SVP na Prática: Varizes Vulvares e Casos Clínicos — AVLS 2021 (L2)
Varizes vulvares no SVP: S₂,₃ₐV₂,₃ₐP_BGV,R,NT; BIIV,R,NT; BPELV,R,NT. Oito exemplos clínicos com venografia (Figs 2–9), regras de uso SVP isolado vs SVP + CEAP, e como as síndromes históricas (nutcracker, May-Thurner, congestão pélvica) são precisamente reclassificadas.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Varizes vulvares classificam-se como S₂,₃ₐV₂,₃ₐP_BGV,R,NT; BIIV,R,NT; BPELV,R,NT pelo SVP AVLS 2021 (Figura 7). O SVP usa-se isolado para doença pélvica pura; em conjunto com CEAP quando há varizes de MMII de origem pélvica (V₃b) ou obstrução iliocaval. Os oito exemplos clínicos (Figs 2–9) demonstram como cada síndrome histórica — nutcracker, May-Thurner, congestão pélvica — gera classificações SVP distintas com tratamentos distintos.
O instrumento SVP ganha significado clínico ao ser aplicado aos casos reais. Os oito exemplos clínicos do artigo (Meissner MH, Khilnani NM et al., J Vasc Surg Venous Lymphat Disord 2021;9:568–584) demonstram como situações clínicas distintas — que antes seriam genericamente chamadas de "síndrome de congestão pélvica" — recebem classificações SVP precisas, com implicações terapêuticas completamente diferentes. O caso mais relevante para a prática da cirurgia vascular: as varizes vulvares.

Varizes Vulvares na Classificação SVP — O Caso Central (Fig 7)
As varizes vulvares representam o caso mais frequente de distúrbio venoso pélvico extrapélvico na prática clínica. Sua via anatômica de origem: refluxo pelas veias gonadais (ovarianas) → plexo pélvico periuterino → veias ilíacas internas → pontos de escape pélvicos (pudendas interna e externa) → vulva.
A Figura 7 do artigo é o caso central para classificação de varizes vulvares: paciente do sexo feminino com varizes vulvares sintomáticas e dor pélvica crônica. DUS transabdominal demonstra varizes periuterinas com refluxo ovariano bilateral e ilíaco interno bilateral. Venografia de balão por injeção da ilíaca interna esquerda demonstra varizes vulvares pelas pudendas interna e externa bilateralmente.
Classificação SVP completa das varizes vulvares com dor pélvica crônica (Fig 7):
S₂,₃ₐV₂,₃ₐP_BGV,R,NT; BIIV,R,NT; BPELV,R,NT
- S₂ = dor pélvica crônica de origem venosa (>6 meses)
- S₃ₐ = sintomas localizados nos genitais externos (dor, desconforto, prurido, sangramento, tromboflebite vulvar)
- V₂ = varizes pélvicas (≥5mm periuterinas)
- V₃ₐ = varizes genitais (vulvares)
- P_BGV,R,NT = refluxo bilateral não-trombótico das veias gonadais (B=bilateral, GV=gonadal, R=refluxo, NT=não-trombótico)
- P_BIIV,R,NT = refluxo bilateral não-trombótico das veias ilíacas internas e tributárias
- P_BPELV,R,NT = refluxo pelos pontos de escape pélvicos bilaterais (pudendas interna e externa)
Sequência de exames recomendada para classificação completa das varizes vulvares: (1) DUS transabdominal — varizes pélvicas, calibre das gonadais, fluxo das ilíacas comuns; (2) DUS transvaginal — plexo pélvico periuterino, refluxo ovariano; (3) DUS transperineal — pontos de escape pélvicos, pudendas; (4) venografia seletiva com balão — quando necessário para confirmar origem pélvica e mapear os pontos de escape antes da embolização.
Os 8 Casos Clínicos com Classificação SVP (Figs 2–9)
Nutcracker Clássico — Compressão da Veia Renal Esquerda
Apresentação: dor no flanco esquerdo e hematúria. Imagem: TC demonstra compressão da veia renal esquerda sobre a aorta. Venografia: varizes do hilo renal (seta branca) e colaterais ascendentes (seta branca tracejada) consistentes com compressão renal.
