Compressão Pós-Procedimento em Varizes: Diretrizes AVF/SVS 2019 — Parte 2: Comprimir ou Não Comprimir, e a Dose que Reduz a Dor
Guia para especialistas: Recomendações 1.1 e 1.2 da diretriz AVF/SVS/ACP/SVM/IUP 2019 — usar ou não compressão após ablação térmica/stripping da safena, a dose de pressão (>20 mmHg) e o papel dos pads excêntricos (Lei de Laplace) na redução da dor e das equimoses.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Na Parte 1 desta série, estabelecemos a metodologia da diretriz AVF/SVS 2019 e o sistema GRADE usado para graduar cada recomendação. Chegou a hora de responder à pergunta que move a prática diária do cirurgião vascular: após fechar a safena por ablação térmica ou removê-la por stripping, a compressão é realmente necessária — e, se for, com que intensidade? Este capítulo traduz as Recomendações 1.1 e 1.2 (Grupo 1) e antecipa a Recomendação 2.1 sobre duração da terapia, que será aprofundada na próxima parte da série.

Assista: Compressão Pós-Procedimento na Prática
1. Recomendação 1.1: Comprimir ou Não Comprimir?
A pergunta que abre o Grupo 1 desta diretriz é, paradoxalmente, a mais simples de formular e a mais difícil de responder com rigor científico: a compressão é realmente necessária após o tratamento térmico ou cirúrgico da safena?
Recomendação 1.1 — GRADE 2C
"Quando possível, sugerimos que a compressão (meias elásticas ou bandagens) seja utilizada após procedimentos cirúrgicos ou térmicos para eliminar veias varicosas."
A análise técnica do comitê é honesta sobre os limites dessa evidência: ela é classificada como "especulativa", porque a maioria dos ensaios clínicos randomizados disponíveis comparou diferentes níveis de compressão entre si — não compressão contra um grupo controle sem compressão alguma. Mesmo assim, a análise qualitativa do comitê sustenta que "alguma compressão é melhor do que nenhuma" para otimizar os desfechos iniciais. É o mesmo racional que, na Parte 1, explicou por que a ESVS 2015 (Classe I) e a AVF/SVS 2019 (GRADE 2C) chegaram a forças de recomendação diferentes a partir da mesma lacuna de evidências.
2. Recomendação 1.2: A Dose que Reduz a Dor — Pads Excêntricos e a Lei de Laplace
Se a Recomendação 1.1 é fraca quanto ao "se comprimir", a Recomendação 1.2 traz uma evidência mais robusta sobre o "como comprimir" — e é aqui que o detalhe técnico do consultório faz diferença real para o paciente.
Recomendação 1.2 — GRADE 2B
Pressões superiores a 20 mmHg, associadas a pads (coxins) excêntricos posicionados sobre o trajeto da veia tratada, proporcionam a maior redução de dor e equimoses nos primeiros 7 dias de pós-operatório.
| Tipo de Intervenção | Pressão Recomendada | Adjuvante Técnico | Resultado Esperado |
|---|---|---|---|
| Ablação térmica ou cirurgia (stripping) | > 20 mmHg | Pads excêntricos sobre a veia tratada | Maior redução da dor e de equimoses em 7 dias |
Fundamentação técnica (Lei de Laplace): ao posicionar um pad de espuma ou algodão sobre o trajeto da veia tratada, reduz-se artificialmente o raio local do membro naquele ponto específico. Como a pressão exercida por um dispositivo compressivo é inversamente proporcional ao raio do segmento, essa redução local amplifica a pressão exatamente onde ela é necessária — garantindo a oclusão venosa e prevenindo o hematoma no canal de ablação ou stripping, sem exigir pressões circunferenciais intoleráveis em toda a perna.
Impacto mensurável no escore de dor (7 dias)
Em dados sintetizados por esta diretriz, o escore médio de dor cai de aproximadamente 4,9 sem pads excêntricos para 1,4 com pads excêntricos — uma redução superior a 70% apenas com esse ajuste técnico, sem qualquer custo adicional relevante ao procedimento.
3. Rigidez (Stiffness): Bandagens Multicomponentes vs. Meias Elásticas
A escolha entre bandagem e meia elástica não é apenas uma questão de praticidade — ela determina o perfil hemodinâmico da compressão ao longo do dia, através de uma propriedade física chamada rigidez (stiffness).
Bandagens multicomponentes — alta rigidez
Compostas por têxteis inelásticos ou de curta elasticidade, formam um verdadeiro "manguito rígido". Sua alta rigidez gera picos de pressão elevados durante a deambulação — impulsionados pela contração da panturrilha — enquanto mantêm pressões baixas e toleráveis em repouso. Esse comportamento favorece a oclusão da veia tratada em pacientes que se mantêm ativos.
