Dr. Mauricio Hiroshi Yamada

Excelência Técnica e Formação Sólida

Dr. Mauricio Hiroshi Yamada é referência em Cirurgia Vascular e Endovascular. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), consolidou sua especialização nos maiores centros médicos de São Paulo, incluindo o Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).

Residência em Cirurgia Vascular (IAMSPE-SP)

Título de Especialista (SBACV)

Certificação em Doppler Vascular (CBR)

Cirurgia Endovascular (CBR)

Maringá Vasculares
UIP 2023 — K1

Escleroterapia: Bases, Técnicas, Agentes e Aspectos Medicolegais — UIP 2023 (K1)

Tipos de escleroterapia (UGS, CDS, visão direta), mecanismo dos esclerosantes STS vs POL, preparação da espuma, dados de segurança FAERS (51 anos, 21 mortes) e aspectos medicolegais essenciais: consentimento informado, risco material e o fim do Bolam Principle.

Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular em Maringá

Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295

📅 20 de junho de 202613 min de leitura

Resposta direta: Escleroterapia não é procedimento trivial: FAERS (1970-2021) registrou 21 mortes com POL e 11 com STS. STS é mais potente e alergênico; POL tem menor risco imunológico mas risco cardíaco em altas doses. Espuma Tessari (LGF 1:4) supera o líquido por deslocar sangue e ser visível ao ultrassom. Aspecto medicolegal central: Bolam Principle abolido em Rogers v Whittaker (1992) — conformidade com colegas não é defesa. Obrigação de divulgar riscos materiais cosméticos (Wallace v Kam 2013) e oferecer alternativas incluindo nenhum tratamento.

A escleroterapia venosa é considerada por muitos um procedimento simples. O Consenso Internacional da União Internacional de Flebologia 2023 (Wong M, Parsi K et al., Phlebology 2023;38:205–258) demonstra o oposto: é um procedimento complexo, com eventos adversos graves documentados incluindo morte, e com implicações medicolegais substanciais que todo flebologista precisa dominar. Este post cobre as bases técnicas e o aspecto diferencial deste consenso — a dimensão legal do consentimento informado.

Infográfico: Escleroterapia Bases Técnicas e Medicolegal UIP 2023. Tipos de escleroterapia, STS vs POL, espuma Tessari, FAERS dados de segurança, checklist medicolegal.
Bases da escleroterapia e aspectos medicolegais — Consenso UIP 2023.

Assista: Bases, Técnicas e Medicolegal — UIP 2023 (K1)

1. Tipos de Escleroterapia

O consenso UIP 2023 abrange escleroterapia de veias superficiais dos membros inferiores usando esclerosantes líquidos ou em espuma, administrados sob visão direta, guia ultrassonográfica ou por cateter. A MOCA (ablação mecanoquímica) está explicitamente fora do escopo.

TécnicaAlvoGuia de imagemFormato esclerosante
Visão direta (microescleroterapia)Telangiectasias, vasos reticulares, varizes <3mmSem imagem (magnificação visual)Líquido ou microespuma
UGS (Echosclerotherapy)Tributárias safenas, varizes 3–8mm, vasos profundosUltrassom em tempo realEspuma (visível ao DUS)
CDS (Catheter-Directed)Troncos safenos (GSV, SSV)Ultrassom guia o cateterEspuma via cateter periférico

2. Indicações Clínicas

O consenso define 3 categorias de indicação:

  • Clínica: sintomas de DVC (CEAP C0s–C6s) independentemente dos achados de DUS, ou sinais físicos típicos assintomáticos (CEAP C2–C6)
  • Preventiva: incompetência venosa detectada em DUS sem varizes visíveis (C0–C1): redes extensas incompetentes, SVT com risco de sangramento, grande veia incompetente sem variz visível
  • Cosmética: melhora estética irrespective de sintomas ou sinais de DVC — tipicamente CEAP C1. Neste grupo, a análise risco-benefício e o consentimento são especialmente detalhados pelo consenso

3. Esclerosantes: STS vs POL

CaracterísticaSTS (Sodium Tetradecyl Sulphate)POL (Polidocanol)
TipoAniônico, detergente forteNão-iônico, surfactante leve
Risco alérgicoMaior (anafilaxia principal causa de morte no FAERS)Menor (risco alérgico reduzido)
Risco cardíacoMenor em doses habituaisMaior em doses elevadas (cardiotoxicidade)
Risco PSP (pigmentação)Maior (atividade lítica eritrocitária mais intensa)Menor
Reatividade cruzadaAusente — anafilaxia a STS não contraindica POL e vice-versa
DesativaçãoAmbos desativados por albumina e proteínas plasmáticas → sem atividade sistêmica distal

