Estenose Carotídea Assintomática: Quando Indicar a Endarterectomia Carotídea (CEA)?
O SVS DCV 2022 Guideline 1 (AbuRahma et al., J Vasc Surg 2022;75:4S-22S) recomenda CEA com tratamento clínico maximizado sobre tratamento clínico isolado para prevenção de AVC a longo prazo em pacientes assintomáticos com estenose ≥70% e baixo risco cirúrgico (Grau 1B). O risco perioperatório <3% é condição obrigatória para o benefício.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: A SVS DCV 2022 recomenda CEA sobre tratamento clínico máximo para estenose carotídea assintomática ≥70% em pacientes de baixo risco cirúrgico (Grau 1B). Deve ser realizada em centros com morbimortalidade perioperatória <3%. Rastreamento por Duplex scan é recomendado em assintomáticos com fatores de risco — SVS DCV 2022 Guideline 1.
O Guideline 1 das Diretrizes SVS DCV 2022 (AbuRahma et al., J Vasc Surg 2022;75(1S):4S-22S) aborda a indicação de endarterectomia carotídea (CEA) no paciente assintomático de baixo risco cirúrgico. A questão central: CEA ou tratamento clínico maximizado? A recomendação é forte (Grau 1B), baseada nos ensaios ACAS e ACST, com uma condição inegociável: risco perioperatório <3%.

Recomendação 1.1 — SVS DCV 2022
Em pacientes de baixo risco cirúrgico com aterosclerose assintomática da bifurcação carotídea e estenose >70% (documentada por duplex ultrassom validado ou CTA/angiografia), recomendamos CEA associada ao tratamento clínico maximizado em vez do tratamento clínico máximo isolado para prevenção de AVC e morte a longo prazo.
Critérios de Indicação
Critérios que FAVORECEM a CEA
Situações que CONTRAINDICAM a CEA
Base de Evidência — ACAS e ACST
ACAS — Asymptomatic Carotid Atherosclerosis Study
N: 1.662 pacientes, estenose >60% assintomática
Comparação: CEA + AAS vs AAS isolado
Desfecho primário (5 anos):
Redução de risco: 53% (IC 95%: 22-72%)
ACST — Asymptomatic Carotid Surgery Trial
N: 3.120 pacientes, estenose assintomática
Comparação: CEA imediata vs tratamento clínico
Desfecho (5 anos):
IC 95%: 4,0-7,8% | 10 anos: 13,3% vs 17,9%
Tratamento Clínico Maximizado — Obrigatório em Todos os Casos
Antiagregação
AAS 100mg/dia ou clopidogrel 75mg/dia
Estatina alta potência
Alvo LDL < 70 mg/dL
Anti-hipertensivo
Alvo PA < 130/80 mmHg
Cessação tabágica
Maior fator de risco modificável
O ACST demonstrou que pacientes em uso de terapia hipolipemiante no braço CEA apresentaram menor incidência de AVC (0,7% vs 1,3% ao ano; P <0,0001) em relação aos sem terapia. O tratamento clínico moderno pode reduzir — mas não eliminar — o benefício adicional da CEA.
Algoritmo de Decisão
Estenose ≥70% + baixo risco cirúrgico + expectativa ≥5 anos
CEA + tratamento clínico maximizado
Estenose 50-69% assintomática
Decisão individualizada; tratamento clínico preferível na maioria
Estenose <50% assintomática
Tratamento clínico maximizado isolado
Qualquer estenose + alto risco cirúrgico
Tratamento clínico maximizado; evitar CEA
Oxford Vascular Study — Risco por Grau de Estenose com BMT Contemporânea
Howard et al. conduziram um estudo de coorte prospectivo (Oxford Vascular Study) com 2.354 pacientes consecutivos para avaliar o risco de AVC ipsilateral com a melhor terapia clínica contemporânea, estratificado pelo grau de estenose assintomática:
Estenose 50 a <70%
0%
AVC ipsilateral a 5 anos
154 pacientes — nenhum AVC ipsilateral em 5 anos com BMT contemporânea
Estenose 70 a 99%
14,6%
AVC ipsilateral a 5 anos
53 pacientes — risco ipsilateral substancial mesmo com BMT contemporânea
Estenose 80 a 99%
18,3%
AVC ipsilateral a 5 anos
34 pacientes — risco ainda maior no subgrupo de estenose mais grave
Implicação clínica: Na revisão sistemática de 56 estudos (13.717 pacientes), o risco de AVC ipsilateral foi linearmente associado ao grau de estenose (p<0,0001). Pacientes com estenose 70-99% tiveram OR 2,1 para AVC ipsilateral vs estenose 50-69% (p<0,0001). Os autores concluíram que o benefício da CEA pode ter sido subestimado nos pacientes com estenose grave (>70%), especialmente no subgrupo 80-99%.
