Consenso de Duplex Venoso SBACV-SP/CBR — Parte 1: Critérios de Refluxo
Quando o fluxo retrógrado vira refluxo: 0,5 s no sistema superficial, 1,0 s no eixo femoropoplíteo e 0,35 s nas perfurantes. Nomenclatura, exame em pé e ajustes mínimos do aparelho.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: O consenso brasileiro de duplex venoso, elaborado pela SBACV-SP e pelo CBR, define quando um fluxo retrógrado vira refluxo: mais de 0,5 s nas veias superficiais, mais de 1,0 s no eixo femoropoplíteo, mais de 0,5 s nas demais veias profundas e mais de 0,35 s nas perfurantes. O exame deve ser feito em pé (grau 1A). O documento também padroniza a nomenclatura venosa e os ajustes mínimos do aparelho.

Por que um consenso brasileiro
Diretrizes internacionais de duplex venoso já existiam (UIP, ACR, IAC, American College of Phlebology). Faltava um documento que considerasse a realidade dos serviços brasileiros, em que o mesmo exame é feito por radiologistas, cirurgiões vasculares e angiologistas, com rotinas e vocabulários diferentes.
A Regional São Paulo da SBACV e o Colégio Brasileiro de Radiologia reuniram especialistas das duas sociedades, revisaram a literatura (PubMed, Cochrane e Trip Database), aplicaram um questionário eletrônico aos membros com experiência em duplex venoso e fecharam as recomendações em painel. A força de cada recomendação segue o sistema GRADE adaptado pelo American College of Chest Physicians: grau 1 (forte) ou 2 (fraca), com nível de evidência A, B ou C.
Nomenclatura: falar a mesma língua
O consenso adota a terminologia internacional revisada em 2005 (Caggiati e colaboradores). Na prática, três pontos geram mais confusão nos laudos:
- “Veia femoral”, não “femoral superficial”. Apesar do nome antigo, ela é uma veia profunda. O adjetivo “superficial” confunde quem lê o laudo e pode levar a tratamento inadequado de uma trombose profunda.
- Perfurante e comunicante são coisas diferentes. Perfurante atravessa a fáscia muscular e liga o compartimento superficial ao profundo. Comunicante liga veias do mesmo compartimento.
- Compartimento safeno. As safenas correm entre duas lâminas fasciais (o “olho safeno” no corte transversal). Uma veia paralela fora desse compartimento não é safena duplicada, e sim veia acessória ou tributária.
Alguns epônimos continuam aceitos por serem consagrados, como veia de Giacomini e perfurantes de Cockett. Para variações de calibre, a diferença está na distribuição: dilatação focal acima de 50% é aneurisma venoso; dilatação difusa acima de 50% é venomegalia.
Os critérios de refluxo
| Território | Refluxo patológico | Recomendação |
|---|---|---|
| Superficial (safenas, acessórias, tributárias, Giacomini) | > 0,5 s | Grau 1 · Nível B |
| Profundo — femoral comum, femoral e poplítea | > 1,0 s | Grau 1 · Nível B |
| Profundo — demais segmentos | > 0,5 s | Grau 1 · Nível B |
| Perfurantes (após soltar a compressão distal) | > 0,35 s | Grau 1 · Nível B |
| Perfurante sob úlcera aberta ou cicatrizada | diâmetro > 3,5 mm | Grau 1 · Nível B |
O tempo não mede gravidade
O tempo de refluxo diz se há ou não refluxo. A gravidade da doença venosa depende de onde está o refluxo e de quanto ele se estende, e é isso que o laudo precisa descrever com precisão anatômica.
Cerca de 10% dos refluxos não envolvem as safenas
Nádega, face posterolateral da coxa, vulva, fossa poplítea e trajeto do nervo isquiático são sítios típicos, mais comuns em mulheres multíparas e após safenectomia ou ablação.
Posição do paciente: em pé
A pesquisa de refluxo deve ser feita com o paciente em ortostase.
Grau 1 · Nível A
Deitado, o exame dá falso-positivos e falso-negativos, porque o refluxo depende da gravidade. O paciente fica em pé, com o membro examinado rodado para fora e o peso apoiado na outra perna, para não contrair a panturrilha. Se não for possível ficar em pé, as alternativas são o Trendelenburg reverso ou, para as veias abaixo do joelho, sentado com a perna pendente.
O aparelho mínimo
- Transdutor linear de alta frequência (7,5 a 13 MHz) para as veias superficiais
- Transdutor convexo (3,5 a 5 MHz) para membros edemaciados ou volumosos e para veias abdominais
- Foco logo abaixo do ponto examinado; ganho ajustado para otimizar a veia
- Ajuste para baixo fluxo: escala baixa, filtro de parede reduzido e ganho elevado
- Fluxo em direção ao coração em azul, abaixo da linha de base
- Refluxo em vermelho, acima da linha de base
Para a leitura do exame pelo paciente, veja o guia Ecodoppler venoso.
Referência
Nardino EP, Santos JEM (org.); Ribeiro BJ, Brandão GMS, Bordinhon TS, Couto VAP (ed.). Consenso sobre Duplex Scan (Ultrassom Doppler Colorido) para Avaliação da Doença Venosa Crônica dos Membros Inferiores. Consenso e Recomendações da SBACV-SP e do CBR. São Paulo: Guanabara Koogan; 2019. Documento original no site do CBR.
Perguntas Frequentes
Por que o corte é 1,0 s no eixo femoropoplíteo e 0,5 s nas outras veias?
Um refluxo de 3 segundos é mais grave que um de 1 segundo?
Quando uma perfurante deve ser chamada de patológica?
Posso pesquisar refluxo com o paciente deitado?
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