CAS vs CEA na Estenose Carotídea Sintomática: Quatro Trials, TCAR e Quando Escolher — ESVS 2023
As Diretrizes ESVS 2023 (Naylor AR et al., EJVES 2023;65:7–111) sintetizam EVA-3S, SPACE, ICST e CREST: CAS aumenta o risco de AVC perioperatório em 60–70% vs CEA no sintomático. O TCAR (ROADSTER-2: 1,6% AVC/morte) muda o cenário para casos selecionados. A escolha correta depende da anatomia, não da preferência técnica.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Quatro trials (>6.000 pacientes — EVA-3S, SPACE, ICST, CREST): CAS apresenta 60–70% mais AVC perioperatório vs CEA em estenose sintomática. CAS é preferido em alto risco cirúrgico (pescoço irradiado, reestenose), em centros experientes, ou quando CEA não é tecnicamente viável. TCAR (transcarotid artery revascularization) tem dados promissores — ESVS 2023 E6.
Quatro grandes trials randomizados, mais de 6.000 pacientes, uma conclusão consistente: CAS tem maior risco de AVC nas primeiras 48h que a CEA na estenose sintomática. Mas há casos em que o CAS é a única opção — e o TCAR muda o jogo. A ESVS 2023 (Naylor AR et al., EJVES 2023;65:7–111) define quando cada escolha é justificada.

Os 4 Trials — AVC/Morte a 30 Dias em Sintomáticos
| Trial (ano) | N | CAS | CEA | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| EVA-3S (2006) | 527 | 9,6% | 3,9% | CEA superior — RR 2,5 (p<0,001) |
| SPACE (2006) | 1.183 | 7,7% | 6,5% | Tendência para CEA (NS) — trial não conclusivo |
| ICST (2010) | 1.713 | 8,5% | 5,4% | CEA superior — RR 1,6 (p=0,006) |
| CREST (2010) | 2.502 | 6,0% | 3,2% | Mais AVC com CAS; mais IAM com CEA* |
*CREST: o desfecho composto (AVC+IAM+morte) foi similar. Mas AVC — o desfecho mais relevante para o paciente com estenose carotídea — foi significativamente maior com CAS.
Metanálise dos 4 Trials
CAS aumenta o risco de AVC perioperatório em 60–70% comparado à CEA no paciente sintomático. O risco absoluto adicional é de aproximadamente 3–5 pontos percentuais nas primeiras 48–72h — um custo não desprezível em uma intervenção cujo objetivo principal é prevenir AVC.
ESVS 2023 (Grau 1A): CEA é preferencial ao CAS em pacientes sintomáticos com anatomia cirurgicamente favorável e risco cirúrgico aceitável.
Por Que o CAS Embola Mais — Mecanismo Fisiopatológico
Guia no Arco Aórtico
A passagem do guia pelo arco aórtico e para os vasos supraaórticos fragmenta placa aterosclerótica aórtica — principal diferença em relação à CEA, que não requer acesso ao arco.
→ Embolização proximal — micro e macroêmbolos sistêmicos
Travessia da Estenose
Antes do stent, o guia e o sistema de liberação atravessam a placa vulnerável — fragmentos são deslocados distalmente para a circulação cerebral.
→ Embolização carotídea direta — fragmentos de placa instável
Abertura do Stent (crush)
A expansão do stent "esmaga" a placa contra a parede arterial, liberando micropartículas que podem migrar para a circulação cerebral distal.
→ Microembolização cerebral — DWI positivo assintomático em >40% dos casos
Filtros de Proteção Distal
Capturam >90% das partículas >80 μm — mas NÃO previnem microêmbolos, que são os principais responsáveis pelos infartos silenciosos na difusão.
→ Limitação importante: proteção parcial apenas
Quando o CAS É a Escolha Correta no Sintomático
✅ Indicações Corretas para CAS
Pescoço irradiado
Fibrose pós-radioterapia torna a dissecção de alto risco — campo cirúrgico "congelado"
Reestenose pós-CEA
Campo fibrótico + risco aumentado de lesão de nervos cranianos na re-exploração
Nervo craniano contralateral paralisado
CEA ipsilateral pode causar lesão bilateral de nervo laríngeo → disfagia grave
Estenose C1-C2 ou intratorácica
Inacessível pela abordagem cervical padrão
Alto risco cardíaco grave para AG
Avaliado individualmente — não por critério único
❌ CAS NÃO deve ser escolhido quando
TCAR — TransCarotid Artery Revascularization
Princípio do Fluxo Reverso — Proteção Máxima
ROADSTER-1
N: 141 pacientes (mistos: sintomáticos e assintomáticos)
AVC/morte 30 dias:
1,4%
Resultado comparável à CEA
ROADSTER-2
N: 692 pacientes — maior registro TCAR
AVC/morte 30 dias:
1,6%
Melhor que CAS transfemoral histórico nos sintomáticos
Nota: ROADSTER inclui pacientes mistos. RCTs comparando TCAR vs CEA vs CAS em sintomáticos estão em andamento — dados definitivos ainda pendentes.
Vigilância Pós-CAS — Duplex e Critérios de Reestenose
1 mês
Duplex baseline pós-stent
6 meses
Controle de reestenose precoce
12 meses
Avaliação anual
Anual
Se estável
Critério de Reestenose In-Stent
PSV >300 cm/s OU razão PSV carótida / subclávia > 4
Reestenose Moderada (50–70%)
Intensificar vigilância para a cada 6 meses — monitoramento clínico
Reestenose Grave (>70%)
Angioplastia com balão (1ª escolha) — re-stenting para casos refratários selecionados
Referências
- Naylor AR, Ricco JB, de Borst GJ, et al. Management of Atherosclerotic Carotid and Vertebral Artery Disease: 2023 Clinical Practice Guidelines of the ESVS. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2023;65(1):7-111.
- Mas JL, Chatellier G, Beyssen B, et al. Endarterectomy versus stenting in patients with symptomatic severe carotid stenosis (EVA-3S). N Engl J Med. 2006;355(16):1660-71.
- SPACE Collaborative Group. 30 day results from the SPACE trial of stent-protected angioplasty versus carotid endarterectomy in symptomatic patients. Lancet. 2006;368(9543):1239-47.
- International Carotid Stenting Study investigators. Carotid artery stenting compared with endarterectomy in patients with symptomatic carotid stenosis (ICST). Lancet. 2010;375(9719):985-97.
- Brott TG, Hobson RW 2nd, Howard G, et al. Stenting versus endarterectomy for treatment of carotid-artery stenosis (CREST). N Engl J Med. 2010;363(1):11-23.
- Kwolek CJ, Jaff MR, Leal JI, et al. Results of the ROADSTER multicenter trial of transcarotid stenting with dynamic flow reversal. J Vasc Surg. 2015;62(5):1227-34.
- Schermerhorn ML, Liang P, Dakour-Aridi H, et al. In-hospital outcomes of transcarotid artery revascularization and carotid endarterectomy in the VQI. J Vasc Surg. 2020;72(5):1594-602.
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Perguntas Frequentes
O que mostram os 4 grandes trials sobre CAS vs CEA na estenose sintomática?
Por que o CAS causa mais AVC nas primeiras 48h que a CEA na estenose sintomática?
Quando o CAS é a escolha correta na estenose sintomática?
O que é o TCAR e por que apresenta melhores resultados que o CAS transfemoral?
Qual o protocolo de vigilância por Duplex após CAS?
O CREST mostrou benefício de CEA sobre CAS em algum subgrupo específico?
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