Isquemia Aguda de Membro: Diagnóstico e Classificação — ESVS 2020 (M1)
Classificação de Rutherford (I–IIb–III), os 6 Ps do diagnóstico clínico, AngioTC como primeira linha (Rec 6, Classe I-B) e marcadores laboratoriais. Causas: trombose 53%, embolia 44%, aneurisma poplíteo 3%. Recomendações 1–8 das Diretrizes ESVS 2020.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: A isquemia aguda de membro (IAM) é emergência vascular com mortalidade hospitalar de 6–8% e amputação a 30 dias de 6–10%. Diagnóstico clínico pelos 6 Ps (dor, palidez, ausência de pulso, frialdade, parestesia, paralisia), classificação de Rutherford (I a III) e AngioTC de urgência como primeira linha (Rec 6, Classe I-B). Causas: trombose 53%, embolia 44%, aneurisma poplíteo 3%. CK e mioglobina NÃO devem guiar a decisão terapêutica (Rec 8, Classe III-C). ESVS 2020.
A isquemia aguda de membro (IAM) é uma das emergências mais desafiadoras da cirurgia vascular — mortalidade significativa, janela terapêutica estreita e decisões com consequências irreversíveis em horas. As Diretrizes ESVS 2020 para Manejo da Isquemia Aguda de Membro (Björck M et al., Eur J Vasc Endovasc Surg 2020;59:173–218), com 61 recomendações, estabelecem o padrão de diagnóstico e tratamento baseado em evidências. Este post cobre as Recomendações 1–8: fundamentos, classificação e diagnóstico.

O que é Isquemia Aguda de Membro?
A IAM é definida como a redução súbita da perfusão arterial de um membro com duração inferior a 2 semanas, representando ameaça potencial à viabilidade do membro. Quando os sintomas persistem por mais de 2 semanas, o quadro passa a ser classificado como isquemia crônica de membro, coberta por outras diretrizes.
As causas principais em grandes séries contemporâneas (Swedvasc, 16.229 pacientes) são:
- Trombose arterial sobre aterosclerose (53%): oclusão aguda em artéria previamente comprometida por doença aterosclerótica; início mais gradual, história prévia de claudicação, colaterais presentes
- Embolia arterial (44%): fibrilação atrial (dois terços dos casos), trombo ventricular esquerdo pós-IAM, êmbolo de trombo aórtico; início súbito em artéria previamente normal
- Aneurisma poplíteo (3%): tromboembolismo distal pelas artérias tibiais; alta taxa de amputação (14,1%)
A mortalidade hospitalar é de 6–8% e a taxa de amputação maior a 30 dias de 6–10%, com uma amputação maior ocorrendo a cada ano em 34% dos pacientes tratados por trombólise nas grandes séries.
Decisão Terapêutica e Consentimento (Recs 1–2)
| Rec | Recomendação | Classe | Nível |
|---|---|---|---|
| 1 | Considerar o melhor interesse do paciente; obter consentimento informado quando possível; registrar decisões claramente | I | C |
| 2 | Em pacientes com doença maligna ativa, revascularização ativa pode ser considerada em casos selecionados, pois o resultado cirúrgico imediato é comparável ao de pacientes sem malignidade | IIa | B |
Classificação de Rutherford para IAM (Rec 4)
A Classificação de Rutherford (1997), recomendada pela ESVS 2020 (Rec 4, Classe I, Nível C), estratifica a viabilidade do membro e orienta a urgência da intervenção:
| Grau | Categoria | Perda Sensorial | Déficit Motor | Prognóstico | Doppler Arterial | Doppler Venoso |
|---|---|---|---|---|---|---|
| I | Viável | Nenhuma | Nenhum | Sem ameaça imediata | Audível | Audível |
| IIA | Marginalmente ameaçado | Mínima (apenas dedos) | Nenhum | Salvável com tto precoce | Inaudível | Audível |
| IIB | Imediatamente ameaçado | Além dos dedos | Leve/moderado | Salvável com revascularização urgente | Inaudível | Audível |
| III | Irreversível | Profunda, anestesia | Profundo, paralisia + rigor | Amputação primária | Inaudível | Inaudível |
Regra prática: A rigidez muscular (rigor) é o sinal clínico que define irreversibilidade (Grau III) — quando presente, a revascularização não salva o membro e pode precipitar a morte por síndrome de reperfusão sistêmica. A ausência bilateral de Doppler (arterial e venoso) confirma Grau III. A distinção IIb vs. III é o julgamento mais crítico na IAM.
