Ultrassom na TVP: Compressão, Idade do Trombo e Retrombose
O capítulo de trombose venosa profunda do posicionamento de ultrassonografia vascular do DIC/SBC 2019: os cinco critérios diagnósticos, a caracterização das fases do trombo, o trombo residual, a retrombose, a técnica do exame completo e o laudo.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: A USV de compressão é o padrão-ouro para TVP aguda (concordância de 95,5% com a angio-TC no PIOPED II). Incompressibilidade é o critério principal; calibre, parede, color e espectro estimam a fase: aguda (até 14 dias, veia dilatada, trombo hipoecogênico), subaguda (14–28 dias, isoecoico, canais de permeio) e crônica (>28 dias, veia reduzida, material hiperecogênico, colaterais). O DIC/SBC orienta sempre o exame completo, comprimindo a cada 5 cm até o tornozelo, e medir a massa residual para comparar em caso de retrombose (DIC/SBC 2019).
O exame clínico isolado acerta menos da metade dos casos de TVP, e só 12% a 31% dos pacientes avaliados por suspeita têm a doença. Errar para menos pode significar embolia pulmonar; errar para mais significa anticoagulação desnecessária, com custo e risco de sangramento. O ultrassom de compressão resolve essa equação — desde que feito por inteiro.

Por que o ultrassom
A probabilidade de TVP se define por três pilares — probabilidade clínica, D-dímero e imagem — e, entre os exames de imagem, a USV venosa é o padrão-ouro atual. No PIOPED II, a concordância entre angio-TC e ultrassom para diagnosticar ou excluir TVP foi de 95,5%. O exame ainda identifica outras causas para os mesmos sinais e sintomas.
O trombo costuma começar nas cúspides valvares e pode crescer em sentido proximal (13%), retrógrado (4%) ou nos dois (10%). É proximal quando envolve a poplítea ou acima, e distal quando restrito às veias profundas infrapatelares. Mesmo bem tratada, a TVP leva à síndrome pós-trombótica em 30% a 50% dos pacientes em 1 a 5 anos, grave em 5% a 10%.
Os cinco critérios diagnósticos
1. Compressão — o critério principal
A veia normal colaba totalmente. Situações que exigem manobras: musculatura forte (no canal adutor, comprimir pela face externa da coxa), bexiga neurogênica (esvaziar por cateterismo) e proximidade óssea nas veias infrapatelares.
2. Calibre
A veia normal tem o dobro do calibre da artéria. Na trombose aguda, distende e perde essa relação; com a recanalização, o calibre fica irregular e, na fase crônica, a veia pode retrair a ponto de ficar menor que a artéria — e passar despercebida.
3. Parede
Irregularidades ou espessamento difuso, trabeculações, sinéquias, valvas alteradas e perda da relação com estruturas vizinhas denotam TVP prévia recanalizada.
4. Mapeamento em cores
Preenchimento total no longitudinal e no transverso = normal. Falhas ou ausência de cor = trombose parcial ou total, útil nos trombos recentes de baixa ecogenicidade. Fluxo ao redor do trombo sugere fase aguda; fluxo através dele, recanalização. Ajustar escala e ganho e usar manobras de aumento de fluxo.
5. Análise espectral
Normal: fluxo espontâneo, fásico com a respiração, que aumenta com a compressão distal e cessa com Valsalva (veias proximais) ou compressão proximal. Fluxo contínuo, sem fasicidade, indica oclusão ou compressão proximal; resposta amortecida à compressão distal indica obstrução entre os dois pontos. Refluxo é patológico e pode denunciar trombose prévia (excluídas agenesia valvar e hiperfluxo).
Variação respiratória esperada: nos membros inferiores, o fluxo diminui na inspiração e aumenta na expiração; nos superiores e nas subclávias, o contrário.
