Classificação SVP dos Distúrbios Venosos Pélvicos — AVLS 2021 (L1)
Primeiro instrumento discriminativo internacional para PeVD — 15 especialistas, 10 sociedades. Domínios S (Sintomas), V (Varizes) e P (Fisiopatologia: Anatomia, Hemodinâmica, Etiologia) com notação SVP_A,H,E. Substitui definitivamente os termos históricos imprecisos.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: A Classificação SVP (Sintomas-Varizes-Fisiopatologia) é o primeiro instrumento discriminativo internacional para Distúrbios Venosos Pélvicos, desenvolvido por 15 especialistas de 10 sociedades (AVLS 2021). Substitui termos históricos imprecisos — "síndrome de congestão pélvica", "May-Thurner", "nutcracker" — pela notação SVP_A,H,E, que especifica anatomia, hemodinâmica e etiologia de cada segmento venoso comprometido. Complementar ao CEAP, não substituto.
Os termos "síndrome de congestão pélvica", "May-Thurner" e "nutcracker" descrevem síndromes históricas imprecisas que ignoram a fisiopatologia subjacente, confundem apresentações similares com etiologias distintas e inviabilizam ensaios clínicos. A American Vein & Lymphatic Society reuniu 15 especialistas de 10 sociedades internacionais para criar o primeiro instrumento discriminativo para Distúrbios Venosos Pélvicos: a Classificação SVP (Meissner MH, Khilnani NM et al., J Vasc Surg Venous Lymphat Disord 2021;9:568–584).

O Problema: Por Que o CEAP Não Basta para a Pelve
O CEAP — publicado em 1996 e revisado em 2004 e 2020 — tornou-se o padrão internacional para a doença venosa crônica dos membros inferiores. Mas foi desenhado exclusivamente para veias abaixo do ligamento inguinal. A pelve e o abdome apresentam dinâmica vascular radicalmente mais complexa:
- O mesmo sintoma, etiologias diferentes: dor pélvica crônica pode resultar de refluxo primário bilateral das gonadais, de compressão da veia ilíaca comum esquerda (May-Thurner), ou de compressão da veia renal esquerda com refluxo secundário para a ovariana. Cada situação exige abordagem terapêutica distinta.
- A mesma fisiopatologia, síndromes diferentes: compressão da veia renal esquerda pode causar dor no flanco e hematúria (nutcracker com hipertensão renal não compensada) OU dor pélvica crônica com varizes pélvicas (nutcracker compensado pelo refluxo para veia ovariana).
- Três reservatórios venosos separados: varizes podem existir no hilo renal, no plexo pélvico periuterino e nas veias extrapélvicas de origem pélvica — cada um com fisiopatologia e implicações terapêuticas próprias.
- PeVD são primariamente sintomáticos, não sinal-dependentes: diferente do CEAP (que começa pelo sinal clínico — C), os PeVD se apresentam principalmente por sintomas (dor pélvica, dor vulvar, hematúria), tornando a classificação clínica orientada pelo sintoma mais adequada.
O grupo de trabalho da AVLS, com participantes da AVF, UIP, SIR, CIRSE, ACOG, EVF, IPPS, Korean SIR e SVS, reuniu-se em Chicago em 27 de julho de 2018. O objetivo era claro: desenvolver um instrumento discriminativo — não avaliativo — que caracterizasse o estado clínico do paciente em um momento específico, definindo grupos homogêneos com características, história natural e resposta ao tratamento semelhantes.
As 4 Zonas Anatômicas dos PeVD
Os sintomas e varizes dos PeVD ocorrem em quatro zonas anatômicas dispostas em ordem descendente, da veia cava inferior até os membros inferiores (Figura 1 do artigo):

- Zona 1 — Veia Renal Esquerda: origem dos sintomas renais de hipertensão venosa. Compressão aorto-mesentérica (nutcracker anterior) ou retroaórtica (nutcracker posterior). Manifestações: dor no flanco, microhematúria ou macrohematúria, varicocele esquerda associada. As varizes do hilo renal (V₁) se desenvolvem por hipertensão venosa renal com colaterais ascendentes.
