Doença Venosa Crônica (Parte 6): Guia de Manejo da Úlcera Venosa
Úlcera venosa (CEAP C6): os pilares do tratamento segundo as Diretrizes ESVS 2022 — equipe especializada, cuidado da ferida, compressão de alta pressão com segurança, ablação endovenosa precoce e prevenção da recidiva (C5).
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
A úlcera venosa é a manifestação mais grave da Doença Venosa Crônica. Seu impacto vai muito além da ferida física: gera dor crônica, limita a mobilidade e, com frequência, provoca um isolamento social que prejudica severamente a qualidade de vida. Este guia traduz, em linguagem acessível, o manejo baseado em evidências para pacientes e cuidadores — segundo as Diretrizes 2022 da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular (ESVS).

Assista: Guia de Manejo da Úlcera Venosa (Parte 6)
1. O Que é a Úlcera Venosa?
A úlcera venosa representa o estágio avançado da Doença Venosa Crônica (DVC), classificada na escala CEAP como C6 (úlcera ativa). Ela é o resultado final de um processo chamado hipertensão venosa: quando o sangue encontra dificuldade para retornar das pernas ao coração, ele se acumula, aumentando a pressão interna nas veias. Essa pressão excessiva inflama os tecidos e prejudica a microcirculação da pele. Com o tempo, a pele perde sua integridade e rompe-se, formando uma ferida aberta. Quando a ferida é fechada com sucesso, o paciente passa ao estágio C5 (úlcera cicatrizada), que exige vigilância constante para evitar a recidiva.
2. Princípios Gerais: Uma Equipe, Não Apenas um Curativo
O tratamento eficaz requer uma visão multidisciplinar, unindo tecnologia médica e engajamento do paciente:
- 👩⚕️ Cuidados especialistas: o manejo deve ser realizado por uma equipe que inclua cirurgiões vasculares e enfermeiros especialistas em estomaterapia — profissionais qualificados no tratamento de feridas complexas.
- 💊 Controle da dor: o manejo analgésico é prioridade clínica. A dor não tratada impede a mobilidade e a adesão ao uso da compressão.
- 🦵 O "coração das pernas": ao caminhar, os músculos da panturrilha apertam as veias, empurrando o sangue para cima contra a gravidade. A ativação dessa bomba muscular — com fisioterapia e exercícios para o tornozelo — é essencial para reduzir a pressão venosa.
- ⚖️ Controle de comorbidades: tratar obesidade, diabetes e pressão arterial é fundamental para que o corpo tenha condições de regenerar o tecido.
3. O Cuidado com a Ferida (Wound Care)
O objetivo local é preparar o "leito" da ferida para a cicatrização:
- ✂️ Desbridamento: remoção de tecido morto ou infectado — passo necessário para permitir o crescimento de células saudáveis.
- 🩹 Curativos: a escolha depende da umidade e do estado da ferida. Existem diversas opções tecnológicas (agentes tópicos) prescritas conforme a necessidade de cada fase.
- ⚡ Terapias avançadas: se o cuidado padrão não apresentar resultados após algumas semanas, podem ser consideradas terapias como ultrassom terapêutico, eletromagnética ou pressão negativa (vácuo).
4. A Compressão: o "Motor" da Cicatrização
A compressão é o "padrão-ouro" do tratamento, com Recomendação Classe I para acelerar o fechamento da ferida. Para úlceras ativas, recomenda-se uma pressão de ≥ 40 mmHg no tornozelo.
| Material de Compressão | Características e Benefícios |
|---|---|
| Bandagens (Elásticas/Inelásticas) | Aplicadas em camadas; as inelásticas são altamente eficazes durante o exercício. |
| Meias de Compressão (ECS) | Ideais para úlceras menores ou após a cicatrização (fase C5). |
| Dispositivos Ajustáveis (ACG) | Feitos com tiras de velcro; oferecem grande facilidade de uso para pacientes com mobilidade reduzida ou pouca força manual. |
⚠️ Segurança e Limites da Compressão
Antes de iniciar a compressão forte, a circulação arterial deve ser avaliada com o Índice Tornozelo-Braquial (ITB/ABI). A compressão forte é contraindicada se:
- • O ITB/ABI for menor que 0,6;
- • A pressão no tornozelo for inferior a 60 mmHg;
- • A pressão no hálux (dedão do pé) for inferior a 30 mmHg — especialmente importante em diabéticos.
