Varizes Vulvares: O Que São, Por Que Surgem e Como Tratar
Um tema cercado de silêncio e dúvidas. Entenda por que as varizes na região genital feminina aparecem — na gravidez e fora dela —, o que fazer para aliviar o desconforto e quando buscar tratamento definitivo.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Varizes na região genital feminina ainda são um assunto cercado de silêncio — por vergonha, desinformação ou simples falta de espaço para a conversa. Mas o problema é muito mais comum do que se imagina: estudos apontam que entre 8% e 22% das gestantes desenvolvem varizes vulvares ao longo da gravidez. Chegou a hora de falar sobre isso com clareza médica.

Rompendo o Silêncio: O Que São as Varizes Vulvares?
Assim como acontece nas pernas, as varizes vulvares são veias dilatadas e tortuosas — só que localizadas na vulva e na região da virilha. Elas se originam no plexo pudendo, uma rede de veias pélvicas responsável por drenar o sangue da região genital. Quando essas veias perdem a capacidade de impulsionar o sangue de volta ao coração, ele se acumula, dilata as paredes venosas e forma as varizes — exatamente o mesmo mecanismo da insuficiência venosa nas pernas, mas em outro território.
O incômodo é real e a vergonha de falar sobre o assunto faz com que muitas mulheres convivam caladas com a dor — sem saber que existe explicação médica clara e, principalmente, tratamento.
Por Que Elas Aparecem? Dois Cenários Diferentes
Entender quando as varizes vulvares surgem é o primeiro passo para entender por que elas surgem. Existem dois cenários clínicos bem distintos — e cada um aponta para uma causa diferente:
Cenário A — Durante a Gestação
- Hipervolemia: o volume de sangue circulante aumenta entre 40% e 50% para nutrir o bebê, sobrecarregando o sistema venoso.
- Efeito hormonal: a progesterona e a relaxina relaxam a parede das veias, facilitando a dilatação.
- Compressão mecânica: o útero em crescimento comprime as veias pélvicas, dificultando o retorno do sangue da região genital.
Cenário B — Fora da Gestação
- Síndrome de Nutcracker: compressão da veia renal esquerda entre a aorta e a artéria mesentérica superior, gerando refluxo para o plexo pélvico.
- Síndrome de May-Thurner: compressão da veia ilíaca comum esquerda pela artéria ilíaca direita, causando obstrução ao fluxo venoso pélvico.
- Outros fatores de risco: multiparidade, predisposição genética, obesidade e longos períodos em pé.
📌 Por que isso importa: quando as varizes vulvares aparecem fora da gravidez — ou persistem muito tempo depois do parto —, elas deixam de ser um "efeito colateral" passageiro da gestação e passam a sinalizar uma causa estrutural nas veias pélvicas, que precisa ser investigada e mapeada por um cirurgião vascular.
Sinais e Sintomas: Como Reconhecer
Os sintomas costumam ser desconfortáveis, mas raramente são silenciosos — o problema é que muitas mulheres não os relacionam às varizes por não saberem que elas também ocorrem nessa região. Os sinais mais comuns incluem:
Peso e plenitude
Sensação de peso, pressão ou "estar cheia" na região vulvar e na virilha, que costuma piorar ao longo do dia e com o tempo em pé.
Dispareunia
Dor ou desconforto durante a relação sexual, causados pela congestão e dilatação das veias na região genital.
Aspecto de "cacho de uvas"
Veias visivelmente dilatadas e tortuosas, formando relevos arredondados característicos sob a pele da vulva.
Piora pré-menstrual
Os sintomas tendem a se intensificar nos dias que antecedem a menstruação, acompanhando as variações hormonais do ciclo.
O Mito do Parto Normal: Desfazendo o Maior Receio
É talvez a dúvida mais frequente — e mais angustiante — entre as gestantes que descobrem varizes vulvares: "isso vai impedir meu parto normal?" A resposta, respaldada pela prática obstétrica e vascular, é tranquilizadora:
✓ Não, as varizes vulvares não impedem o parto normal. Diferentemente das veias arteriais, elas são vasos de baixa pressão e paredes elásticas. O risco de sangramento relevante durante o parto é baixo — e, quando ocorre, é facilmente controlado com medidas simples, como compressão local ou sutura. A presença isolada de varizes vulvares não é, por si só, indicação de cesariana.
Essa informação muda a forma como a gestante encara a própria gravidez: o que parecia um obstáculo ao parto natural é, na verdade, uma condição comum, benigna na maioria dos casos, e perfeitamente administrável pela equipe obstétrica.
