CEA na Estenose Carotídea Sintomática: Técnica, Anestesia, Patch e Complicações — ESVS 2023
As Diretrizes ESVS 2023 (Naylor AR et al., EJVES 2023;65:7–111) tomam posição técnica baseada em evidências: patch Grau 1A (Cochrane: -52% AVC, -74% reestenose), anestesia local ou geral sem diferença (GALA trial, 3.526 pacientes), shunting seletivo por critérios intraoperatórios e protocolo de vigilância de complicações.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: GALA trial (3.526 pacientes): anestesia local e geral são equivalentes em desfechos de AVC/morte na CEA. Patch (fechamento com remendo — Cochrane): reduz AVC perioperatório em 52% e reestenose em 74% vs sutura primária. Shunt seletivo guiado por monitoramento neurológico intraoperatório é preferido ao shunt de rotina — ESVS 2023 E5.
A técnica importa na CEA. A ESVS 2023 (Naylor AR et al., EJVES 2023;65:7–111) toma posição com base em metanálises Cochrane e no maior trial de anestesia já realizado: patch sempre (Grau 1A), anestesia pela preferência do time, shunting seletivo por critérios fisiológicos. Entenda o racional e as evidências.

CEA Convencional vs Eversão — Equivalência com Perfis Diferentes
CEA Convencional
Arteriotomia longitudinal + remoção da placa + fechamento com patch
Vantagens
- ✓Acesso a placa longa ou que se estende além da bifurcação
- ✓Facilidade técnica para inserção de shunt
- ✓Maior controle em placa calcificada ou complexa
Limitações
- →Sutura lateral → maior risco de kinking tardio
- →Depende do patch para fechamento adequado
CEA por Eversão
Transecção oblíqua na bifurcação + eversão da íntima + reimplante
Vantagens
- ✓Sem sutura lateral → menor risco de kinking tardio
- ✓Menor tempo de clampeamento em mãos experientes
- ✓Anatomia final mais fisiológica
Limitações
- →Dificulta o uso de shunt (se necessário)
- →Controle limitado em placas muito longas
ESVS 2023: Ambas as técnicas são equivalentes em desfechos (AVC, morte, reestenose). A escolha deve ser baseada no treinamento do cirurgião e nas características anatômicas da placa — não existe técnica universalmente superior.
GALA Trial — O Maior Estudo sobre Anestesia na CEA
3.526
Pacientes
Maior RCT sobre anestesia em CEA
95
Centros
Hospitais em 24 países
Lancet 2008
Publicação
Lewis et al.
Anestesia Local
4,8%
AVC/IAM/morte 30d
Anestesia Geral
4,8%
AVC/IAM/morte 30d
Sem diferença estatística — p = NS
Anestesia Local — Vantagens
- → Monitoramento neurológico em tempo real (fala durante clampeamento)
- → Menor instabilidade hemodinâmica
- → Sem complicações de intubação
Anestesia Geral — Vantagens
- → Conforto para o paciente (ansioso ou claustrofóbico)
- → Campo operatório quieto para o cirurgião
- → Maior controle em complicações intraoperatórias
ESVS 2023: Escolha baseada em preferência local, experiência do time anestésico e preferência do paciente.
