Compressão Pós-Procedimento em Varizes: Diretrizes AVF/SVS 2019 — Parte 5: Compressão no Manejo da Úlcera Venosa (Recomendação 4.1) — Conclusão da Série
Guia para especialistas: a Recomendação 4.1 (GRADE 1B) da diretriz AVF/SVS sobre compressão em pacientes com úlcera venosa de perna (VLU) — extrapolação da evidência, manejo de úlceras de etiologia mista (ITB > 0,5), adesão e dispositivos de Velcro. Conclusão da série de 5 partes.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Na Parte 4 desta série, encerramos a análise da compressão após escleroterapia. Chegamos agora ao quarto e último grupo da diretriz AVF/SVS 2019 — e ao cenário clínico de maior complexidade: o paciente com úlcera venosa de perna (VLU). Aqui a compressão deixa de ser uma sugestão (GRADE 2) e passa a ser uma recomendação forte (GRADE 1B), ainda que baseada em uma extrapolação importante da evidência. Esta é a quinta e última parte da série.

Assista: Compressão na Úlcera Venosa, Explicada
1. O Subgrupo Mais Crítico: Pacientes com Úlcera Venosa
O Capítulo 4 da diretriz conjunta SVS/AVF/ACP/SVM/UIP volta-se a um subgrupo particularmente sensível: pacientes com história de úlcera venosa de perna (VLU), ativa ou cicatrizada. Nesse cenário, a complexidade da cicatrização e o risco elevado de recorrência exigem uma estratégia capaz de neutralizar a hipertensão venosa persistente — mesmo após a eliminação cirúrgica ou térmica dos pontos de refluxo superficial.
Diferente das Partes 2-4, em que a maioria das recomendações tinha grau 2 (fraco), aqui encontramos a recomendação mais forte de toda a diretriz.
2. Recomendação 4.1: Compressão em Úlceras Venosas Puras
Recomendação 4.1 — Recomendação Forte
GRADE 1B"Em um paciente com úlcera venosa de perna, recomendamos a terapia de compressão em vez de nenhuma compressão para aumentar a taxa de cicatrização da úlcera venosa e diminuir o risco de recorrência da úlcera."
Vale destacar o que essa força de recomendação significa na prática: enquanto as Recomendações 1.1, 3.1 e 3.2 (Partes 2 e 4) usam a linguagem "sugerimos" (Grau 2 — fraco, conduta variável conforme o paciente), a Recomendação 4.1 usa "recomendamos" (Grau 1 — forte, aplicável à grande maioria dos pacientes, com benefício que supera claramente o risco).
Uma recomendação forte, mas uma extrapolação
Sob a ótica da medicina baseada em evidências, é importante observar que esta recomendação é, em grande parte, uma extrapolação. Conforme Lurie et al. (2019), não existem publicações que abordem especificamente o papel da compressão exclusivamente no cenário pós-tratamento de veias superficiais em pacientes com VLU aberta ou cicatrizada. A força GRADE 1B deriva da evidência consolidada sobre compressão no manejo geral da úlcera venosa — e, dada a fisiopatologia da doença, a compressão é considerada a "pedra angular" (keystone) para consolidar a cicatrização e prevenir a recidiva, devendo ser mantida como prática padrão de excelência.
As modalidades de compressão recomendadas para essa fase incluem:
- Bandagens de elasticidade curta (short-stretch)
- Sistemas multicomponentes (multi-layer)
- Botas de Unna
- Compressão pneumática intermitente
3. Recomendação 4.2: Precaução com Úlceras de Etiologia Mista (Arterial e Venosa)
O manejo de pacientes com doença arterial periférica (DAP) concomitante exige cautela extrema. A evidência para o uso de compressão nesses casos é limitada a poucos estudos pequenos, o que reflete a necessidade de monitoramento rigoroso.
Recomendação 4.2 — Critérios de Segurança (Etiologia Mista)
GRADE 2C| Critério | Limite Mínimo Seguro |
|---|---|
| Índice Tornozelo-Braquial (ITB) | > 0,5 |
| Pressão de Tornozelo Absoluta | > 60 mmHg |
Para pacientes que se enquadram nesses critérios de segurança, a diretriz sugere o uso de compressão modificada com pressão reduzida. O objetivo é evitar o comprometimento da perfusão arterial enquanto se busca o benefício hemodinâmico venoso.
A doença arterial periférica pode coexistir em até um quarto dos pacientes com úlcera de perna, exigindo triagem rigorosa antes de indicar compressão.
O uso em membros com perfusão arterial significativamente comprometida é inseguro. A medição do ITB e da pressão de tornozelo é essencial antes de prescrever.
Para uma revisão completa sobre como medir e interpretar esse índice, veja nosso guia sobre ITB — Índice Tornozelo-Braquial.
4. Desafios de Adesão (Compliance) e Limitações do Paciente
A eficácia da terapia compressiva é frequentemente limitada por fatores práticos e comorbidades que impedem a adesão a longo prazo — um tema recorrente em toda esta série, mas especialmente crítico em pacientes com úlcera, que costumam ser mais idosos e ter mais comorbidades.
Dificuldades no donning and doffing (colocar e retirar) os dispositivos, especialmente em pacientes com força reduzida ou limitações motoras.
Artrite severa dificulta a manipulação de meias de alta compressão. Na obesidade mórbida, o aumento da pressão intra-abdominal eleva a pressão venosa nos membros, o que pode "atropelar" a capacidade de contenção de produtos puramente elásticos.
