Ecodoppler Venoso para Diagnóstico de Varizes: Protocolo, Limiares e Impacto no Planejamento Cirúrgico — SVS 2022
Revisão baseada em evidências do papel do ecodoppler venoso no diagnóstico de varizes: protocolo de exame, limiares de refluxo, limitações do Doppler portátil e impacto no planejamento terapêutico — conforme as Diretrizes SVS 2022.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Protocolo DUS de varizes: exame em pé, manobra de Valsalva para JSF/JSP, compressão distal da panturrilha para PVs. Mapeamento: trajeto da safena magna, pequena e safena acessória; diâmetro na junção e 1/3 médio da coxa; pontos de refluxo e tributárias. Refluxo patológico: >0,5 s. Grafar "mapa venoso" no laudo para guiar ablação. DUS pré-operatório obrigatório (SVS 2023 Grau 1B) — reduz recorrência por identificação de fontes de refluxo.
O duplex ultrasound (DU) é o padrão-ouro diagnóstico para refluxo venoso em varizes — recomendação de grau 1 (forte) com evidência B (moderada) pela Guideline 1.1 das Diretrizes SVS/AVF/AVLS 2022 (Gloviczki et al., J Vasc Surg Venous Lymphat Disord 2023;11:231–61). Nenhum tratamento ablativo ou cirúrgico deve ser planejado sem mapeamento duplex completo do sistema venoso superficial e profundo.

Guideline 1.1 — Recomendação e Racional
Justificativa técnica da preferência pelo DU
O duplex ultrasound combina imageamento em escala de cinza (B-mode) com Doppler espectral, permitindo avaliação simultânea da morfologia venosa, da compressibilidade (pesquisa de TVP) e da direção e duração do fluxo. É não-invasivo, sem radiação ionizante, custo-efetivo e de alta sensibilidade e especificidade para refluxo venoso quando realizado em laboratório acreditado com protocolo padronizado. Suas limitações são a dependência de treinamento técnico e expertise médica para interpretação — não é equivalente a um simples exame de imagem.
A base de evidências para a recomendação grau 1B é constituída por dois estudos prospectivos comparativos nos quais o DU modificou a conduta clínica em 10–25% dos pacientes em relação ao planejamento baseado apenas no Doppler portátil (HHD) ou no exame clínico isolado.
Tabela I — Estudos Comparativos HHD vs. Duplex Ultrasound (Adaptada das Diretrizes SVS 2022)
| Estudo (Ano) | N (Membros) | Intervenção Avaliada | Sensibilidade — GSV / JSF | Sensibilidade — SSV / JSP | Impacto no Planejamento | Conclusão Principal |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Darke et al. (1997) | 100 | HHD vs. DU para mapeamento pré-operatório | Não reportado de forma isolada | Inadequado para SSV | Mudança de conduta em número significativo de casos com SSV incompetente | HHD insuficiente para avaliar SSV/JSP — DU mandatório para planejamento que envolva safena parva |
| Mercer et al. (1998) | 89 | HHD vs. DU para planejamento cirúrgico | 56–95% (variação entre estudos) | 23–77% (variação entre estudos) | Refluxo residual em 24% se planejamento pelo HHD | Planejamento exclusivo pelo HHD deixaria 1 em 4 pacientes com refluxo residual não tratado — clinicamente inaceitável |
| Rautio et al. (2002) | 142 | HHD vs. DU — mapeamento GSV e SSV | GSV: 56% | SSV: 23% | Mudança de conduta em 10–25% dos casos | Sensibilidade do HHD inaceitavelmente baixa para SSV; DU altera manejo em proporção clinicamente significativa |
| Dhillon et al. (2020) | Não especificado | HHD e Doppler contínuo portátil (PCD) point-of-care vs. DU | HHD: 68% (acima do joelho) | Não reportado separadamente | PCD point-of-care: 69–74% | Ambos os métodos portáteis com sensibilidade inadequada — mesmo tecnologias point-of-care modernas não superam o DU convencional para mapeamento completo |
Fonte: Gloviczki et al., J Vasc Surg Venous Lymphat Disord 2023;11:231–61 (Tabela I). GSV = Great Saphenous Vein; SSV = Small Saphenous Vein; HHD = Hand-held Doppler; DU = Duplex Ultrasound; PCD = Portable Continuous-wave Doppler.
Ponto crítico para a prática clínica
A sensibilidade do HHD para a JSP/SSV é particularmente problemática: varia de apenas 23 a 77% entre estudos. Esse valor significa que em até 77% dos membros com SSV incompetente, o HHD pode não detectar o refluxo. Dado que a insuficiência da safena parva é encontrada em 15–30% dos membros com varizes, o uso isolado do HHD para planejamento cirúrgico representa um risco clínico real de subdiagnóstico.
Definições Operacionais de Refluxo (Implementation Remarks 1.1a–c)
As Diretrizes SVS 2022 estabelecem limiares precisos para definição de refluxo patológico, diferenciando por segmento venoso. O domínio dessas definições é essencial para a interpretação correta do laudo e para a indicação terapêutica baseada em evidências.
- >500 msVeias superficiais truncais (GSV, SSV, AAGSV, PAGSV), veia tibial e veia femoral profunda
- >500 msVeias perfurantes — quando associado a diâmetro ≥3,5 mm (ver Seção 4)
- >1.000 msVeia femoral comum, veia femoral e veia poplítea (sistema profundo axial)
Fluxo retrógrado ininterrupto da virilha ao tornozelo — não apenas juncional. Representa o padrão mais grave de incompetência e é patognomônico para indicação de ablação do tronco envolvido.
