Classificação CEAP: O que Significa seu Estágio
O padrão mundial para medir a gravidade da doença venosa — do vasinho invisível (C0) à úlcera ativa (C6). Entenda onde você está e o que isso significa para o seu tratamento.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Quando um cirurgião vascular diz que você está em C2 ou C4, está usando um idioma universal criado em 1994 para classificar a doença venosa com precisão em qualquer lugar do mundo. Este guia traduz esse idioma para você.

O que é a Classificação CEAP?
Antes de 1994, a medicina não tinha uma linguagem comum para descrever a gravidade da doença venosa. O que um especialista chamava de "dermatite", outro classificava como "varizes complicadas". Para resolver essa confusão, foi criado o sistema CEAP — sigla para Clínica, Etiologia, Anatomia e Fisiopatologia.
Para o paciente, o mais importante é a dimensão Clínica (o "C" da sigla): uma escada de sete degraus — de C0 a C6 — que descreve objetivamente o que se vê e sente nas pernas. Ela permite que qualquer cirurgião vascular do mundo entenda imediatamente a gravidade do caso com um único código.
Sintomático ou Assintomático? Os Modificadores "S" e "A"
A aparência das pernas nem sempre reflete o nível de desconforto do paciente. Por isso, ao lado do número, o médico adiciona uma letra:
- C2A (Assintomático): há varizes visíveis, mas o paciente não sente dor.
- C2S (Sintomático): há varizes e sintomas — pernas pesadas, queimação, formigamento, cãibras noturnas ou coceira.
Os sintomas do tipo "S" são o grito do sistema circulatório sob estresse. Dois pacientes podem ter a mesma aparência e estágios completamente diferentes de urgência terapêutica.
Os Estágios da Doença Venosa: C0 a C6
C0 — A Doença Invisível
Não há sinais visíveis ou palpáveis de varizes. No entanto, o paciente classificado como C0s sente todos os sintomas — dor, peso, cãibras — indicando que a doença está ocorrendo nos bastidores, em veias mais profundas que a pele oculta. O Eco-Doppler é o único exame capaz de identificá-la neste estágio.
C1 — Os "Vasinhos" (Telangiectasias e Veias Reticulares)
A doença emerge na superfície em duas formas:
- • Telangiectasias: vasos finos (menos de 1 mm), como teias de aranha vermelhas ou roxas.
- • Veias Reticulares: vasos maiores (1 a 3 mm), azulados ou esverdeados, que funcionam como "raízes" que alimentam os vasinhos menores.
Quando acompanhados de sintomas (C1s), indicam refluxo ativo que precisa ser mapeado com Doppler.
C2 — As Varizes Clássicas
As veias estão dilatadas (mais de 3 mm), tortuosas e saltadas. As válvulas internas — que deveriam impedir o sangue de descer pela gravidade — falharam. O sangue "despenca" de volta para os pés (refluxo), esticando progressivamente a parede da veia. A atualização de 2020 introduziu o código C2r para varizes que retornam após cirurgia anterior (recidiva).
C3 — O Inchaço (Edema)
Quando a pressão nas veias aumenta muito, o líquido do sangue escapa para os tecidos. O paciente nota tornozelos roliços e marcas de meias ou sapatos ao final do dia — inchaço que costuma sumir após uma noite de repouso. É o último estágio antes do dano à pele e o momento ideal para tratar de forma definitiva.
C4 — Alterações na Pele ⚠️ Ponto de Alerta
A doença deixa de ser apenas um problema nas veias e começa a destruir a pele. Divide-se em três subtipos:
- C4a — Dermatite ocre e eczema: manchas cor de ferrugem causadas pelo ferro do sangue "enferrujando" o tecido, acompanhadas de coceira intensa.
- C4b — Lipodermatoesclerose e atrofia branca: a pele torna-se dura como couro e a perna afina perto do tornozelo, ganhando o formato de "garrafa de champanhe invertida". Surgem manchas brancas — pequenas áreas de pele morta.
- C4c — Corona Phlebectatica: rede em leque de vasos no calcanhar e arco do pé. Sinal crítico: o risco de úlcera aberta é 5 vezes maior.