- Zona 2 — Veias Gonadais e Ilíacas Internas com Plexos Pélvicos: principal origem da dor pélvica crônica (S₂) e varizes pélvicas (V₂ — veias tortuosas e dilatadas ≥5mm ao redor dos ovários e útero). Refluxo primário das gonadais ou refluxo secundário por compressão ilíaca. Comunicam-se com os plexos uterovaginal e vesical.
- Zona 3 — Pontos de Escape Pélvicos (inguinal, obturador, pudendo, glúteo): veias extrapélvicas de origem pélvica que emergem da pelve através desses pontos. Originam varizes genitais (V₃ₐ — vulvares em mulheres, varicocele em homens) e varicosidades da coxa posteromedial, varizes ciáticas e tibiais (V₃b). Sintomas extrapélvicos incluem dor, desconforto, prurido, sangramento e tromboflebite superficial vulvar/escrotal.
- Zona 4 — Veias Superficiais e Profundas dos Membros Inferiores: NÃO incluída no SVP. Classificada pelo CEAP. Quando há varizes de MMII com origem pélvica (V₃b), usa-se SVP + CEAP conjuntamente.
Distinção crítica: colaterais venosas dos membros inferiores com fluxo anterógrado que bypassam uma obstrução iliocaval NÃO são varizes extrapélvicas de origem pélvica (V₃b) — são manifestação de obstrução venosa e classificadas pelo CEAP. V₃b inclui apenas veias com fluxo retrógrado saindo da pelve pelos pontos de escape.
Domínio S — Sintomas (Tabela II)
O domínio S classifica os sintomas por sua origem anatômica. Pacientes com mais de um sintoma recebem múltiplos subscripts separados por vírgula (ex: S₂,₃ₐ). Sintomas genéricos de membros inferiores — como peso, edema, HASTI (heaviness, aching, swelling, throbbing, itching) — pertencem ao CEAP, não ao SVP.
| Código | Definição |
|---|---|
| S₀ | Sem sintomas de PeVD (sem sintomas renais, pélvicos ou extrapélvicos de origem venosa) |
| S₁ | Sintomas renais de origem venosa (dor no flanco, hematúria micro ou macroscópica) |
| S₂ | Dor pélvica crônica de origem venosa (>6 meses) |
| S₃ | Sintomas extrapélvicos de origem venosa |
| S₃ₐ | Sintomas localizados associados a veias dos genitais externos (vulva, escroto): dor, desconforto, prurido, sangramento, tromboflebite superficial |
| S₃b | Sintomas associados a varizes não-safenas de origem pélvica na coxa (posteromedial, ciático/tibial): dor, desconforto, parestesias. Sintomas generalizados de MMII = CEAP, não SVP. |
| S₃c | Claudicação venosa (dor exertiva em coxa/perna, tipo "aperto" ou "pressão", aliviada pelo repouso e elevação) |
Domínio V — Varizes (Tabela III)
O domínio V classifica os reservatórios varicosos pela sua localização anatômica. A classificação deve incluir todas as varizes identificadas ao exame físico e à imagem (DUS, TC, RM, venografia). Varizes de MMII com fluxo anterógrado (colaterais de obstrução iliocaval) não são V₃b.
| Código | Definição |
|---|---|
| V₀ | Sem varizes abdominais, pélvicas ou extrapélvicas de origem pélvica ao exame clínico ou de imagem |
| V₁ | Varizes do hilo renal |
| V₂ | Varizes pélvicas (veias tortuosas e dilatadas ≥5mm ao redor dos ovários e útero) |
| V₃ | Varizes extrapélvicas de origem pélvica |
| V₃ₐ | Varizes genitais (vulvares em mulheres, varicocele em homens) e perineais |
| V₃b | Varizes de membros inferiores de origem pélvica — visíveis na coxa posteromedial e varizes ciáticas/tibiais da tributária glútea inferior. Inclui veias reflexuantes visíveis apenas ao DUS. Exige classificação complementar pelo CEAP. |
Domínio P — Fisiopatologia: Anatomia, Hemodinâmica e Etiologia (Tabelas IV, V, VI)
O domínio P é um composto de três subdomínios: Anatômico (A), Hemodinâmico (H) e Etiológico (E). A notação é: P_segmentoA,H,E. Para múltiplos segmentos, lista-se cada um separado por ponto e vírgula, da veia cava inferior em sentido caudal.
