Contraindicações Relativas: TVE, Gravidez e Risco Neurológico — UIP 2023 (K3)
Gravidez: escleroterapia de rotina contraindicada (Classe III). Escore de Caprini para escleroterapia com protocolo de tromboprofilaxia. PFO em 27% da população — triagem apenas quando há AVC criptogênico ou embolia paradoxal (Classe I Nível A). Otimização técnica da espuma é mandatória para TODOS (Classe I Nível C).
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Escleroterapia em gestação: rotina Classe III (FDA: STS cat. C, POL cat. B3). Emergência com HBPM profilática. DVT sintomático pós-escleroterapia: 0,02-1,3%; DVO assintomático até 23% (não é DVT). Caprini modificado: 1-4=baixo; 5-8=moderado (HBPM 7-10d); ≥9=alto+DUS. Trombofilias: rastreamento rotineiro NÃO recomendado (Classe III Nível A). PFO 27% população — triagem rotineira NÃO indicada (Classe III); indicada em AVC criptogênico (Classe I Nível A). Otimização técnica espuma: Classe I Nível C para todos.
Contraindicações relativas são condições onde o risco de complicações é elevado, mas pode ser mitigado por medidas adicionais — tornando o procedimento possível em casos selecionados, com precauções específicas. O capítulo de contraindicações relativas do Consenso UIP 2023 é o mais extenso do documento, cobrindo 5 grandes categorias. Este post aborda as 4 primeiras — gravidez/puerpério, risco de TVE, risco neurológico e risco cardíaco.

Assista: Contraindicações Relativas TVE e Neurológico — UIP 2023 (K3)
2.1 Gravidez, Puerpério e Amamentação
| Situação | Recomendação | Classe / Nível |
|---|---|---|
| Gravidez: escleroterapia de rotina | NÃO realizar | III / C |
| Gravidez: emergência (varizes sangrantes) | Possível com HBPM profilática; preferir 3º trimestre; técnica rigorosa | IIb / C |
| Puerpério <3 meses | NÃO de rotina — coagulação não normalizada | III / C |
| Amamentação: indicação não-médica | NÃO realizar | III / C |
| Amamentação: indicação médica | Descartar leite materno por 2 DIAS antes de retomar amamentação | I / C |
Quanto à categoria de risco: STS é categoria B2 (TGA) e Categoria C (FDA); POL é categoria B3 (TGA) e Categoria C (FDA) — nenhum foi adequadamente estudado em humanos. POL e seus metabólitos foram detectados no leite de ratas lactantes. Por precaução, a recomendação de descartar o leite por 2 dias é Classe I, Nível C.
2.2 Risco de TVE — Escore de Caprini para Escleroterapia
DVT sintomático pós-escleroterapia: 0,02%–1,3%. DVO (Deep Vein Occlusion) assintomático: até 23% ao DUS — mas DVO não é DVT: não progride para embolia pulmonar e não requer anticoagulação. A distinção DVO vs DVT pelo DUS é fundamental clinicamente.
Protocolo de Tromboprofilaxia — Escore de Caprini Modificado (Tabelas 8 e 9)
| Escore Caprini | Risco VTE | Compressão | Anticoagulação | DUS pós |
|---|---|---|---|---|
| 1–4 | Baixo | Sim + mobilização | — | — |
| 5–8 | Moderado | Sim + mobilização | HBPM/DOAC 7–10 dias | — |
| ≥9 | Alto | Sim + mobilização | HBPM/DOAC 7–10 dias | Sim antes de suspender |
| Histórico pessoal/familiar TVE ou trombofilias | Sim | HBPM 14–28 dias | Sim antes de suspender | |
Trombofilias: rastreamento rotineiro NÃO recomendado antes de escleroterapia (Classe III, Nível A) — sem evidência de que altere conduta na maioria dos casos. Pacientes com trombofilias conhecidas (FVL, PTG) podem fazer escleroterapia com tromboprofilaxia conforme Caprini (Classe IIb, Nível B). Trombofilias de alto risco (deficiência de antitrombina, proteína C/S, SAF): anticoagulação prolongada, avaliar caso a caso.
Viagem de longa distância (>6h ou >6.000 milhas): evitar escleroterapia dentro de 2 semanas antes ou depois (Classe III, Nível C). Viagem imprevista pós-escleroterapia: DUS bilateral + anticoagulação profilática + compressão (Classe IIb, Nível C).
2.3 Risco Neurológico e PFO
PFO (Forame Oval Patente) é prevalente em 27% da população geral — ainda mais frequente em pacientes com varizes (maior pressão venosa pode manter o forame aberto). Após injeção de espuma em safena, bolhas chegam ao coração direito em 10–45 segundos. Na presença de PFO, podem passar para a circulação arterial causando eventos neurológicos.
| Situação do PFO | Conduta | Classe / Nível |
|---|---|---|
| Rastreamento rotineiro | NÃO indicado | III / C |
| AVC criptogênico, AIT, embolia paradoxal, MRI sugestivo | Rastrear com bubble contrast study | I / A |
| PFO sintomático confirmado | Opinião neurológica/cardiológica + alternativas. Escleroterapia com otimização técnica pode ser considerada | IIb / C |
| PFO assintomático | Escleroterapia de rotina com otimização técnica | IIb / B |
Otimização Técnica para TODOS — Classe I, Nível C (independente de PFO)
- ✓ Volumes menores de espuma por sítio de injeção (múltiplas pequenas injeções vs bolo único)
- ✓ Evitar manobra de Valsalva durante e imediatamente após o procedimento
- ✓ Seringas ≤3mL — menor coalescência de bolhas → microfoam mais estável
- ✓ CO₂ ou CO₂/O₂ como gás — maior biocompatibilidade, menor risco neurológico que ar
- ✓ Tratar veias tronculares com ablação térmica ANTES de usar espuma nas tributárias
- ✓ Posição de decúbito dorsal com elevação do membro após a injeção
2.4 Risco Cardíaco
História de doença cardíaca com morte súbita em familiar de 1º grau requer avaliação cardiológica pré-operatória para determinar aptidão ao procedimento (Classe I, Nível C). Técnicas de otimização para reduzir cardiotoxicidade incluem seleção cuidadosa do esclerosante e concentração — STS em altas concentrações tem efeito proarrítmico documentado. Em altas concentrações, detergentes podem gerar cardiotoxicidade direta (endotelina-1 e outros fatores sistêmicos liberados pelo sítio de injeção).
Mensagem Prática
A maioria das contraindicações relativas a TVE — gravidez, histórico de TVE, trombofilias, neoplasia, imobilidade, viagem — não elimina a escleroterapia como opção, mas exige avaliação individualizada do risco-benefício e implementação de medidas de mitigação (escore de Caprini, tromboprofilaxia, DUS de seguimento). Para o risco neurológico/PFO, a otimização técnica da espuma é mandatória para TODOS os pacientes — independentemente de triagem de PFO — e reduz significativamente o risco de eventos neurológicos ao minimizar o volume e tamanho das bolhas que alcançam a circulação sistêmica.
Ref: Wong M, Parsi K et al. Sclerotherapy of lower limb veins. Phlebology 2023;38(4):205–258.
Ref: Wong M, Parsi K et al. Consensus UIP 2023. Phlebology 2023;38(4):205–258. DOI: 10.1177/02683555231151350.
Perguntas Frequentes
Uma paciente usando pílula anticoncepcional pode realizar escleroterapia? Deve suspender?
Quem deve ser rastreado para Forame Oval Patente (PFO) antes da escleroterapia?
Como calcular o escore de Caprini para planejar a tromboprofilaxia após escleroterapia?
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