Tributárias Varicosas: Tratamento Simultâneo vs Escalonado — Guideline 5 SVS 2022
Revisão baseada em evidências sobre o tratamento das tributárias varicosas: concomitante vs escalonado, dados do AVULS trial, meta-análise Aherne (63,9% de resolução espontânea) e critérios para escalonamento — conforme Guideline 5 das Diretrizes SVS 2022.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: O tratamento de tributárias no mesmo tempo cirúrgico da ablação da safena (simultâneo) reduz significativamente a necessidade de retorno para tratamento adicional: AVULS study — 36% de reintervenção com ablação isolada vs 2% com tratamento simultâneo (p<0,001). Indicação de tratamento simultâneo: SVS 2023 Grau 1B para flebectomia concomitante. Pacientes com múltiplas tributárias extensas se beneficiam mais da abordagem simultânea.
Uma das decisões mais frequentes na prática de cirurgia venosa é o que fazer com as tributárias varicosas no momento da ablação do tronco safeno: tratá-las na mesma sessão (concomitante) ou aguardar e retornar numa segunda sessão (escalonado)? O Guideline 5 das Diretrizes SVS/AVF/AVLS 2022 (Gloviczki et al., J Vasc Surg Venous Lymphat Disord 2023;11:231–61) responde a essa questão com dados de 8 estudos e 6.098 pacientes.

1. Guideline 5.1 — Tratamento Concomitante das Tributárias (Recomendação Forte)
AVULS Trial — Evidência Central para Guideline 5.1
O AVULS (Ambulatory Varicose Vein Ultrasound-Guided Foam Sclerotherapy) trial é o estudo randomizado de referência. Comparou ablação truncal (EVLA/RFA) com tributárias concomitantes vs ablação truncal isolada com tributárias escalonadas.
O que São Tributárias para Fins do Guideline 5
Tributárias são veias varicosas secundárias que se originam do tronco safeno incompetente (GSV, SSV, AAGSV ou PAGSV) ou de seus ramos diretos — distintas das perfurantes incompetentes (tratadas pelo Guideline 4) e do próprio tronco safeno. Na prática: todas as varizes visíveis e palpáveis com origem hemodinâmica no tronco incompetente, incluindo veias varicosas de tributárias da GSV na coxa e panturrilha.
Veias que drenam para a GSV — face medial da coxa e panturrilha, veias reticulares extensas com origem na JSF ou ao longo do trajeto da safena
Face posterior da panturrilha, extensões laterais da SSV — frequentemente com origem na JSP ou ao longo da SSV na panturrilha
Face anterior e lateral da coxa — as safenas acessórias são os "troncos de tributárias" mais comuns na região anterior da coxa
2. Meta-análise Aherne — Resolução Espontânea das Tributárias
Quatro estudos (8 estudos na meta-análise completa) avaliaram a proporção de tributárias que regridem espontaneamente após ablação truncal sem tratamento concomitante. Os resultados são consistentemente favoráveis à resolução espontânea em maioria dos pacientes — mas 36% precisarão de retratamento.
| Estudo | N | Resolução Espontânea | Observação |
|---|---|---|---|
| Aherne et al (meta-análise) | 6.098 pacientes (8 estudos) | 63,9% sem tratamento adicional | Dados mais robustos; maior amplitude. Interpretação: 36,1% precisarão retratamento mesmo com escalonamento |
| Monahan DL | 54 membros | 13% resolução completa + 28,4% espontânea parcial; redução média 34,6% | Dado mais conservador — maioria ainda necessitou tratamento adicional nesta coorte específica |
| Welch HJ | 184 membros (RFA total/subtotal) | 101/155 (65,1%) sem tratamento adicional a 9 meses | Resolução baseada em critério de sintomas; análise morfológica poderia mostrar tributárias residuais assintomáticas |
| AVULS Trial | Arm escalonado | 36% necessitaram retratamento | Principal evidência contrária ao escalonamento — 1 em 3 pacientes voltará para segunda sessão |
Interpretação pró-escalonamento
63,9% dos pacientes não precisarão de segunda intervenção — logo, tratá-los concomitantemente representa sobretratamento de quase 2/3 dos pacientes. Aguardar é clinicamente racional quando há incerteza sobre quais tributárias persistirão.
Interpretação pró-concomitante (SVS 2022)
36,1% precisarão de segunda sessão de qualquer forma — segunda sessão que poderia ter sido evitada. O concomitante evita a segunda sessão para a maioria, melhora QoL imediatamente (+5,48 AVVQ a 6 semanas) e não aumenta complicações em estudos disponíveis.
3. Guideline 5.2 — Escalonamento: Razões Anatômicas ou Médicas
Razões Aceitas para Escalonamento
Flebectomia bilateral exigiria anestesia geral ou volume excessivo de tumescência — aumenta risco e complexidade na mesma sessão.
