CLTI: Definição, Estadiamento WIfI e Diagnóstico Hemodinâmico — Diretrizes GVG 2019
Por que CLTI substitui CLI, como estadiar com WIfI (Wound + Ischemia + foot Infection) e quais limiares hemodinâmicos definem a síndrome — Recomendações 1.1–3.6 das Global Vascular Guidelines SVS/ESVS/WFVS 2019.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: CLTI (Chronic Limb-Threatening Ischemia) substitui o termo CLI: é definida por dor isquêmica em repouso, gangrena ou úlcera isquêmica >2 semanas com DAP documentada. Estadiamento WIfI (Wound + Ischemia + foot Infection) estratifica risco de amputação e benefício da revascularização. Limiares hemodinâmicos críticos: pressão no tornozelo <50 mmHg e pressão no hálux <30 mmHg — CLTI 2019 Global Vascular Guidelines.
As Global Vascular Guidelines 2019 (GVG 2019) representam a primeira diretriz conjunta da SVS, ESVS e WFVS sobre o manejo da isquemia crítica de membro inferior — e começam por redefinir o próprio conceito da doença: de CLI para CLTI, de limiares fixos para uma síndrome clínica baseada em risco individual, e de estadiamento anatômico para o sistema WIfI, que integra ferida, isquemia e infecção do pé como determinantes do prognóstico e da indicação de revascularização.

Por que CLTI e não CLI?
O termo CLI (Critical Limb Ischemia) foi definido originalmente com base em limiares fixos de pressão — pressão de tornozelo abaixo de 50 mmHg ou pressão digital abaixo de 30 mmHg. Essa definição pressupõe que todos os pacientes têm artérias compressíveis e resultados de Doppler confiáveis, o que exclui sistematicamente os diabéticos — grupo no qual a calcificação arterial medial eleva artificialmente os valores de ITB (frequentemente >1,30) — e os pacientes em estágios intermediários de ameaça ao membro.
Definição GVG 2019 de CLTI
CLTI é uma síndrome clínica definida pela presença de doença arterial periférica (DAP) em combinação com dor em repouso, gangrena ou úlcera de membro inferior com duração superior a 2 semanas, após exclusão de causas não ateroscleróticas.
Exclusões obrigatórias (não é CLTI)
A mudança para CLTI reconhece que a ameaça ao membro é um contínuo clínico, não um limiar. Pacientes com gangrena e DAP significativa têm CLTI mesmo que a pressão de tornozelo não atinja 50 mmHg — e merecem a mesma urgência diagnóstica e terapêutica.
O Sistema WIfI: Wound, Ischemia, foot Infection
Rec 1.1 (Grau 1C): Usar testes hemodinâmicos objetivos em TODOS os pacientes com suspeita de CLTI.
Rec 1.2 (Grau 1C): Usar WIfI para estadiar a gravidade e guiar o manejo clínico.
O WIfI integra os três determinantes independentes do prognóstico do membro: a gravidade da ferida, o grau de isquemia e a presença de infecção do pé. Cada componente é graduado de 0 a 3, e a combinação resulta em 4 estágios clínicos que predizem o risco de amputação em 1 ano e o benefício potencial da revascularização.
| Componente | Grau 0 | Grau 1 | Grau 2 | Grau 3 |
|---|---|---|---|---|
| W — Wound (Ferida) | Sem úlcera | Úlcera pequena/superficial (dedos, antepé) | Úlcera profunda com exposição de tendão, cápsula ou osso | Gangrena extensa do antepé ou médio/retropé |
| I — Ischemia (Isquemia) | ITB ≥0,80 ou PA ≥100 mmHg | ITB 0,60–0,79 ou PA 70–99 mmHg | ITB 0,40–0,59 ou PA 50–69 mmHg | ITB <0,40 ou PA <50 mmHg |
| fI — foot Infection | Sem infecção | Infecção leve/superficial (pele e subcutâneo) | Infecção moderada/profunda (fáscia, músculo, tendão, osso) | Infecção grave/sistêmica (SIRS ou sepse) |
Risco de amputação muito baixo. Revascularização raramente necessária para salvar o membro.
Risco de amputação moderado. Revascularização a considerar conforme isquemia e ferida.
Risco de amputação alto. Revascularização indicada na maioria dos casos.
Ameaça avançada. Oferecer revascularização urgente — maior benefício potencial.
Diagnóstico Hemodinâmico — Recomendações 3.1–3.6
Rec 3.4 (Grau 1B): PA e ITB como teste não-invasivo de primeira linha em todos os pacientes com suspeita de CLTI.
Rec 3.5 (Grau 1B): Pressão digital (TP) e TBI em TODOS os pacientes com perda tecidual — superior ao ITB em diabéticos.
Rec 3.6 (Grau 2C): Considerar TcPO₂ ou pressão de perfusão cutânea quando PA/TP não puderem ser avaliados.
| Exame | Diagnóstico CLTI (GVG 2019) | CLI Clássico (Fontaine/TASC) | Indicação preferencial |
|---|---|---|---|
| ITB (ankle-brachial index) | Qualquer valor com sintomas de ameaça ao membro | <0,40 | Rastreio geral; não confiável em DM |
| PA (ankle pressure) | <50–70 mmHg com ferida | <50 mmHg (sem DM) | Screening; complementar ao ITB |
| TP (toe pressure) | <30–50 mmHg | <30 mmHg | OBRIGATÓRIO com perda tecidual — 1ª escolha em DM |
| TBI (toe-brachial index) | <0,55–0,70 | — | Alternativa ao TP; útil em DM |
| TcPO₂ | <30 mmHg | <20 mmHg (cicatrização) | Quando PA/TP não avaliáveis; prediz cicatrização |
Por que a pressão digital é obrigatória em diabéticos com perda tecidual?
A calcificação arterial medial (síndrome de Mönckeberg) é altamente prevalente em diabéticos e torna as artérias incompressíveis, elevando o ITB artificialmente para valores acima de 1,30. As artérias digitais raramente sofrem calcificação medial, tornando a pressão digital e o TBI os exames mais confiáveis para avaliação hemodinâmica real nesses pacientes. Um paciente diabético com ITB aparentemente normal de 0,90 pode ter pressão digital de 20 mmHg e CLTI não diagnosticada.
Referência
Conte MS, Bradbury AW, Kolh P, White JV, Dick F, Fitridge R, Mills JL, Ricco JB, Suresh KR, Murad MH; GVG Writing Group. Global vascular guidelines on the management of chronic limb-threatening ischemia. J Vasc Surg. 2019;69(6 Suppl):3S-125S. DOI: 10.1016/j.jvs.2019.02.016
Perguntas Frequentes
Por que as diretrizes GVG 2019 abandonaram o termo CLI e adotaram CLTI?
O que é o sistema WIfI e como ele muda o manejo da CLTI?
Qual exame hemodinâmico é mais confiável no diabético com suspeita de CLTI?
Quais são os limiares hemodinâmicos para diagnóstico de CLTI segundo as GVG 2019?
Quando está indicada a oximetria transcutânea (TcPO2) no diagnóstico da CLTI?
Todo paciente com suspeita de CLTI deve ser encaminhado urgentemente ao cirurgião vascular?
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