SVP: S₁V₁P_LRV,O,NT
S₁ = sintoma renal | V₁ = varizes hilo renal | LRV = veia renal esquerda | O = obstrução | NT = não-trombótico
Nutcracker Compensado com Refluxo Ovariano Secundário
Apresentação: dor pélvica crônica. Imagem: venografia renal seletiva demonstra compressão da veia renal esquerda central (seta preta), drenagem pelo tronco reno-ázigo (estrela vermelha) e veia ovariana esquerda reflexuante (estrela branca). Venografia ovariana esquerda: varizes pélvicas, veias miometriais e arcuatas pequenas (seta vermelha).
SVP: S₂V₁,₂P_LRV,O,NT; LGV,R,NT
A compressão renal (O) descomprime pela ovariana esquerda → refluxo secundário (R) → varizes pélvicas
Malformação Vascular Renal Congênita (Etiologia C)
Apresentação: dor no flanco esquerdo com hematúria microscópica crônica E dor pélvica. Imagem: venografia renal seletiva (1) demonstra malformação venosa no polo inferior renal (seta preta) drenada pela veia ovariana esquerda, sem conexão visível com a veia renal. Venografia pélvica (2): varizes pélvicas associadas (estrela branca).
SVP: S₁,₂V₁,₂P_LRV,C; LGV,R,NT
C = congênito (malformação vascular) — subdomínio H (hemodinâmica) omitido quando a etiologia é congênita e não há refluxo nem obstrução demonstráveis
Refluxo Ovariano Bilateral Primário — "Congestão Pélvica Pura"
Apresentação: dor pélvica crônica. Imagem: veia ovariana esquerda dilatada e reflexuante (seta preta) com múltiplas varicosidades pélvicas (seta branca). Refluxo da ovariana direita também presente, sem obstrução renal ou ilíaca demonstrável por DUS.
SVP: S₂V₂P_BGV,R,NT
O caso mais "simples" de congestão pélvica — refluxo primário bilateral das gonadais sem obstrução associada
May-Thurner com Dor Pélvica e Refluxo Ilíaco Interno
Apresentação: dor pélvica crônica, sem sintomas de MMII. Imagem: DUS: >50% de compressão da VIC esquerda. IVUS: 73% de redução de área transversal da VIC esquerda. Venografia anterógrada: achatamento da VIC esquerda com atenuação de contraste na cruzamento arterial (seta preta) e refluxo para a ilíaca interna esquerda (seta branca). Varizes pélvicas associadas.
SVP: S₂V₂P_LCIV,O,NT; LIIV,R,NT
May-Thurner com dor pélvica: a compressão ilíaca (O) gera hipertensão retrógrada → refluxo ilíaco interno (R) → varizes pélvicas. Tratamento: stenting ilíaco + embolização se necessário
Varizes Vulvares com Dor Pélvica — CASO CENTRAL
Apresentação: varizes vulvares sintomáticas e dor pélvica crônica. DUS transabdominal: varizes periuterinas + refluxo ovariano e ilíaco interno bilateral, sem obstrução ilíaca ou renal. Venografia de balão por injeção ilíaca interna esquerda: varizes vulvares pelas pudendas interna (seta preta) e externa (seta branca) bilateralmente.
SVP: S₂,₃ₐV₂,₃ₐP_BGV,R,NT; BIIV,R,NT; BPELV,R,NT
Não há colaterais safenas nem varizes de MMII → SVP isolado, sem necessidade de CEAP neste caso
Claudicação Venosa Pós-Trombótica — SVP + CEAP Obrigatórios
Apresentação: claudicação venosa e edema do MMIE sem varizes visíveis. DUS: refluxo pós-trombótico na femoral comum, femoral e poplítea esquerdas. Imagem: obstrução pós-trombótica na VIC e EIV esquerdas (setas pretas) com colaterais obturatoras de grande calibre (seta branca tracejada) drenando na ilíaca interna esquerda (seta branca sólida). As colaterais têm fluxo anterógrado — são bypass da obstrução, NÃO varizes de origem pélvica.