Impacto das Estatinas no ACST — Evidência Direta
Com terapia hipolipemiante
Grupo CEA
Grupo clínico
Diferença menor — benefício da CEA reduzido com estatinas
Sem terapia hipolipemiante
Grupo CEA
Grupo clínico
Diferença maior — CEA com maior benefício absoluto sem estatinas
Conclusão: A BMT moderna (com estatinas de alta potência) reduz o risco de AVC no assintomático e diminui o benefício marginal da CEA. Isso fundamenta a posição mais criteriosa da ESVS 2023, que exige fatores de alto risco pelo ECST-2 além da estenose — diferente desta diretriz SVS DCV 2022, que usa apenas estenose ≥70% + baixo risco cirúrgico.Ver ESVS 2023 E3 →
Questões em Aberto — Trials em Andamento
CREST-2
Compara CEA + BMT vs BMT isolada e CAS + BMT vs BMT isolada em pacientes assintomáticos com estenose ≥70%.
Questão central: a BMT contemporânea é equivalente ou superior à CEA no assintomático? Resultados esperados nos próximos anos.
SPACE-2
Compara CEA vs CAS vs BMT isolada em pacientes assintomáticos — desenhado para responder o que os trials dos anos 1990 não puderam.
Encerrado precocemente por dificuldade de recrutamento — o paradoxo dos trials modernos: à medida que a BMT melhora, os pacientes relutam em ser randomizados.
Referências
- AbuRahma AF, Avgerinos ED, Chang RW, et al. Society for Vascular Surgery clinical practice guidelines for management of extracranial cerebrovascular disease. J Vasc Surg. 2022;75(1S):4S-22S.
- Executive Committee for the Asymptomatic Carotid Atherosclerosis Study. Endarterectomy for asymptomatic carotid artery stenosis. JAMA. 1995;273(18):1421-8.
- Halliday A, Mansfield A, Marro J, et al. Prevention of disabling and fatal strokes by successful carotid endarterectomy in patients without recent neurological symptoms (ACST-1). Lancet. 2004;363(9420):1491-502.
- Halliday A, Harrison M, Hayter E, et al. 10-year stroke prevention after successful carotid endarterectomy for asymptomatic stenosis (ACST-1). Lancet. 2010;376(9746):1074-84.
- Howard VJ, Meschia JF, Lal BK, et al. Carotid artery intima-media thickness, stenosis, and cardiovascular risk in a diverse US population (CARES). JAMA Cardiol. 2022;7(7):721-9.
- Naylor AR, Ricco JB, de Borst GJ, et al. Editor's Choice — Management of Atherosclerotic Carotid and Vertebral Artery Disease: 2017 Clinical Practice Guidelines of the ESVS. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2018;55(1):3-81.
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Perguntas Frequentes
Qual o grau de estenose para indicar CEA no paciente assintomático?
O que define baixo risco cirúrgico para indicação de CEA no assintomático?
O que mostram o ACAS e ACST sobre CEA na estenose assintomática?
Qual o papel do tratamento clínico maximizado na estenose carotídea assintomática?
Quando NÃO indicar CEA na estenose carotídea assintomática?
Qual o papel do TCAR e do stenting carotídeo (CAS) no paciente assintomático?
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