Meias elásticas — maior complacência
Oferecem maior facilidade de colocação e retirada, favorecendo a adesão ao tratamento. Embora hemodinamicamente menos eficazes que as bandagens rígidas na posição em pé, parecem superiores na redução do edema e na promoção de um efeito anti-inflamatório local.
Em ambos os casos, vale o princípio já discutido na Parte 1: em decúbito, pressões inferiores a 10 mmHg já estreitam a veia safena magna; em pé, são necessários >50 mmHg na perna e >30-40 mmHg na coxa para manter a oclusão efetiva — daí a importância dos pads excêntricos para atingir essas pressões localmente sem depender apenas da rigidez do material.
4. Antecipando a Recomendação 2.1: Por Quanto Tempo Manter a Compressão?
A pergunta "por quantos dias?" é, de longe, a mais frequente no consultório — e a diretriz é franca ao admitir que a resposta ainda depende mais do julgamento clínico do que de evidência robusta.
Recomendação 2.1 — Best Practice: "Na ausência de evidências convincentes, recomendamos o melhor julgamento clínico para determinar a duração da terapia compressiva após o tratamento."
O estudo de Bakker (2013) sugere que a compressão por apenas 48-72 horas não é inferior a períodos mais longos em termos de recuperação funcional.
Melhoram significativamente os escores de dor e vitalidade física na primeira semana. Porém, essas vantagens tendem a desaparecer após 6 semanas, sem impacto demonstrável na taxa de oclusão final da veia tratada.
Na prática, isso significa que prolongar a compressão além de 1-2 semanas não traz benefício adicional comprovado sobre o resultado anatômico — a decisão sobre estender ou não o uso deve considerar o conforto, a adesão e o contexto individual de cada paciente, tema que retomaremos com mais profundidade na Parte 3 desta série.
5. Indo Além: Quando a Compressão Deixa de Ser "Opcional"
As Recomendações 1.1 e 1.2 tratam do paciente "padrão" submetido a ablação térmica ou stripping. Mas a própria diretriz reserva recomendações mais fortes para dois cenários que merecem atenção redobrada do especialista — e que serão detalhados no capítulo desta série dedicado ao Grupo 4 (compressão e úlcera venosa):
A compressão deixa de ser uma sugestão fraca (2C) e passa a ser uma recomendação forte (GRADE 1B) — mandatória para acelerar a cicatrização e prevenir a recorrência da úlcera.
A compressão deve ser limitada a pacientes com índice tornozelo-braquial (ITB) > 0,5 ou pressão absoluta de tornozelo > 60 mmHg, para não comprometer ainda mais a perfusão arterial.
Outra distinção prática: se o paciente apresenta apenas refluxo superficial isolado, períodos curtos de compressão (dias) já são suficientes. Já na presença de insuficiência venosa profunda concomitante, a compressão prolongada deve ser considerada — mais um exemplo de individualização em vez de protocolo único para todos os pacientes.
Síntese para a Prática e Próximos Passos
- Prescrição sistemática: quando possível, recomende compressão pós-procedimento para melhorar o conforto e reduzir equimoses, priorizando a primeira semana.
- Otimize com pads: use pressões superiores a 20 mmHg associadas a pads excêntricos sobre o trajeto venoso tratado (Evidência Nível B) — a intervenção isolada com maior impacto demonstrado na dor.
- Individualize por comorbidade: compressão mandatória em úlceras C6 (1B); restrita por critério hemodinâmico (ITB > 0,5) em úlceras mistas; e ajustada conforme refluxo isolado vs. insuficiência venosa profunda associada.
Com as Recomendações 1.1 e 1.2 estabelecidas, a Parte 3 desta série aprofunda a Recomendação 2.1 — duração da compressão, comparando a evidência de curto prazo vs. longo prazo por técnica (RFA, EVLA e stripping). A parte seguinte avançará para os Grupos 3 e 4 da diretriz — compressão após escleroterapia e compressão no manejo da úlcera venosa, incluindo o caso particular da úlcera de etiologia mista.
*Este texto tem caráter de revisão e atualização para profissionais de saúde, com base na diretriz internacional citada. Não substitui a avaliação clínica individualizada de cada paciente.
Ref: Lurie F, Lal BK, Antignani PL, et al. Compression therapy after invasive treatment of superficial veins of the lower extremities: Clinical practice guidelines of the American Venous Forum, Society for Vascular Surgery, American College of Phlebology, Society for Vascular Medicine, and International Union of Phlebology. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2019;7(1):17-28.
Perguntas Frequentes
Existe evidência sólida de que a compressão pós-procedimento funciona?
O que são 'pads excêntricos' e por que fazem tanta diferença na dor?
Por quanto tempo devo manter a compressão após o procedimento?
Bandagem multicomponente ou meia elástica — qual é melhor após o procedimento?
Em pacientes com úlcera venosa ativa (CEAP C6), a compressão segue sendo apenas 'sugerida' (2C)?
Meu paciente tem apenas refluxo superficial isolado — precisa de compressão por semanas?
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