Contraindicações Absolutas à Escleroterapia — UIP 2023 (K2)
As 5 contraindicações absolutas ao procedimento: hipersensibilidade (anafilaxia), TVE aguda, eventos neurológicos/cardíacos graves pós-escleroterapia, doença sistêmica aguda e isquemia crítica de membro. Anticoagulação NÃO deve ser descontinuada — Classe III, Nível A.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: 5 contraindicações absolutas à escleroterapia — UIP 2023. (1) Hipersensibilidade: anafilaxia ao mesmo esclerosante (Classe III Nível A); asma/mastocitose apenas com indicação médica (não cosmética). (2) TVE aguda: DVT/PE aguardar 12 sem; SVT extensa 6 sem; SVT não-extensa 2 sem — NÃO descontinuar anticoagulação (Classe III Nível A). (3) AVC/TIA/eventos cardíacos pós-escleroterapia (Classe III Nível B). (4) Doença sistêmica aguda/infecção (Classe III Nível C). (5) CLI: ABI <0,5 ou pressão <50 mmHg (Classe III Nível B).
Contraindicações absolutas são condições onde o risco de dano severo ou morte supera qualquer benefício potencial em qualquer circunstância. O Consenso UIP 2023 (Wong M, Parsi K et al., Phlebology 2023;38:205–258) define 5 categorias. Diferente das contraindicações relativas — onde o risco pode ser mitigado por medidas adicionais — nas absolutas não existe intervenção razoável que justifique o procedimento de rotina.

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Visão Geral das Contraindicações Absolutas
| Contraindicação Absoluta | Classe | Nível | Observação |
|---|---|---|---|
| Anafilaxia ao mesmo esclerosante | III | A | Produto idêntico ou similar ao causador |
| DVT aguda ou EP | III | C | Aguardar mínimo 12 semanas |
| SVT extensa aguda (≥5cm) | III | C | Aguardar mínimo 6 semanas |
| SVT não-extensa aguda | III | C | Aguardar mínimo 2 semanas |
| Anticoagulação — descontinuar | III | A | NÃO descontinuar — o único Nível A do bloco |
| AVC/TIA/cardíaco grave pós-escleroterapia | III | B | Ou associados a PFO (ver K3) |
| Doença sistêmica aguda ou infecção | III | C | Inclui infecção do membro a tratar |
| CLI (ABI <0,5 ou pressão <50 mmHg) | III | B | Isquemia crítica de membro |
| DAP moderada (ABI 0,5–0,8) | IIb | B | Pode ser considerada SEM compressão excessiva |
1.1 Hipersensibilidade a Esclerosantes
Anafilaxia verdadeira (IgE-mediada) ocorre em 0,01%–0,1% de todos os procedimentos. A frequência de reações não-fatais (urticária, prurido, eritema) é maior: 0,03%–0,3% com esclerosantes líquidos. O FAERS registrou 4 mortes por anafilaxia com STS em 51 anos — 3 dos quais tinham asma concomitante.
Pontos críticos do consenso sobre hipersensibilidade:
- Anafilaxia prévia ao mesmo esclerosante: contraindicação absoluta (Classe III, Nível A) para o produto idêntico ou similar. NÃO há reatividade cruzada entre STS e POL — anafilaxia a STS não contraindica POL
- Asma/mastocitose/atopia grave: escleroterapia apenas com indicação médica (não cosmética), apenas se nenhuma outra opção existe (Classe I, Nível B) — especialmente com STS
- Pré-medicação em alto risco: prednisolona 0,5 mg/kg/dia por 2 dias antes do procedimento; anti-histamínico
- Monitoramento perioperatório: anestesiologista ou profissional treinado em anafilaxia presente durante o procedimento (Classe I, Nível C)
- Infraestrutura obrigatória: BLS training + adrenalina + oxigênio + DEA disponíveis em TODA clínica (Classe I, Nível B)
1.2 TVE Aguda e Anticoagulação
Regra de Ouro — Classe III, Nível A
A anticoagulação terapêutica ou profilática para indicações clínicas estabelecidas NÃO deve ser descontinuada antes da escleroterapia. Esta é uma das poucas recomendações com Nível A neste consenso — o mais alto grau de evidência — baseada em metanálise que demonstrou que interromper a anticoagulação sem benefício terapêutico expostos a riscos trombóticos desnecessários.