Preocupações com o uso prolongado, irritação cutânea e a necessidade de manutenção da integridade da pele.
5. Da Cicatrização à Manutenção: Velcro vs. Meias Elásticas
Uma vez alcançada a cicatrização da úlcera, a transição para a compressão de manutenção é vital para prevenir a recidiva. Enquanto as meias elásticas são a escolha mais comum, os dispositivos de compressão ajustáveis com Velcro oferecem vantagens técnicas superiores para perfis específicos de pacientes.
A superioridade hemodinâmica dos dispositivos de Velcro reside na sua natureza inelástica. Diferente das meias elásticas, eles possuem alta rigidez (stiffness), o que gera picos de pressão significativos durante a contração muscular (deambulação). Esse "efeito de bomba" é mais eficaz no esvaziamento venoso do que a pressão estática das meias.
Maior redução da estase e do edema através de pressões elevadas durante a atividade.
Permitem ajuste imediato conforme o volume da perna diminui ao longo do dia, mantendo a pressão terapêutica constante.
Aplicação simplificada para pacientes com limitações físicas ou força manual reduzida.
6. Qualidade de Vida e Lacunas na Evidência
Apesar de ser uma prática clínica consolidada, o nível de evidência para o manejo pós-procedimento em pacientes com VLU permanece baixo a moderado. Há uma lacuna crítica de dados de Nível 1 que foquem exclusivamente no impacto da compressão após o sucesso da ablação térmica ou cirúrgica.
É imperativo que futuros estudos incorporem métricas de qualidade de vida centradas no paciente, reconhecendo que a manutenção da cicatrização e a prevenção do edema recorrente impactam diretamente a funcionalidade social e humana. Até que novas evidências surjam, a compressão deve ser prescrita de forma personalizada, ajustando-se o dispositivo às limitações físicas e à gravidade da insuficiência venosa de cada paciente.
7. Síntese Completa: as 7 Recomendações da Diretriz AVF/SVS 2019
Ao final desta série de cinco partes, eis o panorama completo das recomendações sobre compressão pós-procedimento em doença venosa, da indicação após ablação térmica até o manejo da úlcera:
| Recomendação | Cenário Clínico | GRADE | Resumo |
|---|---|---|---|
| 1.1 | Ablação térmica / stripping | 2C | Compressão sugerida quando possível. |
| 1.2 | Ablação térmica / cirurgia | 2B | >20 mmHg + pads excêntricos reduzem dor e equimose em 7 dias. |
| 2.1 | Ablação térmica / stripping | Best Practice | Duração definida por julgamento clínico. |
| 3.1 | Escleroterapia | 2C | Compressão imediata melhora os resultados clínicos. |
| 3.2 | Escleroterapia | Best Practice | Duração definida por julgamento clínico. |
| 4.1 | Úlcera venosa de perna (VLU) | 1B | Compressão recomendada (forte) para cicatrização e prevenção de recorrência. |
| 4.2 | Úlcera venosa de etiologia mista (DAP concomitante) | 2C | Compressão modificada limitada a ITB > 0,5 ou pressão de tornozelo > 60 mmHg. |
Síntese Final da Série
- Gradiente de força: a recomendação para comprimir cresce em força conforme a gravidade do quadro — de "sugerimos" (2C) na ablação simples até "recomendamos" (1B) na úlcera venosa.
- A dose e os adjuvantes importam: pads excêntricos (Lei de Laplace), bandagens multicomponentes, botas de Unna e dispositivos de Velcro otimizam o efeito hemodinâmico da compressão em cada cenário.
- Segurança arterial em primeiro lugar: antes de comprimir qualquer paciente com fatores de risco, meça o ITB — o limite de 0,5 separa a compressão terapêutica da compressão perigosa.
- Adesão é o elo mais fraco: em todas as cinco partes, a complacência do paciente — e não apenas a evidência — determina o sucesso da terapia.
Com esta Parte 5, encerramos a série Compressão Pós-Procedimento: Diretrizes AVF/SVS 2019. Esperamos que esse percurso — da metodologia GRADE (Parte 1) à dose ideal (Parte 2), da duração (Parte 3) à escleroterapia (Parte 4) e, finalmente, à úlcera venosa (Parte 5) — ofereça um panorama prático e fundamentado para a tomada de decisão no dia a dia da flebologia.
*Este texto tem caráter de revisão e atualização para profissionais de saúde, com base na diretriz internacional citada. Não substitui a avaliação clínica individualizada de cada paciente.
Ref: Lurie F, Lal BK, Antignani PL, et al. Compression therapy after invasive treatment of superficial veins of the lower extremities: Clinical practice guidelines of the American Venous Forum, Society for Vascular Surgery, American College of Phlebology, Society for Vascular Medicine, and International Union of Phlebology. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2019;7(1):17-28.
Perguntas Frequentes
O que diz a Recomendação 4.1 sobre compressão em úlceras venosas?
Se a evidência é de Nível B, por que essa recomendação é chamada de 'extrapolação'?
Como saber se um paciente com úlcera pode receber compressão com segurança?
Quando o paciente pode trocar a bandagem/bota de Unna por meias elásticas?
Por que dispositivos de Velcro podem ser superiores às meias elásticas em alguns pacientes?
Quais lacunas de evidência a diretriz reconhece para a compressão na úlcera venosa?
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