Anatomia (A) — Tabela IV
| Abreviatura | Veia | Lateralidade |
|---|---|---|
| IVC | Veia Cava Inferior | — |
| LRV | Veia renal esquerda (Left Renal Vein) | L = esquerda / R = direita |
| GV | Veias gonadais (ovarianas/testiculares) | LGV / RGV / BGV (bilateral) |
| CIV | Veias ilíacas comuns | LCIV / RCIV / BCIV |
| EIV | Veias ilíacas externas | LEIV / REIV / BEIV |
| IIV | Veias ilíacas internas e tributárias | LIIV / RIIV / BIIV |
| PELV | Pontos de escape pélvicos (inguinal, obturador, pudendo, glúteo) | LPELV / RPELV / BPELV |
Hemodinâmica (H) — Tabela V
| Código H | Significado |
|---|---|
| O | Obstrução — trombótica ou não-trombótica (>50% de redução de área por IVUS ou >50% diâmetro por venografia multiplanar) |
| R | Refluxo — trombótico ou não-trombótico (fluxo retrógrado espontâneo ou à Valsalva) |
| R,O | Refluxo e Obstrução no mesmo segmento (incomum na pelve, listar ambos) |
Etiologia (E) — Tabela VI
| Código E | Significado |
|---|---|
| T | Trombótico — refluxo ou obstrução secundária a episódio prévio de TVP |
| NT | Não-trombótico — refluxo por degeneração da parede vascular; obstrução por compressão extrínseca arterial ou estruturas adjacentes |
| C | Congênito — malformação vascular venosa ou mista. Quando presente e não há refluxo nem obstrução, o subdomínio H pode ser omitido. |
Notação SVP — Como Ler e Escrever
A notação completa é: S[subscripts] V[subscripts] P_[segmento1],[H],[E]; [segmento2],[H],[E]
- Múltiplos segmentos anatômicos P são listados da IVC em sentido caudal, separados por ponto e vírgula
- A hemodinâmica (H) e a etiologia (E) seguem imediatamente após cada segmento anatômico
- Pacientes com mais de um sintoma ou varizes em mais de um reservatório recebem múltiplos subscripts (ex: S₂,₃ₐ; V₂,₃ₐ)
- Quando a avaliação ainda está incompleta: subscrito "x" (ex: S₀₋₃VₓPₓ)
- Todas as designações — S, V, A, H, E — devem ser documentadas individualmente para fins de pesquisa clínica
- Aplicativo disponível em: https://myavls.org/svp
Síndromes Históricas Traduzidas para SVP
| Termo Histórico (ABANDONAR) | Classificação SVP Precisa |
|---|---|
| Pelvic congestion syndrome — dor pélvica crônica por refluxo ovariano bilateral | S₂V₂P_BGV,R,NT |
| Nutcracker syndrome — dor no flanco e hematúria por compressão da veia renal esquerda | S₁V₁P_LRV,O,NT |
| May-Thurner syndrome — compressão da veia ilíaca comum esquerda sem varizes extrapélvicas | S₀V₀P_LCIV,O,NT + CEAP Left C₃,₅EₐA_dP_o(CIV) |
| Varizes vulvares por refluxo ovariano + ilíaco interno bilateral | S₂,₃ₐV₂,₃ₐP_BGV,R,NT; BIIV,R,NT; BPELV,R,NT |
| Varicocele masculina por refluxo da veia gonadal esquerda | S₃ₐV₃ₐP_LGV,R,NT |
Por Que o SVP é um Instrumento Discriminativo, Não Avaliativo
O SVP não mede gravidade nem monitora evolução temporal — esse é o papel dos instrumentos avaliativos (como o VCSS para a DVC dos MMII). O SVP classifica o estado clínico atual do paciente em um momento específico. Isso tem implicação direta na prática: um paciente com S₂V₂P_BGV,R,NT não é automaticamente mais ou menos grave que S₂V₀P_LCIV,O,NT — são grupos clínicos distintos com fisiopatologias e respostas ao tratamento diferentes, não um ranking de severidade.
Perguntas Frequentes
O que é a Classificação SVP e por que os termos históricos como "síndrome de congestão pélvica" devem ser abandonados?
Quais são as 4 zonas anatômicas dos Distúrbios Venosos Pélvicos e o que cada uma representa clinicamente?
Como interpretar a notação SVP de um paciente com varizes vulvares e dor pélvica crônica?
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