimar o risco de AVC isquêmico. Suas ferramentas de real valor são a detecção de microembolia espontânea e o registro hemodinâmico durante a endarterectomia e procedimentos endovasculares.
Técnica
- Transdutor de 2 MHz ou menos; o DTC "cego" não tem imagem, mas permite monitorização contínua com capacete de fixação.
- Exame padrão nas janelas transorbitais (oftálmica e sifão, sem pressão sobre o olho), transtemporais (ACI distal, ACA-A1, ACM-M1, ACP-P1/P2, comunicantes) e transforaminal (V4, basilar proximal e ACPI).
- Identifica-se o vaso pela janela, ângulo, profundidade, direção e velocidade (Tabela 7) — por exemplo, ACM a 35–60 mm, ~70 cm/s, fluxo em direção ao transdutor; basilar a 70–120 mm, ~45 cm/s, afastando-se.
- Curvas de baixa resistência em todas as artérias intracranianas, exceto a oftálmica.
- Variantes do polígono de Willis ocorrem em mais da metade das pessoas; estenose intracraniana in situ está presente em 10% dos AVC isquêmicos.
Microembolia (HITS)
7,5×
risco de AVC/AIT recorrente com microembolia distal à estenose
26%
recorrência em 30 dias na estenose sintomática recente (< 7 dias)
7,1% × 3,0%
AVC/AIT ipsilateral ao ano em assintomáticos com × sem HITS (ACES)
HITS (high intensity transient signals) são sinais de alta intensidade e curta duração (< 300 ms) com som característico. Nas primeiras 24 horas do AVC isquêmico aparecem em até 49% dos pacientes, caindo após 48 horas. Em sintomáticos, a microembolia fundamenta a intensificação da antiagregação (estudos CARESS e CLAIR) ou a antecipação da endarterectomia ou do tratamento endovascular.
Hemodinâmica cerebral
- Autorregulação: avaliada de forma dinâmica pelo teste do manguito femoral (desinsuflação abrupta provoca hipotensão; o fluxo cerebral deve se manter).
- Reserva vasomotora: teste com inalação de CO₂ monitorando a ACM. Na hipercapnia o fluxo pode subir até 200%; aumento < 10% indica reserva prejudicada e alto risco de falência circulatória — informação valiosa antes da endarterectomia.
- Intraoperatório: detecta êmbolos na fase de pinçamento e mostra o efeito de anestésicos voláteis (vasodilatação) e hipnóticos (redução de fluxo).
- Hiperperfusão: após endarterectomia de estenose grave, o leito cronicamente dilatado perde a vasoconstrição; o DTC mostra velocidades altas com baixa pulsatilidade e guia o tratamento até normalizar.
As 4 recomendações do DTC (10.5)
- Em placas carotídeas ou vertebrais extracranianas, investigar microembolia silenciosa com DTC "cego" e capacete, monitorizando cerebrais médias ou basilar por no mínimo 4 horas consecutivas (I-B).
- Avaliar a reserva vasomotora antes da endarterectomia para reduzir o risco de isquemia grave na cirurgia (I-B).
- Monitorizar durante a cirurgia e por pelo menos 90 minutos após a endarterectomia, para diagnóstico e tratamento precoce de embolização gasosa ou sólida (I-B).
- Incluir V4 e basilar pela janela foraminal na rotina de sintomáticos sem lesão extracraniana que justifique a clínica (I-B).
Perguntas Frequentes
Como diferenciar hipoplasia de estenose da artéria vertebral?
Quais são os tipos de roubo da subclávia?
Para que serve o Doppler transcraniano na estenose carotídea?
Quanto tempo deve durar a monitorização de microembolia?
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