C5 — A Úlcera Cicatrizada
O paciente já teve uma ferida aberta no passado que conseguiu fechar. A pele nesse local é extremamente frágil — pode romper novamente com qualquer trauma mínimo. Sem tratamento da causa venosa, a recidiva da úlcera é quase certa.
C6 — A Úlcera Ativa 🚨 Emergência
Estágio mais grave: ferida aberta que não cicatriza sozinha. Gera dor intensa, risco de infecções graves (erisipela, celulite, sepse) e impacto severo na qualidade de vida e mobilidade. Exige avaliação vascular urgente — a úlcera venosa não fecha sem tratar a hipertensão venosa que a causa.
Resumo dos Estágios
| Estágio | O que se vê na pele | O que o paciente sente |
|---|---|---|
| C0 | Pele normal | Dor, peso e cãibras "invisíveis" |
| C1 | Vasinhos (teias de aranha) | Queimação e desconforto estético |
| C2 | Veias grossas e saltadas | Veias doloridas e risco de tromboflebite |
| C3 | Inchaço (edema) | Tornozelos inchados e marcas de sapatos |
| C4 | Manchas, pele dura ou coceira | Inflamação da pele; perna "enferrujada" |
| C5 | Cicatriz de ferida antiga | Pele fina como papel; medo de nova ferida |
| C6 | Ferida aberta (Úlcera) | Dor intensa, secreção e dificuldade de andar |
O Divisor de Águas: Desordem vs. Insuficiência
A medicina divide o CEAP em dois grandes grupos com prognósticos radicalmente diferentes:
C0 a C3 — Desordem Venosa
A pele ainda está saudável. O prognóstico é excelente: o tratamento costuma eliminar os sintomas e o inchaço por completo. Este é o momento ideal para tratar.
C4 a C6 — Insuficiência Venosa Crônica
A doença cruzou uma linha perigosa. As alterações de pele costumam ser irreversíveis. O foco muda: salvar o membro e evitar complicações graves.
Por que C4 a C6 Exigem Ação Imediata
O diagnóstico a partir do estágio C4 exige ação rápida por três motivos:
- Destruição tecidual: a inflamação crônica libera enzimas que "devoram" a pele, levando à morte dos tecidos. Cada semana sem tratamento aprofunda o dano.
- Risco de infecção: feridas abertas (C6) são portas de entrada para bactérias — podendo causar erisipela, celulite e até sepse (infecção generalizada).
- Risco de trombose: o sangue parado em veias inflamadas coagula mais facilmente, podendo levar a TVP ou Embolia Pulmonar.
Como o Cirurgião Vascular Usa o CEAP para Decidir o Tratamento
O CEAP funciona como uma bússola estratégica, mas nunca decide sozinho. O processo envolve:
- Eco-Doppler Venoso: obrigatório antes de qualquer tratamento — mapeia onde o refluxo começa e "quem" está alimentando o problema visível na pele. Sem Doppler, o tratamento é às cegas.
- Modulação da técnica por estágio: para C1–C2, o foco pode ser estética e alívio de sintomas com escleroterapia ou microcirurgias. Para C4–C6, é necessário desativar a "bomba de pressão" com laser (EVLA), radiofrequência ou espuma densa.
- Alinhamento de expectativas: o CEAP ajuda o médico a explicar com precisão o que o tratamento pode e não pode reverter — como as manchas do C4a, que costumam ser permanentes mesmo após a correção das varizes.
💡 Regra prática: Se você está em C3 ou abaixo, tem tempo para planejar o tratamento com calma. Se está em C4 ou acima, a avaliação vascular deve acontecer nas próximas semanas — não meses. Se há úlcera aberta (C6), procure o cirurgião vascular o quanto antes.
Perguntas Frequentes
O que significa se meu médico disse que estou em C3?
Posso piorar de estágio sem perceber?
A classificação CEAP é usada para decidir se preciso de cirurgia?
Manchas na pele (C4a) têm cura depois do tratamento?
Vasinhos (C1) são apenas estéticos ou indicam doença?
Suas varizes merecem avaliação especializada.
Cada caso é único. O Eco-Doppler Vascular mapeia o refluxo e define qual técnica — espuma, laser, radiofrequência ou cirurgia — é a certa para você.
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