Limitado à junção safeno-femoral (JSF) ou safeno-poplítea (JSP). Importante: refluxo juncional isolado, sem incompetência da GSV ou SSV distais, NÃO é indicação isolada de ablação — ver Correction 2024 das Diretrizes SVS.
Ocorre em uma porção de veia superficial ou profunda, sem extensão axial completa. A relevância clínica depende do segmento, da extensão e da correlação com sintomas e CEAP.
Correction 2024 — Refluxo Juncional Isolado
A publicação original das Diretrizes SVS 2022 continha um erro na definição de indicação terapêutica baseada em refluxo juncional. A Correction publicada em 2024 no J Vasc Surg Venous Lymphat Disord esclarece que refluxo juncional isolado (restrito à JSF ou JSP, sem incompetência distal confirmada ao DU) não constitui por si só indicação de ablação. A ablação deve ser dirigida ao tronco incompetente (GSV, SSV, AAGSV) com refluxo demonstrado no segmento distal à junção.
Protocolo do Exame (Guidelines 1.2.1, 1.2.2, 1.3.1–1.3.3)
1.2 — Ambiente, Acreditação e Posição do Paciente
- • Laboratório acreditado pela Intersocietal Accreditation Commission (IAC) ou pelo American College of Radiology (ACR)
- • Paciente em ortostase sempre que possível — posição dependente é mandatória para avaliação de refluxo
- • Se o paciente não puder ficar em pé: sentado ou Trendelenburg reverso (decúbito dorsal com cabeceira elevada ~30°) como alternativa aceita
- • Laboratórios sem acreditação: variabilidade diagnóstica significativa — especialmente para SSV/JSP
- • Manobra de Valsalva: para avaliação da veia femoral comum e JSF — aumenta pressão intra-abdominal e expõe insuficiência valvular juncional
- • Compressão distal manual ou desinflação de manguito: para segmentos mais distais (femoral média, poplítea, GSV coxa e joelho, SSV)
- • O refluxo superficial deve ser rastreado até sua origem — não apenas avaliado no ponto de incompetência juncional
- • Laudo deve ser interpretado por médico com treinamento em DU venoso — não apenas pelo tecnólogo vascular
1.3 — Protocolo de Imageamento, Doppler Espectral e Diâmetros
Obter imagens transversais em escala de cinza sem e com compressão nos seguintes segmentos: veia femoral comum, femoral proximal, femoral média, femoral distal, veia poplítea, JSF, GSV e SSV. A compressibilidade documentada descarta TVP concomitante — pesquisa obrigatória antes de qualquer ablação.
Registrar Doppler espectral com caliper em repouso e em resposta à manobra de provocação nos seguintes segmentos:
- • Veia femoral comum
- • JSF (junção safeno-femoral)
- • Femoral média
- • Veia poplítea
- • GSV na coxa e ao nível do joelho
- • AAGSV (Acessória Anterior da GSV)
- • SSV na JSP ou na panturrilha proximal
Medidas de diâmetro obtidas com o membro em posição dependente (ortostase ou Trendelenburg reverso), da parede anterior à posterior, obrigatoriamente nos seguintes segmentos:
Medidas em posição supina são inadequadas para fins de planejamento e documentação baseline — subestimam o diâmetro real.
Definição de Perfurante Patológica em CEAP C2
Alta especificidade garante que a maioria das perfurantes classificadas como patológicas pelo DU é genuinamente incompetente — baixo risco de indicação desnecessária baseada no exame.
Outros Métodos de Imagem Venosa
Embora o DU seja suficiente para o planejamento da grande maioria dos casos de varizes CEAP C2, outros métodos de imagem têm indicações específicas em cenários selecionados.
Diretriz prática — hierarquia de imagem
Para CEAP C2 primária com GSV ou SSV incompetente, o DU realizado em laboratório acreditado com protocolo padronizado é suficiente para indicação e planejamento de ablação. A solicitação de AngioTC, RM ou venografia deve ser reservada para casos com suspeita de doença venosa profunda, obstrução, recidiva complexa ou anatomia atípica — não constitui rotina diagnóstica nem deve ser solicitada para confirmar o achado do DU em situações típicas.
Resumo — Checklist para a Prática Clínica
Fonte Principal
Gloviczki P, Lawrence PF, Wasan SM, et al. The 2022 Society for Vascular Surgery, American Venous Forum, and American Vein & Lymphatic Society Clinical Practice Guidelines for Management of Varicose Veins of the Lower Extremities. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2023;11(2):231–261.e6. doi:10.1016/j.jvsv.2022.09.004
Correction: J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2024 (refluxo juncional isolado — indicação terapêutica).
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Perguntas Frequentes
Qual é a diferença entre refluxo axial, juncional e segmentar para fins de indicação terapêutica?
O Doppler portátil (HHD) pode substituir o ecodoppler para planejamento cirúrgico?
Qual é o limiar exato que define uma perfurante como patológica em CEAP C2?
O diâmetro da veia safena magna deve ser usado como critério único para indicação de ablação?
Quando o laudo deve ser realizado por médico com treinamento em DU venoso?
Quais segmentos devem necessariamente ter medidas de diâmetro documentadas?
Quando a venografia descendente ou AngioTC são necessárias em varizes CEAP C2?
Suas varizes merecem avaliação especializada.
Cada caso é único. O Eco-Doppler Vascular mapeia o refluxo e define qual técnica — espuma, laser, radiofrequência ou cirurgia — é a certa para você.
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