Doença Venosa Crônica (Parte 7): Quando as Varizes Vêm da Pelve
Distúrbios Venosos Pélvicos (PeVD): por que algumas varizes nas pernas têm origem na pelve, como é feito o diagnóstico (Ultrassom Duplex, RM/TC, venografia) e quando a embolização de veias pélvicas é indicada — ou contraindicada — segundo as Diretrizes ESVS 2022.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Muitas pessoas acreditam que o problema das varizes está restrito apenas às pernas. No entanto, em diversos casos a verdadeira origem está localizada mais acima, na região pélvica. Tratar apenas as varizes visíveis nas pernas sem investigar a pelve seria como secar o chão repetidamente sem consertar o cano quebrado no teto. Este guia explica, em linguagem acessível, os Distúrbios Venosos Pélvicos (PeVD) e quando a investigação — e o tratamento — devem ir além das pernas, segundo as Diretrizes 2022 da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular (ESVS).

Assista: Quando as Varizes Vêm da Pelve (Parte 7)
1. Além das Pernas: o Que São os Distúrbios Venosos Pélvicos (PeVD)?
Imagine o sistema venoso como um conjunto de encanamentos equipados com válvulas que funcionam como comportas. Em um sistema saudável, essas válvulas garantem que o sangue flua em uma única direção: de volta para o coração. Quando essas "comportas" falham, ocorre o que chamamos de refluxo ou incompetência venosa. É como se uma tubulação no andar superior (a pelve) estivesse com um vazamento: a pressão faz com que o sangue "escorra" e se acumule no andar de baixo (as pernas). Esse conjunto de falhas nas veias internas da região do abdome é o que chamamos de Distúrbios Venosos Pélvicos (PeVD).
Segundo a classificação científica, as principais fontes de refluxo são:
- 🩸 Veias Gonadais: veias que drenam o sangue dos ovários (nas mulheres) ou testículos (nos homens).
- 🩸 Veias Ilíacas Internas: veias profundas que, quando falham, sobrecarregam todo o sistema ao redor.
Além da falha das válvulas ("vazamento"), às vezes o problema é causado por uma compressão ou estreitamento de uma veia no abdome — como na Síndrome de Nutcracker ou na Síndrome de May-Thurner. Nesses casos, o sangue encontra uma "barreira" e é forçado a buscar caminhos alternativos, dilatando as veias da pelve e das pernas para conseguir passar.
2. Sinais e Sintomas: Quando Suspeitar da Origem Pélvica?
A suspeita de que as varizes têm origem pélvica surge quando elas aparecem em locais "estranhos" ou quando o tratamento convencional nas pernas parece não funcionar.
| Sintomas nas Pernas (Sinais de Alerta) | Sintomas Pélvicos |
|---|---|
| Varizes em locais incomuns (atrás da coxa, região glútea ou virilha) | Dor pélvica crônica (dor persistente no "pé da barriga" há mais de 6 meses) |
| Varizes vulvares ou perineais | Sensação de peso ou pressão na região pélvica |
| Varizes que reaparecem rapidamente após uma cirurgia ou tratamento bem-feito | Desconforto que piora após longos períodos em pé ou após relações sexuais |
Importante: antes de confirmar o diagnóstico de PeVD, é fundamental excluir outras causas de dor (Recomendação 83). No caso das mulheres, uma avaliação ginecológica é frequentemente necessária para garantir que o desconforto não venha de outros órgãos.
3. O Caminho do Diagnóstico: Como os Médicos Investigam?
Para um diagnóstico preciso, seguimos o padrão-ouro de investigação definido internacionalmente:
- Ultrassom Duplex (Abdominal e Transvaginal): nossa primeira escolha (Recomendações 84 e 85). É um exame não invasivo que permite mapear os "pontos de fuga" — os locais exatos onde o sangue está escapando da pelve para as pernas.
- Ressonância Magnética (RM) ou Tomografia (TC): exames de imagem detalhados, utilizados principalmente quando precisamos planejar uma intervenção cirúrgica.