As fases da trombose
| Característica | Aguda | Intermediária (subaguda) | Crônica |
|---|---|---|---|
| Tempo do evento | Até 14 dias | 14 a 28 dias | > 28 dias |
| Calibre do vaso | Dilatado | Ainda dilatado, normal ou levemente reduzido | Geralmente reduzido |
| Incompressibilidade | Total ou parcial | Total ou parcial | Parcial ou ausente |
| Aspecto do trombo | Hipoecogênico | Isoecoico | Hiperecogênico; irregularidades parietais; resíduos fibróticos; trombo residual |
| Fluxo | Ausente ou parcial | Canais de fluxo de permeio; pode haver microfístula | Preenche o lúmen; múltiplos canais; colaterais; espectro contínuo ou de baixa amplitude; refluxo em ortostatismo |
Adaptado de Santos SN et al., Arq Bras Cardiol 2019, Tabela 22.
Trombo residual
Espessura maior que 2 mm após compressão máxima aos 6 meses, ou maior que 3 mm em dois exames consecutivos.
Retrombose
O risco de recorrência persiste após o tratamento: incidência cumulativa de cerca de 30% em 8 anos, com mortalidade de até 30% nesses pacientes, sobretudo por câncer. Preditores relevantes: sexo masculino, localização do trombo e D-dímero; menos conhecidos, trombo residual ocupando 50% da luz após o tratamento e falha em normalizar a compressão.
Critérios que sugerem trombo novo: medida da massa residual em comparação ao exame anterior, aumento da extensão e um trombo de baixa ecogenicidade, suavemente compressível, com cauda, aderido à parede e com a veia ≥ 2 vezes a contralateral ou a artéria satélite. Daí a importância de o laudo inicial registrar as medidas com localização.
Técnica: o exame completo
- Membros inferiores: decúbito dorsal, tronco e cabeça elevados até 30°, leve rotação lateral do quadril e flexão do joelho.
- Compressão delicada em cortes transversais a cada 5 cm: segmento femoropoplíteo pela face medial da coxa, poplítea e trifurcação pela fossa poplítea, veias musculares (gastrocnêmias, soleares, intergemelares), tibiais posteriores e fibulares até o tornozelo, além das safenas magna e parva.
- Fibulares e soleares pela face lateral da perna, com o joelho fletido e o pé apoiado — não negligenciar em internados, nos quais a TVP fibular proximal é frequente.
- Tibiais anteriores e veias do pé só se houver sinal localizado. Ilíacas quando o topo do trombo da femoral comum não é visto ou o fluxo é contínuo/de baixa amplitude.
- Alternar transverso e longitudinal com color; espectral quando necessário. Arquivar clipes e imagens; registrar a compressão em imagem dual (com e sem compressão).
- Membros superiores: mesmo protocolo para os sistemas profundo e superficial, segmentos médio e distal das subclávias e jugulares.
- Seguimento com recanalização: pesquisar refluxo em ortostatismo (ou sentado). Sala a 22–25 °C — o frio causa vasoconstrição. Em obesos ou com edema, transdutor convexo de 3–5 MHz.
Os protocolos de dois pontos ou só femoropoplíteos — o chamado ultrassom point of care — são uma alternativa na emergência, mas o DIC/SBC orienta sempre o exame completo.
O laudo
- Há ou não sinais de TVP e/ou de trombose superficial.
- Características do trombo.
- Extensão, se possível com distâncias de referências anatômicas: espinha ilíaca anterossuperior, prega inguinal, joelho, maléolo, região plantar, prega axilar, cotovelo e punho.
- Na trombose crônica: medidas das massas residuais e seus locais (no laudo e/ou nas imagens) e presença de refluxo em ortostatismo.
Referência: Santos SN, Alcantara ML, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Posicionamento de Ultrassonografia Vascular do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;112(6):809-849. doi:10.5935/abc.20190106
Resumo independente, sem vínculo com a sociedade autora. Não substitui a leitura do documento original.
Perguntas Frequentes
Qual é o principal critério de trombose venosa profunda ao ultrassom?
Como estimar a idade do trombo pelo ultrassom?
Um ultrassom de dois pontos é suficiente para excluir TVP?
Como diferenciar retrombose de trombo residual antigo?
Quando as veias ilíacas devem ser examinadas?
Quer uma segunda opinião?
Este conteúdo é voltado para profissionais de saúde. Para encaminhamento de paciente, segunda opinião ou discussão de conduta com o Dr. Maurício, entre em contato direto pelo WhatsApp.
Saiba como funciona o Eco-DopplerLeia também
Tem dúvidas? Agende uma avaliação vascular
Agendar pelo WhatsApp