Doença Venosa Crônica (Parte 4.2): Ablação de Safena e Compressão
Laser, radiofrequência, cola de cianoacrilato, espuma ou cirurgia tradicional? Conheça as técnicas modernas de ablação da veia safena e o papel atualizado da compressão depois do procedimento, segundo as Diretrizes ESVS 2022.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Na Parte 4.1 desta série, vimos os princípios gerais do tratamento moderno de varizes. Agora vamos ao detalhe que mais gera dúvidas: quais são, na prática, as técnicas de ablação da veia safena disponíveis hoje — e o que mudou na recomendação sobre o uso de meias de compressão depois do procedimento. A maior dúvida dos pacientes ainda é o medo daquela cirurgia antiga, com repouso prolongado e cortes extensos. A realidade atual, baseada nas Diretrizes 2022 da ESVS, é bem diferente.

Assista: Ablação de Safena e Compressão (Parte 4.2)
1. O Que é a Ablação da Veia Safena?
Muitos pacientes se surpreendem ao saber que, na maioria dos casos modernos, não é mais preciso "arrancar" a veia safena. O objetivo da ablação é tratar a veia doente (insuficiente) mantendo-a no lugar, mas sem que o sangue passe mais por ela.
💡 Uma analogia simples
Pense que estamos "fechando um caminho que não funciona bem". Quando a veia que estava falhando é selada, o corpo é inteligente o suficiente para redirecionar o fluxo sanguíneo para outras veias saudáveis. Isso melhora a circulação global e alivia a sensação de peso e cansaço nas pernas.
2. Ablação Térmica: O Poder do Calor (Laser e Radiofrequência)
As técnicas térmicas são hoje consideradas o "padrão-ouro" para o tratamento das safenas. Elas utilizam energia para gerar calor e fechar a veia por dentro:
- 🔴 Laser Endovenoso (EVLA): uma fibra óptica muito fina é inserida na veia; a energia do laser aquece a parede do vaso, fazendo com que ele se feche.
- 📡 Radiofrequência (RFA): funciona de forma semelhante, mas utiliza ondas eletromagnéticas através de um cateter para ocluir a veia pelo calor controlado.
Segundo a ESVS 2022, a escolha entre laser ou radiofrequência fica a critério do médico (Recomendação 29), pois ambos são altamente eficazes. Um ponto fundamental para o seu conforto é que esses procedimentos utilizam a anestesia local tumescente guiada por ultrassom (Recomendação 19) — o "escudo térmico" que já vimos na Parte 4.1, garantindo que o calor não atinja os tecidos vizinhos e que você não sinta dor durante o processo.
3. Ablação Não Térmica: Inovações sem Calor
Existem situações em que o uso do calor pode não ser o ideal — especialmente se a veia estiver muito próxima da pele ou de nervos importantes. Nesses casos, usamos técnicas "frias":
- 🩹 Cola de Cianoacrilato: um adesivo médico de alta tecnologia que sela a veia instantaneamente. Excelente para evitar lesões térmicas em áreas sensíveis.
- 🧴 Escleroterapia com Espuma: uma substância química preparada em forma de espuma é injetada sob guia de ultrassom para fechar o vaso.
- ⚙️ Ablação Mecanoquímica (MOCA): combina um dispositivo que causa uma pequena ativação mecânica na parede da veia enquanto libera um agente químico esclerosante.
Essas opções são valiosas porque eliminam o risco de dormências temporárias que o calor poderia causar em nervos localizados muito próximos à veia tratada.
| Técnica | Como funciona | Fonte de energia / agente |
|---|---|---|
| Laser (EVLA) | Calor fecha a veia | Térmica |
| Radiofrequência (RFA) | Calor fecha a veia | Térmica |
| Cola de Cianoacrilato | Selamento instantâneo | Adesivo médico |
| Espuma | Reação química guiada | Agente químico |
| Mecanoquímica (MOCA) | Ativação física + química | Mecânico + químico |
4. Cirurgia Tradicional: Quando Ainda é Indicada?
A cirurgia convencional de ligadura e extração (stripping) ainda existe, mas seu papel diminuiu. Nas diretrizes atuais, essa técnica de extração física é geralmente reservada para situações em que as tecnologias de ablação por calor não estão disponíveis (Recomendação 35). Em centros vasculares modernos, ela raramente é a primeira opção — mas continua sendo uma alternativa válida e segura.