SVP: S₃cV₀P_LCIV,O,T; LEIV,O,T
CEAP: Left C₃,₅EₐA_dP_o(CIV, EIV); (r₀)CFV,FV,POPV
T = trombótico (obstrução por TVP prévia). Colaterais anterógradas ≠ V₃b. Exige ambos SVP e CEAP pois há manifestações de MMII.
Varizes Recorrentes da Coxa 21 Anos Após Stripping — Origem Pélvica Não Reconhecida
Apresentação: mulher de 56 anos (G₃P₃), varizes dolorosas recorrentes na coxa medial esquerda, 21 anos após stripping bilateral da safena magna. DUS: refluxo ovariano bilateral e ilíaco interno esquerdo com varizes pélvicas comunicando com extrapélvicas sobre a coxa medial esquerda. Sem refluxo de safena residual ou profunda. Venografia: varizes da coxa medial comunicando com tributárias pudendas (seta preta) e inguinais (seta vermelha) da ilíaca interna esquerda.
SVP: S₃bV₂,₃bP_BGV,R,NT; LIIV,R,NT; LPELV,R,NT
CEAP: Left C₂,₅rEₐA_sP_(r)IIV.Pelvic.NSV
Sem sintomas pélvicos (S₀ no domínio pélvico) mas com sintomas na coxa de origem pélvica (S₃b). Sem varizes pélvicas visíveis mas com V₂ e V₃b confirmados por imagem.
SVP vs CEAP — Quando Usar Cada Um
| Situação Clínica | Classificação Indicada | Exemplo |
|---|---|---|
| Sintomas APENAS pélvicos ou genitais, sem varizes de MMII | SVP isolado | S₂V₂P_BGV,R,NT (Fig 5) |
| Varizes de MMII por insuficiência de safena ou tributárias, sem envolvimento pélvico | CEAP isolado | CEAP C2EₐA_sP_r |
| Varizes de MMII com origem pélvica comprovada (coxa posteromedial, varizes ciáticas, recidiva pós-stripping) | SVP + CEAP | Fig 9 (SVP S₃bV₂,₃b + CEAP C₂,₅r) |
| Obstrução iliocaval pós-trombótica com edema e claudicação venosa | SVP + CEAP | Fig 8 (SVP S₃cV₀P_LCIV,O,T + CEAP) |
| Colaterais de MMII com fluxo anterógrado bypassando obstrução ilíaca (NÃO são V₃b) | CEAP isolado para as colaterais | Fig 8 — colaterais obturadoras anterógradas |
Limitações do SVP Reconhecidas pelos Autores
- Instrumento discriminativo, não avaliativo: não mede gravidade nem monitora resposta ao tratamento. Para isso, instrumentos avaliativos específicos para PeVD ainda precisam ser desenvolvidos.
- Baseado em critérios de imagem ainda não uniformemente aceitos: por exemplo, o cut-off de ≥5mm para varizes pélvicas e o limiar de >50% para obstrução ilíaca são derivados da literatura disponível mas não validados prospectivamente.
- Classificação completa requer imagem completa: em muitos casos, venografia seletiva é necessária para classificação definitiva do domínio P, o que não é sempre disponível ou indicado no setting ambulatorial inicial.
- Sem validação clínica prospectiva ainda: o artigo é explícito que o instrumento aguarda validação em coortes prospectivas. O subscrito "x" deve ser usado quando a avaliação ainda não está completa.
- Pacientes não foram incluídos no painel: os autores reconhecem que a perspectiva do paciente pode identificar domínios importantes não capturados pelo instrumento atual.
Recurso Prático: Aplicativo SVP Online
A AVLS disponibiliza uma versão eletrônica da Tabela VII (scoring sheet) acessível gratuitamente em https://myavls.org/svp. O aplicativo guia o preenchimento dos domínios S, V e P de forma interativa, facilitando a adoção do instrumento na prática clínica e em estudos multicêntricos.
Perguntas Frequentes
Como classificar uma paciente com varizes vulvares e dor pélvica crônica pela Classificação SVP?
Qual a diferença entre a Classificação SVP e a CEAP, e quando usar uma ou outra?
A Classificação SVP substitui os termos "síndrome de congestão pélvica" e "May-Thurner"?
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