4. Espuma Esclerosante

A espuma é o formato preferido para UGS e CDS. Vantagens: desloca o sangue do lúmen aumentando o contato esclerosante-endotélio; é visível ao ultrassom; permite menor volume de esclerosante para o mesmo efeito. Técnicas de preparo:

  • Tessari: 2 seringas (1 líquido + 1 gás) conectadas por stopcock de 3 vias; LGF (liquid:gas fraction) padrão 1:4; reproduzível mesmo por operadores iniciantes
  • DSS (Double Syringe System): conector de 2 vias; mesma lógica com variantes técnicas

Tamanho de Bolhas e Risco Neurológico

  • Microfoam (<250 microns): preferível — menor potencial emboligênico
  • Mini-foam (250–500 microns): aceitável
  • Macro-foam (>500 microns): EVITAR — macro-bolhas podem ocluir artérias cerebrais se houver shunt direita-esquerda (PFO)
  • Silicone das seringas: reduz estabilidade da espuma — preferir seringas ≤3mL com menor teor de silicone
  • Gás: CO₂ ou CO₂/O₂ são preferíveis ao ar pela maior biocompatibilidade e menor risco neurológico

5. Dados de Segurança — FAERS (51 Anos)

O banco de dados FDA FAERS (Federal Adverse Event Reporting System) acumulou 51 anos de dados (1970–2021) sobre eventos adversos com esclerosantes:

DesfechoPOLSTS
Total de reações2.174803
Eventos adversos graves863312
Mortes totais2111
Principal causa de morteParada cardíacaAnafilaxia
DVT sintomático pós-esclero0,02%–1,3% (DVO assintomático até 23%)

6. Aspectos Medicolegais — O Diferencial do Consenso UIP 2023

Esta seção é única na literatura de flebologia. O consenso aborda em profundidade as obrigações legais dos flebologistas com base em direito comparado australiano, britânico e canadense.

O Fim do Bolam Principle — Rogers v Whittaker (1992)

O Bolam Principle histórico permitia que médicos se defendessem de negligência demonstrando que agiram em conformidade com o que um grupo respeitável de colegas faria. O caso Rogers v Whittaker (Suprema Corte da Austrália, 1992) aboliu essa defesa: o que importa é se o médico divulgou ao paciente os riscos que esse paciente razoável consideraria significativos para sua decisão — não o que os colegas divulgariam. Essa decisão foi reafirmada em Reibl v Hughes (Canadá) e em jurisprudência europeia equivalente.

Obrigação MedicolegalDetalhe Prático
Consentimento Geral + InformadoAmbos obrigatórios. General Consent: procedimento em termos amplos. Informed Consent: riscos específicos individualizados. Renovar a cada sessão
Risco Material (Material Risk)Riscos que o paciente razoável consideraria relevantes para decidir — incluindo complicações cosméticas (pigmentação, matting) para pacientes com indicação cosmética
Wallace v Kam (2013)Pigmentação e matting são riscos materiais para pacientes com indicação cosmética, mesmo que o médico os considere triviais clinicamente
Divulgar alternativasCompressão, VADs, ablação endovenosa, flebectomia, safenectomia e — obrigatoriamente — a opção de nenhum tratamento
Período cool-off recomendadoMínimo 7 dias entre consulta e primeiro procedimento — especialmente em procedimentos cosméticos
Infraestrutura obrigatóriaBLS (ou superior) + adrenalina + oxigênio + equipamento de reanimação disponíveis em TODA clínica de escleroterapia (Classe I, Nível B)

Conclusão: Escleroterapia Segura Exige Competência Dupla

O Consenso UIP 2023 deixa clara a dupla competência necessária para realizar escleroterapia com segurança: (1) formação técnica adequada em flebologia, ecografia vascular com Doppler e escleroterapia procedimental; e (2) conhecimento medicolegal para garantir consentimento informado robusto, divulgação de riscos materiais e documentação adequada. Nos posts K2, K3 e K4 desta série, detalhamos o sistema de contraindicações absolutas, relativas e avisos que permite ao flebologista selecionar corretamente os pacientes candidatos ao procedimento.

Ref: Wong M, Parsi K, Myers K, De Maeseneer M et al. Sclerotherapy of lower limb veins: Indications, contraindications and treatment strategies to prevent complications. Phlebology 2023;38(4):205–258. DOI: 10.1177/02683555231151350.