Paciente não pode ser posicionado adequadamente para acesso a todas as tributárias — IMC, contraturas, dor posicional.
Mais de 3 sessões de flebectomia necessárias — aguardar resolução espontânea das que regridem e tratar apenas as persistentes.
Exigem mudança de decúbito intraoperatória — prolonga procedimento e complica sedação consciente ambulatorial.
Planos que cobrem apenas ablação truncal no procedimento inicial — limitação administrativa que direciona para escalonamento involuntário.
Paciente que prefere sessão mais curta e aceita segunda consulta — desde que informado dos 36% de probabilidade de retratamento.
4. Guideline 5.3 — Follow-up de 3 Meses se Escalonado
Diferenciar sintomas do procedimento (hematomas, inflamação pós-ablação) de insuficiência venosa residual verdadeira — sobreposição clínica frequente nos primeiros 30–60 dias.
Avaliar regressão espontânea das tributárias — processo que continua até 3 meses pós-ablação, à medida que a pressão venosa no sistema superficial normaliza.
DU de controle deve confirmar oclusão completa do tronco tratado antes de avaliar as tributárias — oclusão incompleta pode explicar persistência e ser o alvo do retratamento.
Alta ou seguimento anual. Sem necessidade de segunda intervenção.
Flebectomia ambulatorial (Müller) ou UGFS/PEM escalonados.
DU: confirmar oclusão truncal. Recanalização = retratamento do tronco antes das tributárias.
5. Flebectomia vs UGFS vs PEM — Escolha da Técnica para Tributárias
- • Extração física das tributárias por incisões de 2–3 mm
- • Resultado cosmético imediato — veia removida
- • Sem risco de reflexo esclerosante para veias profundas
- • Mais eficaz para tributárias de calibre >5 mm
- • Requer anestesia local tumescente
- • Esclerosante em espuma injetado por agulha fina
- • Sem incisões, menos invasiva
- • Ambulatorial, sem anestesia tumescente
- • Múltiplas sessões podem ser necessárias
- • Melhor para tributárias <3 mm ou de difícil acesso
- • Polidocanol 1% em microespuma com gás proprietário
- • Citado explicitamente nas recomendações 5.1.1 e 5.1.2
- • Menor risco de acidente visual vs espuma artesanal
- • Aprovado FDA para tributárias visíveis
- • Disponibilidade variável no Brasil
Carradice et al. (RCT): flebectomia concomitante vs sequencial após EVLA — equivalência em QoL a longo prazo, com menor número total de consultas no grupo concomitante. A escolha entre flebectomia e UGFS/PEM depende do calibre e localização da tributária, expertise do operador e preferência do paciente — não há evidência de superioridade de uma técnica sobre a outra para tributárias de calibre intermediário (3–5 mm).
6. Decisão Compartilhada — Como Comunicar os Dados ao Paciente
- • Prioriza menor número total de consultas e sessões
- • Tem limitações de acesso (mobilidade, transporte, custo de segunda consulta)
- • Atividade profissional ou pessoal que dificulta segundo afastamento
- • Tributárias unilaterais de acesso facilitado
- • Sem razões anatômicas para escalonamento
- • Prefere sessão mais curta e aceita explicitamente a probabilidade de segunda consulta
- • Ansiedade procedural elevada — tempo reduzido de procedimento
- • Varizes bilaterais ou circunferenciais (razão anatômica)
- • Restrição de cobertura do plano de saúde
- • Varicosidades muito extensas onde a resolução espontânea é relevante
Comunicação obrigatória se escalonamento: informar que há probabilidade de 36% de necessitar tratamento adicional das tributárias em uma segunda sessão — equivalente a 1 em cada 3 pacientes que escolhem aguardar. Este dado é central para uma decisão genuinamente informada e compartilhada, não uma opção neutra entre duas alternativas equivalentes. O concomitante tem benefício em QoL precoce demonstrado (+5,48 AVVQ a 6 semanas no AVULS trial) que o escalonamento não oferece.
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Perguntas Frequentes
Por que o SVS 2022 recomenda tratamento concomitante das tributárias em vez de aguardar resolução espontânea?
O que é a meta-análise Aherne e por que o dado de 63,9% é frequentemente mal interpretado?
Quais são as indicações aceitas para escalonamento conforme o SVS 2022?
Qual é a diferença entre flebectomia (miniflebectomia/Müller) e UGFS no tratamento concomitante das tributárias?
O que é o AVULS trial e quais foram seus resultados principais?
O Guideline 5.3 especifica um tempo mínimo de follow-up para pacientes com ablação escalonada. Por que 3 meses?
Como o Guideline 5 do SVS 2022 deve ser integrado ao Guideline 4 (perfurantes) na tomada de decisão?
Suas varizes merecem avaliação especializada.
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