5. A Compressão Pós-Procedimento: O Que Mudou
O uso de meias ou bandagens após o tratamento sempre foi um pilar da recuperação, mas a forma como as usamos mudou. As diretrizes de 2022 trouxeram uma atualização importante: a força da evidência para a compressão pós-procedimento foi ajustada de Classe I para IIa.
Na prática (Recomendação 24): a duração do uso da compressão agora é decidida de forma individualizada. Em vez de uma regra rígida de "tantos dias para todos", o médico avalia o estilo de vida e a anatomia de cada paciente. Sabemos que as meias podem ser difíceis de calçar ou desconfortáveis no calor — por isso, a decisão é compartilhada entre médico e paciente, ajustando o tempo de uso para garantir o benefício clínico sem sacrificar o conforto.
6. O Que Considerar Antes de Tratar: Diâmetro e Profundidade
A escolha da técnica depende de um mapeamento detalhado feito por ultrassom Duplex. Dois fatores são cruciais:
- 📏 Diâmetro da veia: antigamente, achava-se que veias muito largas (maiores que 12mm) só podiam ser operadas. Hoje, a ciência mostra que a ablação térmica é eficaz e recomendada mesmo para veias largas acima de 12mm (Recomendação 53).
- 📐 Profundidade: se a safena for muito superficial (perto da pele), técnicas não térmicas — como a cola ou a espuma — podem ser preferidas, para evitar o risco de pequenas queimaduras na pele.
Conclusão: Alfaiataria Médica, Não Receita de Bolo
O tratamento de varizes deixou de ser uma "receita de bolo" para se tornar uma alfaiataria médica: o plano de tratamento deve ser tão único quanto o seu próprio mapa de veias. A tendência atual é a decisão compartilhada.
Converse abertamente com seu cirurgião vascular. A escolha da técnica, o tipo de anestesia e até por quanto tempo você usará as meias de compressão devem equilibrar os dados clínicos, a sua anatomia e o seu estilo de vida. O objetivo final é um só: pernas saudáveis e um paciente satisfeito com o resultado.
Mas o tratamento da safena é só parte da história. Na Parte 4.3 desta série, mostramos como tratar os "ramos" — as veias tributárias visíveis — com flebectomia (técnica ASVAL) ou escleroterapia com espuma, sempre à luz das Diretrizes ESVS 2022.
*Este texto tem caráter informativo e resume, em linguagem acessível, recomendações de uma diretriz científica internacional baseada em evidências de 2022. A escolha da técnica de ablação, o tipo de anestesia e o tempo de compressão pós-operatória devem ser sempre definidos pelo Cirurgião Vascular, após avaliação individual com ultrassom Duplex.
Ref: De Maeseneer MG, Kakkos SK, Aherne T, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2022.
Perguntas Frequentes
O que significa 'ablação' da veia safena?
Qual a diferença entre laser (EVLA) e radiofrequência (RFA)?
Quando são usadas técnicas não-térmicas, como cola, espuma e MOCA?
A cirurgia tradicional (ligadura e stripping) ainda é usada?
Por que a recomendação de compressão pós-procedimento mudou?
Veias muito largas (acima de 12mm) podem ser tratadas com ablação térmica?
Suas varizes merecem avaliação especializada.
Cada caso é único. O Eco-Doppler Vascular mapeia o refluxo e define qual técnica — espuma, laser, radiofrequência ou cirurgia — é a certa para você.
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