Exame Clínico — os "6 Ps" (Rec 3)
A Recomendação 3 (Classe I, Nível C) estabelece que a avaliação urgente por especialista vascular é recomendada para todo paciente com possível diagnóstico de IAM. O exame clínico baseia-se nos seis sinais cardinais:
- Pain (Dor): dor intensa, de início súbito, geralmente distal ao nível de oclusão
- Pallor (Palidez): palidez do membro; pode progredir para moteamento/livedo reticularis
- Pulselessness (Ausência de pulso): ausência de pulsos distais ao nível de oclusão; ABI < 0,7 é crítico
- Poikilothermia (Frialdade): temperatura reduzida do membro; compare com o membro contralateral
- Paraesthesia (Parestesia): formigamento/dormência; indica comprometimento sensitivo — sinalizador de Grau IIA
- Paralysis (Paralisia): fraqueza ou paralisia muscular; indica Grau IIB (leve/moderado) ou III (profundo com rigor)
Na prática clínica, raramente todos os 6 sinais estão presentes simultaneamente — especialmente em pacientes com artérias previamente comprometidas por aterosclerose, onde colaterais atenuam os sinais. O exame deve incluir todos os pulsos periféricos, o exame cardíaco (para identificar fibrilação atrial) e a palpação abdominal (trombo aórtico).
Imagem Diagnóstica (Recs 5–7)
| Rec | Recomendação | Classe | Nível |
|---|---|---|---|
| 5 | Imagem diagnóstica recomendada para guiar o tratamento, desde que não retarde a intervenção ou quando a necessidade de amputação primária não é óbvia | I | C |
| 6 | AngioTC (CTA) é recomendada como modalidade de primeira linha para imagem anatômica na IAM | I | B |
| 7 | DUS ou CE-MRA podem ser considerados como imagem alternativa, dependendo de disponibilidade e avaliação clínica | IIb | B |
| Modalidade | Disponibilidade 24h | Acurácia | Potencial terapêutico | Avalia árvore completa |
|---|---|---|---|---|
| AngioTC (CTA) | ++ | +++ | – | +++ |
| DUS | ± | ++ | – | – |
| CE-MRA | + | ++ | – | ++ |
| DSA | ++ | +++ | + | + |
Marcadores Laboratoriais (Rec 8)
| Rec | Recomendação | Classe | Nível |
|---|---|---|---|
| 8 | Para pacientes com IAM, o uso de resultados de mioglobina e creatina quinase na admissão para basear a decisão de oferecer revascularização ou amputação primária não é recomendado | III | C |
A CK > 5.000–10.000 UI/L indica síndrome compartimental grave, mas não prediz com certeza irreversibilidade. A decisão terapêutica deve ser baseada nos achados clínicos (Classificação de Rutherford) e na avaliação intraoperatória, não em valores isolados de biomarcadores na admissão.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre embolia e trombose arterial aguda e como diferenciar clinicamente?
Como aplicar a Classificação de Rutherford na prática e o que define cada grau?
Por que a AngioTC é preferida à DSA como exame inicial e quando ela pode ser pulada?
Quais as causas incomuns de IAM que não devem ser esquecidas no diagnóstico diferencial?
Por que CK e mioglobina não devem ser usados para decidir sobre revascularização?
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