- Venografia Seletiva: procedimento invasivo. Diferente do ultrassom, não é um exame de rotina de consultório — geralmente é realizado durante o próprio procedimento de tratamento, para confirmar detalhes anatômicos finais enquanto corrigimos o problema.
4. Opções de Tratamento: Duas Estratégias Diferentes
A lógica do tratamento moderno baseia-se na segurança. Não tratamos "veias dilatadas" em exames — tratamos o paciente.
Cenário A: Varizes sem dor pélvica
Se você tem varizes nas pernas que vêm da pelve, mas NÃO sente dor pélvica crônica, o foco deve ser apenas local. Tratamos as varizes das pernas e fechamos os "pontos de fuga" (Recomendações 86 e 87).
⚠️ Aviso Crítico de Segurança
De acordo com a Recomendação 87 (Classe III), a embolização das veias pélvicas (fechar as veias internas) é contraindicada para pacientes sem sintomas pélvicos. Realizar esse procedimento sem dor pélvica associada não traz benefícios e expõe o paciente a riscos desnecessários.
Cenário B: Varizes com dor pélvica crônica
Se as varizes nas pernas vêm acompanhadas de dor pélvica persistente que afeta a qualidade de vida, a estratégia muda. Nestes casos, a embolização de veias pélvicas pode ser considerada (Recomendação 88) para aliviar a pressão na fonte do problema.
5. E Durante a Gestação?
Na gravidez, o aumento do volume sanguíneo e a compressão do útero sobre as veias pélvicas podem produzir varizes vulvares e dos membros inferiores. O tratamento principal durante a gestação é o uso de meias de compressão específicas — a investigação completa e a decisão sobre embolização ou tratamento local, quando necessárias, são geralmente avaliadas após o parto, conforme detalhamos no guia de varizes na gestação.
6. Glossário Rápido para o Paciente
- Incompetência Venosa: termo técnico para quando as válvulas das veias não funcionam, causando o refluxo (sangue correndo no sentido errado).
- Embolização: procedimento para "fechar" uma veia doente por dentro, usando pequenas molas ou substâncias específicas.
- Ultrassom Transvaginal: exame essencial para visualizar com alta precisão as veias ao redor do útero e ovários.
- Pontos de Fuga Pélvicos: "canais" por onde o sangue sob pressão escapa da pelve e acaba sobrecarregando as veias das pernas.
- Dor Pélvica Crônica (CPP): dor na região do baixo ventre que dura seis meses ou mais — um dos principais critérios para decidir o tipo de tratamento.
Conclusão: Por Que as Varizes Voltam?
Entendemos o quão frustrante pode ser tratar varizes e vê-las retornar em pouco tempo. Muitas vezes, essa "falha" não é do tratamento em si, mas de um diagnóstico que não considerou a origem pélvica. As Diretrizes ESVS 2022 reforçam que o diagnóstico preciso por um especialista em angiologia e cirurgia vascular é o que separa um resultado temporário de uma melhora real e duradoura. Se você nota varizes em locais atípicos ou sofre com dor pélvica, procure um especialista — um mapeamento venoso correto é o primeiro passo para recuperar sua saúde e bem-estar.
*Este texto tem caráter informativo e resume, em linguagem acessível, recomendações de uma diretriz científica internacional baseada em evidências de 2022. A indicação de embolização de veias pélvicas deve ser sempre definida por uma equipe especializada, após avaliação individual com Ultrassom Duplex e, quando necessário, exames complementares.
Ref: De Maeseneer MG, Kakkos SK, Aherne T, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2022.
Perguntas Frequentes
O que são os Distúrbios Venosos Pélvicos (PeVD)?
Quais sinais indicam que minhas varizes nas pernas podem ter origem na pelve?
Como é feito o diagnóstico dos Distúrbios Venosos Pélvicos?
Toda pessoa com varizes de origem pélvica precisa de embolização das veias pélvicas?
Quando a embolização de veias pélvicas é indicada?
Por que a embolização pélvica é contraindicada para quem não sente dor pélvica?
Suas varizes merecem avaliação especializada.
Cada caso é único. O Eco-Doppler Vascular mapeia o refluxo e define qual técnica — espuma, laser, radiofrequência ou cirurgia — é a certa para você.
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