Princípios Gerais do Trauma Vascular: Ressuscitação e Sistema ESVS
ESVS 2025 Recs 1–18: damage control + transfusão balanceada 1:1:1, ácido tranexâmico (CRASH-2) para todos os sangramentos graves, REBOA NÃO de rotina, AngioTC como primeira linha e sistema de gradação ESVS Graus 1–3/X estruturando toda a tomada de decisão.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: Damage control + transfusão balanceada (Rec 4, Classe I-A) + ácido tranexâmico precoce para TODOS os sangramentos graves (Rec 5, Classe I-A — CRASH-2). REBOA NÃO é recomendado como abordagem de rotina (Rec 8, Classe IIIb-B). AngioTC é a primeira linha de imagem em pacientes estáveis (Rec 10, Classe I-C). Sistema de gradação ESVS Graus 1–3/X estrutura toda a tomada de decisão — ESVS 2025.
As Diretrizes ESVS 2025 sobre Trauma Vascular compilam 105 recomendações baseadas em evidências para o manejo de lesões vasculares em todos os territórios. Esta primeira parte (Recs 1–18) estabelece os princípios organizacionais, o novo sistema de gradação unificado para trauma arterial e os protocolos de ressuscitação — incluindo a contraindicação do REBOA de rotina, uma das mudanças mais impactantes desta edição.
Epidemiologia e Organização do Serviço
O trauma vascular representa 2–5% de todas as admissões traumáticas e tem distribuição anatômica bem definida: extremidades 44% (membros superiores 26%, inferiores 18%), torso 49% (abdome 25%, tórax 24%) e pescoço 10%. Em conflitos militares e atentados terroristas, as taxas de lesão vascular chegam a 30%.
Rec 1 (Classe I-C) — Equipe 24/7
Equipe disponível 24h/7d, competente em controle de hemorragia e em cirurgia aberta e endovascular.
Rec 3 (Classe I-C) — Teatro Híbrido
Teatro híbrido com capacidade combinada para todo paciente traumatizado com lesão vascular — obrigatório em centros de trauma.
Sistema de Gradação ESVS para Trauma Arterial
A principal inovação desta diretriz é um sistema de gradação unificado, aplicável a todas as artérias, que substitui as gradações heterogêneas anteriores por território:
| Grau ESVS | Descrição | Exemplos | Manejo Geral |
|---|---|---|---|
| Grau 1 | Lesão parcial da parede — contorno externo normal | Flap intimal, hematoma intramural | Observação ± antitrombóticos |
| Grau 2 | Lesão completa — hemorragia contida | Pseudoaneurisma, fístula AV | Reparo urgente (geralmente endovascular) |
| Grau 3 | Lesão completa — hemorragia não contida, livre | Transecção, ruptura | Reparo de emergência (geralmente aberto) |
| Grau X | Oclusão — sem fluxo distal | Trombose, transecção com espasmo | Emergência se membro/órgão salvável |
Ressuscitação Damage Control
Rec 4 (Classe I-A) — Transfusão Balanceada
Damage control + protocolos de transfusão maciça com proporção 1:1:1 (plasma:plaquetas:hemácias). Hipotensão permissiva: PAS 80–90 mmHg até controle cirúrgico (exceto TBI).
Ácido Tranexâmico — Rec 5 (Classe I-A)
✅ Para TODOS os pacientes com sangramentos graves por trauma vascular
Dose: 1g IV em 10 minutos + 1g IV em 8 horas
CRASH-2 trial (n=20.211): ↓mortalidade geral (RR 0,91) e ↓morte por hemorragia (RR 0,85). Administrar o mais precocemente possível — após 3 horas da lesão, pode ser prejudicial.
Torniquete Pré-Hospitalar — Rec 6 (Classe I-C)
Indicado para todos os pacientes com sangramento não controlado de extremidade quando compressão local e packing são insuficientes. Aplicar o mais distal possível e registrar a hora de aplicação. A heparina não está indicada especificamente por causa do torniquete (Rec 7, Classe IIIa-C).
REBOA — Rec 8 (Classe IIIb-B): NÃO de Rotina
⛔ REBOA de rotina NÃO é recomendado para hemorragia torácica exsanguinante
RCT recente: mortalidade em 90 dias 54% (REBOA) vs. 42% (controle) (OR 1,58; IC 0,72–3,52)
Complicações vasculares de acesso: 8% (IC 5–13%). Indicações, tempo de oclusão e treinamento necessitam análise adicional.
Imagem Diagnóstica — Recs 9–11
🚨 Instável → Sala Cirúrgica Imediata
Rec 9 (Classe I-C): Pacientes hemodinamicamente instáveis não indicados para AngioTC → transferência imediata para sala de cirurgia.
✅ Estável → AngioTC Primeiro
Rec 10 (Classe I-C): AngioTC (arterial + venosa) como primeira linha — sensibilidade e especificidade próximas de 100%.
Rec 11 (Classe IIIb-C)
NÃO é recomendado evitar ou postergar a AngioTC por medo de nefropatia por contraste em trauma vascular potencialmente ameaçador à vida ou ao membro.
Restauração do Fluxo e Técnicas Cirúrgicas — Recs 12–18
| Rec | Classe | Recomendação |
|---|---|---|
| 12 | I-C | Restauração do fluxo arterial inline, temporária ou definitiva, deve ser priorizada |
| 13 | I-C | Reparo primário definitivo é preferido sobre soluções temporárias |
| 14 | I-C | Shunts temporários quando reparo definitivo não é viável por fisiologia ou padrão de lesão |
| 15 | IIa-C | Converter shunt para reparo definitivo o mais cedo possível, idealmente no mesmo procedimento |
| 16 | I-C | Enxertos de interposição curtos recomendados em trauma vascular necessitando reconstrução |
| 17 | IIb-C | Enxertos protéticos sintéticos podem ser considerados para reparo vascular definitivo de emergência |
| 18 | IIa-C | Enxertos venosos para reconstrução de lesões arteriais necessitando condutos bypass mais longos |
Referência
Wahlgren CM, Riddez L, Orban P, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2025 Clinical Practice Guidelines on the Management of Vascular Trauma. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2025;69:179–237. DOI: 10.1016/j.ejvs.2024.12.018
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Perguntas Frequentes
Por que o REBOA não é mais recomendado de rotina no trauma vascular?
Qual a dose do ácido tranexâmico no trauma vascular?
O que é o sistema de gradação ESVS para trauma arterial e por que foi criado?
Quando usar shunt temporário em vez de reparo definitivo no trauma vascular?
Quando indicar AngioTC versus sala cirúrgica direta no trauma vascular?
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