| Situação | Prazo mínimo | Classe / Nível |
|---|---|---|
| DVT proximal aguda ou EP | 12 semanas | III / C |
| SVT extensa aguda (≥5cm ou acima do joelho) | 6 semanas | III / C |
| SVT não-extensa (abaixo do joelho, <5cm) | 2 semanas (fase aguda) | III / C |
| Escleroterapia emergência em anticoagulados | Possível para varizes sangrantes localizadas | IIb / C |
1.3 Eventos Neurológicos ou Cardíacos Graves
Pacientes com histórico documentado de eventos neurológicos sérios (TIA, AVC, convulsões epilépticas) ou cardíacos graves após escleroterapia prévia, ou associados a FOP (Forame Oval Patente), constituem contraindicação absoluta a novos procedimentos com o mesmo método (Classe III, Nível B). Esses pacientes devem ser encaminhados para avaliação neurológica e cardiológica antes de qualquer decisão sobre escleroterapia futura, e alternativas de tratamento venoso devem ser oferecidas. O manejo do PFO e a otimização técnica para reduzir embolia gasosa são detalhados no post K3 desta série.
1.4 Doença Sistêmica Aguda ou Infecção
Pacientes com doença sistêmica aguda (asma exacerbada, diabetes descompensado, IAM recente, insuficiência cardíaca aguda) ou infecção ativa não controlada não devem realizar escleroterapia de rotina (Classe III, Nível C). O risco é especialmente grave quando há infecção do próprio membro a ser tratado: injeção de esclerosante em território infectado pode disseminar o processo, causando celulite extensa ou septicemia. Nesses casos, tratar a condição aguda primeiro e reavaliar a indicação de escleroterapia após estabilização.
1.5 Doença Arterial Periférica Grave
| Condição | ABI / Pressão | Conduta | Classe / Nível |
|---|---|---|---|
| CLI — Isquemia Crítica | ABI <0,5 ou pressão <50 mmHg | NÃO escleroterapia | III / B |
| DAP Moderada | ABI 0,5–0,8, pressão 60–100 mmHg | Possível SEM compressão excessiva | IIb / B |
| Úlcera Mista (arterio-venosa) | ABI >0,5 | Tratar refluxo venoso PRIMEIRO | IIb / B |
Na CLI (ABI <0,5), a escleroterapia não apenas está contraindicada — a compressão pós-procedimento também seria contraindicada, reduzindo ainda mais o fluxo arterial já comprometido. Nos casos de DAP moderada, os dados de Mosti e Partsch demonstraram que bandagens inelásticas até 40 mmHg não impedem a perfusão arterial — dando a base para a recomendação IIb de que escleroterapia pode ser considerada desde que compressão excessiva seja evitada. Na úlcera mista (ABI >0,5), tratar o refluxo venoso superficial primeiro pode reduzir a hipertensão venosa e, paradoxalmente, melhorar a cicatrização da componente arterial.
A Lógica das Contraindicações Absolutas
Contraindicações absolutas não significam que o paciente nunca poderá fazer escleroterapia — mas que no momento atual, em qualquer circunstância, não existem medidas de mitigação suficientes para justificar o procedimento de rotina. Com exceção da anafilaxia ao mesmo agente (Nível A permanente), as demais contraindicações absolutas são temporárias: após resolução da TVE aguda, controle da doença sistêmica ou avaliação e otimização técnica para o risco neurológico/cardíaco, o paciente pode tornar-se candidato à escleroterapia sob critérios de contraindicação relativa (ver K3 e K4).
Ref: Wong M, Parsi K et al. Sclerotherapy of lower limb veins: Indications, contraindications and treatment strategies to prevent complications. Phlebology 2023;38(4):205–258.
Ref: Wong M, Parsi K et al. Consensus UIP 2023. Phlebology 2023;38(4):205–258. DOI: 10.1177/02683555231151350.
Perguntas Frequentes
Um paciente em uso de anticoagulante pode fazer escleroterapia? Precisa parar o medicamento?
Qual o mínimo de tempo para esperar após uma trombose antes de realizar escleroterapia?
Como deve ser estruturado um servico de escleroterapia para gerenciar a anafilaxia com segurança?
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