Patch de Fechamento — Evidência Grau 1A pela Cochrane
AVC Perioperatório
↓ 52% de redução relativa
Reestenose ≥50% a 1 ano
↓ 74% de redução relativa
Veia Safena
+ Mais fisiológica, menor reação inflamatória
− Morbidade da coleta, risco de dilatação tardia
PTFE (ePTFE)
+ Zero infecção, disponível, sem morbidade de coleta
− Mais rígido, pode ter trombose precoce se diâmetro <6mm
Dacron
+ Amplamente disponível, baixo custo
− Maior reação inflamatória que PTFE, risco de infecção
Shunting Seletivo — Quando o Cérebro Precisa de Perfusão
O shunting rotineiro não demonstrou superioridade sobre o seletivo. O shunting nunca (não usar em nenhum caso) não é recomendado. A ESVS 2023 recomenda shunting seletivo baseado em critérios fisiológicos intraoperatórios:
Stump pressure < 50 mmHg
Pressão residual no coto da carótida interna após clampeamento — indica perfusão colateral insuficiente pelo polígono de Willis
Alteração de EEG ou PESS
Eletroencefalograma ou potenciais evocados somatossensitivos — isquemia cortical detectada após clampeamento
Déficit neurológico na vigília
Paciente sob anestesia locoregional apresenta déficit ao teste motor durante clampeamento — critério mais específico
TCD: queda de velocidade > 50%
Doppler transcraniano monitora ACM ipsilateral — queda após clampeamento indica fluxo colateral inadequado
A presença de qualquer um desses critérios indica inserção de shunt.
Complicações — Prevenção e Conduta Imediata
AVC Perioperatório
Mecanismo: Origem embólica em 80% dos casos (placa, trombo, ar)
Prevenção: Use patch, minimize manipulação da placa antes do clampeamento, shunt seletivo quando indicado
Conduta: TCD intraoperatório alerta; angiografia urgente se déficit pós-operatório
Lesão do Nervo Hipoglosso (XII)
Mecanismo: Tração ou transecção durante dissecção — causa desvio da língua
Prevenção: Identificar o nervo antes de tracionar ventralmente a carótida
Conduta: 90% recuperam em 3–6 meses; fonoaudiologia se disfagia
Lesão do Nervo Vago (X)
Mecanismo: Dissecção posterolateral — causa rouquidão e bradicardia
Prevenção: Cuidado na dissecção posterior à carótida comum
Conduta: Avaliação otorrinolaringológica; maioria melhora em 3–6 meses
Hematoma Cervical
Mecanismo: Sangramento da loja cirúrgica com compressão de vias aéreas
Prevenção: Hemostasia rigorosa; não fechar drenagem sob tensão
Conduta: Drenar emergencialmente se compressão de vias aéreas — NÃO esperar TC
Síndrome de Hiperperfusão
Mecanismo: Perda de autorregulação após revascularização brusca
Prevenção: Controlar PA <150 mmHg nas 48h pós-CEA
Conduta: Cefaleia intensa + PA elevada = alerta para AVC hemorrágico; TC urgente
Referências
- Naylor AR, Ricco JB, de Borst GJ, et al. Management of Atherosclerotic Carotid and Vertebral Artery Disease: 2023 Clinical Practice Guidelines of the ESVS. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2023;65(1):7-111.
- Lewis SC, Warlow CP, Bodenham AR, et al. General anaesthesia versus local anaesthesia for carotid surgery (GALA): a multicentre, randomised controlled trial. Lancet. 2008;372(9656):2132-42.
- Rerkasem A, Rothwell PM. Patch angioplasty versus primary closure for carotid endarterectomy. Cochrane Database Syst Rev. 2009;(4):CD000160.
- Paraskevas KI, Robertson V, Saratzis AN, et al. An updated systematic review and meta-analysis of outcomes following eversion vs. conventional carotid endarterectomy in randomised controlled trials and observational studies. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2018;55(4):465-73.
- Brott TG, Hobson RW 2nd, Howard G, et al. Stenting versus endarterectomy for treatment of carotid-artery stenosis (CREST). N Engl J Med. 2010;363(1):11-23.
- Jansen C, Moll FL, Vermeulen FE, et al. Continuous transcranial Doppler ultrasonography and electroencephalography during carotid endarterectomy: a multimodal monitoring study. Anesth Analg. 1993;77(3):460-5.
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Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre CEA convencional e CEA por eversão?
O que mostrou o GALA Trial sobre anestesia na CEA?
Por que a ESVS 2023 recomenda patch de fechamento com Grau 1A?
Quais são os critérios para inserir shunt durante a CEA?
Quais são as principais complicações da CEA e como preveni-las?
Qual o papel do TCD no monitoramento intraoperatório da CEA?
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