5. Quando a Cirurgia Entra em Cena?
Tratar a origem do problema — o refluxo venoso — é crucial para uma cura definitiva:
- 🔥 Ablação Endovenosa: fechamento da veia doente por meio de calor (laser ou radiofrequência), utilizando um pequeno cateter, sem a necessidade de cortes tradicionais — como detalhamos na Parte 4.2.
- ⏱️ Tratamento precoce (Recomendação Classe I): a intervenção nas veias superficiais deve ser realizada o quanto antes após o surgimento da úlcera, para acelerar a cura.
- 🔗 Veias superficiais e profundas: mesmo que o paciente tenha problemas nas veias profundas, o tratamento do refluxo nas veias superficiais e perfurantes traz benefícios clínicos significativos.
6. Prevenindo o Retorno: Como Evitar Novas Úlceras?
Uma úlcera cicatrizada (C5) ainda exige cuidados rigorosos para não reabrir:
- 🧦 Uso crônico de meias: após a cicatrização, o uso contínuo de meias de compressão é uma recomendação forte para reduzir o risco de recorrência a longo prazo.
- 🩺 Tratamento do refluxo remanescente: a eliminação cirúrgica de veias com refluxo persistente reduz drasticamente as chances de a ferida voltar a abrir no futuro.
Conclusão: As 4 Dicas de Ouro
A ciência médica, exemplificada pelas Diretrizes ESVS 2022, demonstra que a úlcera venosa não precisa ser uma condição eterna. Com o manejo correto baseado em evidências, a cicatrização e a retomada da sua rotina são metas plenamente alcançáveis.
- Busque um especialista: o diagnóstico preciso via Ultrassom Doppler é indispensável.
- Não ignore a dor: o conforto é essencial para manter o movimento e o tratamento.
- Siga a compressão à risca: ela é o motor que impulsiona o sangue e fecha a ferida.
- Considere o tratamento invasivo cedo: a ablação endovenosa precoce é hoje o tratamento de escolha para acelerar a cura.
E se as varizes nas pernas voltarem mesmo após o tratamento da úlcera — sem que nenhuma veia óbvia explique o porquê? Na Parte 7, explicamos os Distúrbios Venosos Pélvicos: quando a origem do problema está mais acima, na pelve, e como isso é diagnosticado e tratado.
*Este texto tem caráter informativo e resume, em linguagem acessível, recomendações de uma diretriz científica internacional baseada em evidências de 2022. A escolha do esquema de compressão, dos curativos e o momento da ablação endovenosa devem ser sempre definidos por uma equipe especializada, após avaliação individual com Doppler e ITB.
Ref: De Maeseneer MG, Kakkos SK, Aherne T, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2022.
Perguntas Frequentes
O que significam os estágios C5 e C6 da úlcera venosa?
Por que o controle da dor é tão importante no tratamento da úlcera venosa?
Qual é o 'padrão-ouro' do tratamento da úlcera venosa e qual pressão é recomendada?
A compressão de alta pressão pode ser perigosa? Quando ela é contraindicada?
Por que tratar a veia doente logo no início ajuda a cicatrizar a úlcera mais rápido?
Depois que a úlcera cicatriza (C5), ainda preciso de cuidados?
Suas varizes merecem avaliação especializada.
Cada caso é único. O Eco-Doppler Vascular mapeia o refluxo e define qual técnica — espuma, laser, radiofrequência ou cirurgia — é a certa para você.
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