Ref: Wong M, Parsi K et al. Sclerotherapy of lower limb veins: Indications, contraindications and treatment strategies to prevent complications – Consensus UIP 2023. Phlebology 2023;38(4):205–258.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre microescleroterapia, escleroterapia guiada por ultrassom (UGS) e escleroterapia por cateter (CDS)?
São três técnicas com indicações distintas segundo o Consenso UIP 2023. A microescleroterapia (visão direta) é realizada com punção percutânea direta das veias-alvo — telangiectasias, vasos reticulares e varizes menores — sem guia de imagem, usando magnificação visual ou transiluminação. É o método padrão para CEAP C1. A UGS (Ultrasound-Guided Sclerotherapy, também chamada Echosclerotherapy) usa guia de ultrassom em tempo real para punção de veias mais profundas, tributárias safenas e varizes de calibre intermediário; a espuma é o formato preferido pois é visível ao ultrassom. A CDS (Catheter-Directed Sclerotherapy) é indicada para tratamento dos troncos safenos — a safena magna e parva — via cateterização periférica sob ultrassom, com administração do esclerosante pelo cateter. A MOCA (ablação mecanoquímica) usa cateter com elemento mecânico combinado com esclerosante, mas está fora do escopo deste consenso por ser tecnicamente distinta.
Por que é obrigatório mencionar a opcao de nenhum tratamento antes da escleroterapia cosmética?
O Consenso UIP 2023 tem uma seção extensa sobre aspectos medicolegais que representa um diferencial único na literatura de flebologia. O dever de divulgar o "nenhum tratamento" como opção legítima deriva do conceito de risco material (Material Risk): os médicos têm obrigação legal de informar riscos que o paciente razoável consideraria significativos para sua decisão — e para pacientes com indicação cosmética (CEAP C1), as complicações como pigmentação e matting são riscos materiais porque o paciente buscou melhora estética e pode considerar essas complicações piores que o estado inicial. O caso Wallace v Kam (2013, Suprema Corte da Austrália) estabeleceu que pigmentação pós-escleroterapia é risco material mesmo que o médico a considere trivial clinicamente. Além disso, o Bolam Principle — defesa de que o médico agia conforme a prática dos colegas — foi abolido em Rogers v Whittaker (1992) na Austrália e em jurisprudências equivalentes em outros países. O médico deve também oferecer alternativas: compressão elástica, medicamentos venoativos (VADs), ablação endovenosa térmica, flebectomia e a opção de não intervir.
Qual o mecanismo de ação dos esclerosantes e por que a espuma é mais eficaz que o líquido?
Os esclerosantes detergentes (STS e POL) atuam destruindo o endotélio vascular por ação química, levando à oclusão permanente da veia. O STS (sodium tetradecyl sulphate) é aniônico e detergente forte, com maior potência lítca eritrocitária e maior risco de anafilaxia. O POL (polidocanol) é não-iônico e surfactante mais leve, com menor risco alérgico mas risco cardíaco em altas doses. Ambos são rapidamente desativados por proteínas plasmáticas — especialmente albumina — ao contato com o sangue, o que explica a ausência de atividade sistêmica distal ao sítio de injeção. Em baixas concentrações (0,1-0,5%), ambos têm efeito procoagulante via ativação plaquetária; em altas concentrações (>0,5%), inibem a formação de coágulo. A espuma é mais eficaz que o líquido porque: (1) desloca o sangue do lúmen vascular, reduzindo a diluição do agente e mantendo maior concentração em contato com o endotélio por mais tempo; (2) é visível ao ultrassom, permitindo guia em tempo real; (3) a interface esclerosante-ar causa maior dano mecânico ao endotélio. A espuma é preparada pela Técnica de Tessari: 2 seringas com LGF (liquid:gas fraction) de 1:4, conectadas por stopcock de 3 vias, gerando microfoam (<250 microns) estável.

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Artigo escrito e validado pelo Dr. Maurício Hiroshi Yamada (CRM-PR 21589 | RQE: 18282). Cirurgião Vascular formado pela UEL, com residência no HSPE/SP e título de especialista pela SBACV. É referência em tratamentos minimamente invasivos (Laser, Radiofrequência e Espuma) na clínica Maringá Vasculares, no Paraná.
⚕️ Aviso médico: O conteúdo desta página tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por um médico especialista. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure um profissional de saúde habilitado. Dr. Maurício Hiroshi Yamada — CRM-PR 21589.

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