Ultrassom Após Endarterectomia e Stent Carotídeo + Morfologia da Placa
Critérios de reestenose, vigilância e complicações após endarterectomia e stent, e como descrever a placa no laudo — segundo a atualização DIC/CBR/SBACV 2023 (Albricker ACL et al., Arq Bras Cardiol 2023).
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Resposta direta: A única mudança pós-intervenção na atualização DIC/CBR/SBACV 2023: reestenose >70% após endarterectomia pelos critérios de Bandyk (VPS >300 cm/s, VDF ≥125 cm/s, razão ACI/ACC >5), com vigilância em 1, 3 e 12 meses. Após stent: >50% com VPS ≥220 e razão ≥2,7; >80% com VPS ≥340 e razão ≥4,15. O laudo da placa deve trazer ecogenicidade, localização, superfície (ulceração >2 mm), componente móvel e hemorragia intraplaca; volume de placa 3D é nova recomendação IIa-B.
A ultrassonografia vascular é barata e tem boa acurácia em relação à angiografia para acompanhar endarterectomias e stents carotídeos — mas não há consenso universal sobre a periodicidade. A atualização brasileira de 2023 mudou um único critério pós-intervenção e ampliou a descrição da placa, com volume em 3D e o papel da angio-TC e da angio-RM.


Após endarterectomia: o que muda em 2023
> 300 cm/s
VPS
≥ 125 cm/s
VDF
> 5
razão VPS ACI/ACC
Esses são os critérios de Bandyk et al. para reestenose > 70% após endarterectomia (EAC), adotados pela atualização. A vigilância recomendada é em 1, 3 e 12 meses. As reestenoses entre 6 e 12 meses costumam ser hiperplasia neointimal; as que surgem após 24–36 meses tendem a ser recorrência da aterosclerose.
O exame pós-intervenção segue o mesmo protocolo do diagnóstico. Meça os diâmetros no vaso nativo, nas anastomoses e na área de alargamento, se houver, para comparar nos controles. As suturas aparecem como ecos brilhantes regularmente espaçados; o patch de veia pode ser indistinguível da parede, o de Dacron é espesso e muito ecogênico, e o de PTFE aparece como linha dupla brilhante.
Quadro 5 — Achados e complicações após os procedimentos
| Achado | Quando | Descrição ao USV |
|---|---|---|
| EAC — Desproporção de calibre | Imediato | Grande diferença entre o bulbo pós-endarterectomia e a ACI distal (comum com patch) |
| EAC — "Degrau" | Imediato | Degrau na parede no ponto da abordagem cirúrgica |
| EAC — Trombose | Recente | Imagem hipoecogênica aderida ao local, com ou sem componente móvel |
| EAC — Dilatação aneurismática | Geralmente tardia | Dilatação acentuada no local da endarterectomia; pode ter trombo |
| EAC — Reestenose | 3–24 meses: hiperplasia neointimal; > 24 meses: aterosclerose | Redução da luz no modo B com turbilhonamento. > 70%: VPS > 300, VDF ≥ 125, razão > 5 |
| Stent — Mal posicionamento | Imediato | Stent fora do ponto de maior estenose, que mantém turbulência |
| Stent — Expansão inadequada | 0–24 meses | Estenose residual > 30% nas extremidades ou no corpo do stent |
| Stent — Reestenose | 3–24 meses: hiperplasia; > 24 meses: aterosclerose | > 50%: VPS ≥ 220 e razão ≥ 2,7 · > 80%: VPS ≥ 340 e razão ≥ 4,15 |
| Stent — Fratura/torção | — | USV não é o método de escolha; suspeitar com calcificação importante ou reestenose com radiografia alterada |
| Stent — Efeito na ACE | — | Pode causar estenose na origem da ACE com turbilhonamento (o fluxo passa pela malha) |
Tipos de reestenose intrastent
- I — hiperplasia focal na extremidade do stent (< 10 mm)
- II — hiperplasia focal intrastent (< 10 mm)
- III — hiperplasia difusa (> 10 mm)
- IV — hiperplasia difusa proliferativa (> 10 mm) que ultrapassa as extremidades
- V — oclusão do stent
Morfologia da placa: além do grau de estenose
Placas com o mesmo grau de estenose não têm o mesmo potencial embólico. Identificar núcleo lipídico, ulceração ou hemorragia intraplaca em pacientes com AVC de repetição e estenose não significativa pode direcionar para intervenção ou intensificação do tratamento clínico. A descrição da placa deve constar no laudo (Quadro 6):
Ecogenicidade
- I — uniformemente ecolucente
- II — predominantemente ecolucente
- III — predominantemente ecogênica
- IV — uniformemente ecogênica
- V — calcificada
Hipoecogênicas, heterogêneas e irregulares marcam risco de AVC/AIT; IV e V são as mais estáveis.
Superfície
- Regular: < 0,4 mm de profundidade
- Irregular: 0,4 a 2,0 mm
- Ulceração (De Bray): concavidade e extensão > 2,0 mm, base bem definida e fluxo reverso ao color
- Ulceração (Muraki): concavidade clara com base menos ecogênica que a parede
- Componente móvel: informar o tamanho
Irregularidade e ulceração têm risco elevado de eventos. A análise da superfície perde acurácia com cálcio e em placas estenóticas.
Hemorragia intraplaca: área anecoica próxima à superfície com capa fibrótica íntegra. É marcador de vulnerabilidade, associado a eventos cerebrovasculares em placas com e sem repercussão hemodinâmica, provavelmente por ruptura de neovasos intraplaca.
A localização também deve ser descrita: carótida comum, bifurcação, ramo externo e ramo interno proximal e médio. Herr et al. mostraram que placas mais ecogênicas (fibrose, cálcio) se associam a mais doença coronariana, e que a combinação de altura, percentual de cálcio e de gordura aumenta o risco de eventos.
Volume de placa em 3D Nova · IIa-B
- O volume total de placa medido de 1,5 cm da ACC distal até 1 cm após a bifurcação prediz eventos cardiovasculares futuros.
- Dois protocolos: região única (uma placa ou segmento) ou vaso completo.
- Detecta placa em artérias angiograficamente normais e em estenoses < 50%; acompanha progressão e resposta ao tratamento.
- Volume e sua progressão superaram a EMI na estratificação e na avaliação de terapias (Wannarong); o volume é maior nas primeiras semanas após sintomas isquêmicos (Ball).
- Ainda não há valores de corte estabelecidos.
Angio-TC, angio-RM e dissecção cervical
Ambas têm resolução submilimétrica para parede e placa, mas não são usadas para estratificar risco cardiovascular: ficam para pacientes sintomáticos ou já rastreados pela ultrassonografia, para gravidade e extensão da doença. São os métodos de escolha na dissecção arterial cervical (classe I, nível C), no lugar da angiografia digital.
A RM tem maior sensibilidade para hematoma mural e diferencia melhor dissecções agudas e subagudas; a imagem de parede de vaso por RM (vessel wall imaging) acrescenta acurácia.
Perguntas Frequentes
Qual o critério de reestenose maior que 70% após endarterectomia carotídea?
Quando repetir o Doppler após a endarterectomia?
Por que o stent carotídeo tem critérios de velocidade próprios?
O que torna uma placa carotídea vulnerável ao ultrassom?
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