Ultrassom da FAV para Hemodiálise: Mapeamento, Volume de Fluxo e Maturação
O que o posicionamento de ultrassonografia vascular do DIC/SBC 2019 recomenda para a fístula arteriovenosa de hemodiálise: mapeamento antes da confecção, cálculo do volume de fluxo, critérios de maturação, causas de falência e o que vai no laudo.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Fazer um ultrassom antes da confecção da FAV e dois depois reduz a falência, que chega a 60% na maturação. Diâmetros ideais: 4 mm (cotovelo) e 3 mm (punho); mínimos: 2 e 1,8 mm. Fluxo = Vmédia × π × R² × 60, medido na veia a 2–5 cm da anastomose. Madura com veia ≥6 mm, fluxo ≥600 mL/min e profundidade ≤6 mm; fluxo <450 mL/min = risco de trombose; >3.000 mL/min = hiperfluxo (DIC/SBC 2019).
A fístula autógena — radiocefálica ou braquiocefálica, a Brescia-Cimino — continua sendo o melhor acesso para hemodiálise, mas até 60% delas não amadurecem. O ultrassom ajuda nas três etapas: escolher os vasos certos, acompanhar a maturação e encontrar cedo a causa da disfunção. O posicionamento do DIC/SBC 2019 traz números práticos para cada uma.

Tipos de acesso e indicações do exame
Há dois grandes grupos: as fístulas autógenas (radiocefálica e braquiocefálica, com anastomoses laterolateral, terminolateral ou terminoterminal) e as de PTFE (pontes ou alças, no antebraço, no braço ou, no membro inferior, entre safena e femoral). Alternativas autógenas incluem ulnar-basílica e braquiobasílica, que precisam ser superficializadas.
- Mapeamento pré-operatório, incluindo a avaliação dos vasos centrais.
- Acompanhamento da maturação, sobretudo em obesos.
- Seguimento funcional para detecção precoce de complicações.
- Recomendação: um exame antes da confecção e dois depois, para reduzir a falência.
- Contraindicações à confecção: síndrome de Paget-Schroetter e trombose venosa profunda.
Mapeamento antes da confecção
Transdutor linear de alta frequência, paciente em repouso, sala em temperatura agradável e membro estendido ao lado do corpo. Escolher o membro não dominante, se adequado, na ordem punho → cotovelo → prótese. Medir os diâmetros anteroposteriores em cortes transversais — o garrote ajuda a avaliar a distensibilidade da veia —, a profundidade até a pele e a distância entre a artéria e a veia candidatas.
| Medida | Cotovelo | Punho |
|---|---|---|
| Diâmetro ideal (veia ou artéria) | 4 mm | 3 mm |
| Diâmetro mínimo funcional | 2 mm | 1,8 mm |
| Profundidade ideal para punção | < 5 mm | |
O laudo pré-confecção registra trombose venosa profunda ou superficial, alterações do sistema arterial e variantes anatômicas (número de vasos, trajetos, vasos do antebraço que seguem no braço), além dos calibres por segmento — axilar, braquial, radial, ulnar, cefálica e basílica, do proximal ao distal —, da profundidade e da distância artéria–veia.
Como medir o volume de fluxo
Fluxo médio (mL/min) = Vmédia (cm/s) × π × R² (cm²) × 60
- Na veia de drenagem, longe da anastomose, onde não há mais turbulência ao color — em geral entre 2 e 5 cm.
- Diâmetro pelas bordas internas, de preferência no transverso, para obter o raio e a área.
- Volume de amostra no centro do vaso, ângulo corrigido até 60°, velocidade média de 3 a 5 ciclos cardíacos.
- Fluxo aferente: na artéria, 1 a 2 cm antes da anastomose. Fluxo eferente: na veia, 1 a 2 cm depois.
Padrão espectral esperado: artéria de baixa resistência e veia com fluxo "arterializado". Valores de referência: radiocefálica 614 ± 242 mL/min; PTFE 464 ± 199 mL/min; média normal 514 mL/min. Mínimo funcional: ≥ 200 mL/min no cotovelo e ≥ 150 mL/min no punho. Abaixo de 450 mL/min, alto risco de trombose em 2 a 6 semanas; acima de 3.000 mL/min, hiperfluxo.
Maturação
Maturação é o ganho de calibre e de fluxo que permite punções sucessivas com agulhas calibrosas. O posicionamento avalia três parâmetros — a conhecida regra dos 6:
≥ 6 mm
diâmetro da veia
≥ 600
mL/min de fluxo
≤ 6 mm
da pele até a veia
Esperar no mínimo 14 dias; o ideal é individualizar, com mais de 30 dias e, se possível, 60 a 90 dias antes da primeira punção. As metas para uma FAV adequada (95%) são diâmetro > 4 mm, fluxo > 500 mL/min e maturação > 30 dias, com calibres crescendo ao longo do tempo. Diâmetros < 3 mm e fluxo < 400 mL/min sinalizam alta probabilidade de falência.
Causas e tipos de falência
Na origem
- Arterial: diabetes e ateromatose significativa
- Venosa: fibrose
- Anastomose: turbulência e hiperplasia intimal
- Idiopática: punção e técnica cirúrgica
No exame
- Escape por tributárias; tortuosidade acentuada; hiperplasia em valvas
- Roubo: fluxo retrógrado na radial distal à anastomose
- Estenose: V2/V1 ≥ 2 (> 50%) ou ≥ 4 (significativa — angioplastia se houver repercussão)
- Trombose (inclusive dissecção por punção) e oclusão
- Aneurisma, degeneração de prótese, pseudoaneurisma, infecção, hematoma, seroma, linfocele
Laudo pós-confecção
Descrever o tipo e o local da FAV; classificá-la como funcional, disfuncional ou não funcional, com a causa, a localização e a extensão do problema; informar os volumes de fluxo aferente e eferente em mL/min e os diâmetros da artéria, da veia e da anastomose. As limitações do exame são raras: edema muito importante, cicatrizes fibrosas e aparelhos ortopédicos.
Referência: Santos SN, Alcantara ML, Freire CMV, Cantisano AL, Teodoro JAR, Porto CLL, et al. Posicionamento de Ultrassonografia Vascular do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;112(6):809-849. doi:10.5935/abc.20190106
Resumo independente, sem vínculo com a sociedade autora. Não substitui a leitura do documento original.
Perguntas Frequentes
Qual o diâmetro mínimo de veia e artéria para confeccionar uma FAV?
Como calcular o volume de fluxo de uma fístula pelo Doppler?
Quando a fístula está madura para ser puncionada?
Qual volume de fluxo indica risco de trombose ou hiperfluxo?
Como o Doppler mostra o roubo e a estenose da FAV?
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