Diagnóstico Moderno: A Classificação SVP
Para organizar o raciocínio clínico e direcionar o tratamento mais adequado, a medicina vascular utiliza a classificação SVP — um sistema que avalia três dimensões do problema, de forma semelhante ao que a classificação CEAP faz para as varizes de membros inferiores:
| Sigla | Dimensão avaliada | O que define |
|---|---|---|
| S — Sintomas | Impacto clínico | Presença e intensidade de dor, peso, dispareunia e demais sintomas relatados pela paciente |
| V — Varizes | Localização anatômica | Mapeamento de onde as veias dilatadas estão presentes — vulva, virilha, períneo ou coxa medial |
| P — Fisiopatologia | Mecanismo da doença | Define se a causa é refluxo (válvulas que falham) ou obstrução (compressão mecânica das veias pélvicas) |
É justamente o componente "P" que orienta a decisão terapêutica: saber se o problema é causado por refluxo valvular ou por obstrução mecânica (como nas síndromes de Nutcracker e May-Thurner) muda completamente a estratégia de tratamento.
Como Aliviar o Desconforto Durante a Gravidez
Como o tratamento definitivo é, em geral, postergado para depois do parto e da amamentação, o foco durante a gestação é o alívio dos sintomas com medidas simples e seguras:
Cuidados que fazem diferença no dia a dia:
- ✓ Higiene postural: dormir preferencialmente do lado esquerdo reduz a compressão do útero sobre a veia cava e melhora o retorno venoso da região pélvica.
- ✓ Suporte pélvico: o uso de calcinhas ou cintas de sustentação compressivas ajuda a aliviar a sensação de peso e a conter a dilatação das veias.
- ✓ Exercícios de Kegel: o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico favorece o retorno venoso da região genital.
- ✓ Crioterapia: compressas frias aplicadas na região, por curtos períodos, ajudam a reduzir a congestão e o desconforto local.
Tratamentos Definitivos: Quando e Como Intervir
Fora do contexto da gestação — ou após o término da amamentação, quando os sintomas persistem — existem dois procedimentos minimamente invasivos consagrados para tratar as varizes vulvares de forma definitiva:
Escleroterapia com microespuma (Técnica de Tessari)
Uma microespuma é preparada a partir do polidocanol em baixa concentração (cerca de 1%, na proporção 1:4 com ar) e injetada diretamente nas veias dilatadas da vulva. A espuma irrita a parede do vaso, promovendo seu fechamento e posterior reabsorção pelo organismo — com bom resultado estético e funcional.
Saiba mais →Embolização pélvica
Indicada quando o refluxo se origina nas veias ovarianas ou no plexo pélvico (como na Síndrome de Nutcracker). O cirurgião vascular introduz pequenas molas de metal (coils) por cateter, ocluindo a veia doente e redirecionando o fluxo sanguíneo para vasos saudáveis — sem necessidade de cirurgia aberta.
Segurança e Resultados: O Que Mostram os Números
Procedimentos minimamente invasivos têm taxa de sucesso elevada — em torno de 93% em um ano — e o perfil de efeitos colaterais é, em sua maioria, leve e temporário. Ainda assim, é importante que a paciente conheça as estatísticas reais antes de decidir pelo tratamento:
| Efeito ou complicação | Frequência aproximada |
|---|---|
| Dor leve ou coceira local após o procedimento | Até 80% dos casos (transitório) |
| Hiperpigmentação (manchas escuras na pele) | 31% a 35% dos casos (geralmente reversível) |
| Escotomas visuais — em pacientes com forame oval patente | Pouco frequente, requer triagem prévia |
| Sintomas sistêmicos ou episódios tromboembólicos | Raros |
| Necrose de pele no local da injeção | Raríssima |
| Complicações graves no geral | Inferior a 0,6% dos casos |
Estatísticas de referência da literatura vascular sobre escleroterapia e embolização pélvica para varizes da região genital feminina. Os percentuais variam conforme a técnica, o volume tratado e as características de cada paciente — por isso a avaliação individual é indispensável.
Conclusão: Não Sofra em Silêncio
As varizes vulvares são mais comuns do que o silêncio em torno delas sugere — e têm explicação médica clara, seja na gestação, seja fora dela. Elas não representam um obstáculo ao parto normal, têm manejo eficaz durante a gravidez e contam com tratamentos minimamente invasivos definitivos, com altas taxas de sucesso, quando chega o momento certo de tratar.
Se você convive com esse desconforto — grávida ou não —, o caminho é simples: procure uma avaliação com um cirurgião vascular especializado. O mapeamento correto das veias pélvicas é o que diferencia um tratamento genérico de um plano terapêutico realmente eficaz para o seu caso.
Perguntas Frequentes
Varizes vulvares impedem o parto normal?
Varizes vulvares na gravidez são perigosas?
Por que as varizes aparecem na vulva durante a gestação?
Varizes vulvares também ocorrem fora da gravidez?
Qual o tratamento definitivo para varizes vulvares?
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