Doença Venosa Crônica (Parte 2): Como os Médicos Investigam o Diagnóstico
Você já entende os sinais que suas pernas enviam. Agora, o passo seguinte: como o cirurgião vascular transforma esses sinais em um diagnóstico preciso. Segunda parte da série baseada nas Diretrizes ESVS 2022, explica o exame clínico, o Ultrassom Doppler, o conceito de refluxo e quando exames de imagem avançados são necessários.
Escrito e revisado por Dr. Maurício Hiroshi Yamada — Cirurgião Vascular e Endovascular | CRM-PR 21589 | RQE 18281 · 18282 · 18294 · 18295
Se você acompanhou o nosso primeiro artigo sobre os sintomas da Doença Venosa Crônica (DVC), já sabe identificar os sinais de alerta que as suas pernas enviam. O próximo passo é transformar essas observações em um diagnóstico preciso. Muitas pessoas adiam a ida ao médico por receio de exames invasivos — mas a boa notícia é que a tecnologia moderna permite avaliar a saúde das veias de forma detalhada, segura e, na grande maioria das vezes, sem qualquer dor. Este artigo explica o roteiro de investigação seguido com base nas Diretrizes 2022 da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular (ESVS).

Assista: Como os Médicos Investigam o Diagnóstico (Parte 2)
1. O Ponto de Partida: O Exame Clínico
Tudo começa no consultório com uma conversa detalhada. Mais do que listar sintomas, o médico busca entender como a doença afeta sua vida — trabalho, sono, hobbies e atividades diárias. Essa etapa é essencial para que o plano de cuidados seja focado em você, e não apenas nos exames.
Em seguida, vem o exame físico. Na avaliação vascular, é fundamental que o paciente seja examinado de pé (em posição ortostática). A gravidade faz com que as veias fiquem mais cheias, permitindo detectar problemas que poderiam passar despercebidos com o paciente deitado — evitando os chamados falsos negativos.
Durante o exame, o médico procura por:
- Varizes visíveis: localização, tamanho e características das veias dilatadas.
- Inchaço (edema): avaliação do volume nos tornozelos e panturrilhas.
- Cicatrizes: sinais de tratamentos ou cirurgias vasculares anteriores.
- Mudanças na cor da pele: áreas escurecidas ou avermelhadas (pigmentação), sinais clássicos de Insuficiência Venosa Crônica.
- Veias colaterais: veias aparentes no abdome ou púbis, que podem sugerir obstruções em veias profundas mais altas.
O especialista também avalia se as dores podem ter origens diferentes — como problemas ortopédicos ou arteriais — garantindo que o tratamento proposto seja o mais assertivo possível.
2. O "Padrão-Ouro": Ultrassom Doppler (DUS)
O Ultrassom Doppler (DUS) é a ferramenta principal e indispensável na investigação das varizes: indolor, sem radiação e o mais completo para o diagnóstico.
- O que ele vê: mostra a anatomia das veias, verifica se o sangue flui corretamente e descarta a presença de obstruções ou coágulos (trombose).
- O conceito de refluxo: em veias saudáveis, o sangue flui apenas em direção ao coração. O refluxo ocorre quando as válvulas não funcionam e o sangue "vaza" no sentido contrário. Esse refluxo só é considerado um problema clínico se durar mais que uma fração de segundo — geralmente acima de 0,5 segundo para as veias superficiais.
- Manobras de teste: para testar as válvulas, o médico pode realizar a manobra de Valsalva (pedir para você fazer força abdominal) ou a compressão manual da panturrilha (um leve aperto na "batata da perna").
🗺️ Mapeamento Venoso
O resultado do Ultrassom Doppler funciona como um "mapa" personalizado das suas veias. Esse mapeamento detalhado é o que diferencia uma cirurgia padronizada de um procedimento personalizado — garantindo que apenas as veias doentes sejam tratadas.
3. Doppler de Mão: Útil, mas com Limitações
Muitos pacientes confundem o Ultrassom Doppler com o "Doppler de mão", um pequeno aparelho de áudio que emite sons do fluxo sanguíneo. É importante esclarecer: ele não serve para diagnosticar a Doença Venosa Crônica sozinho, pois não gera imagens.
Hoje, sua principal utilidade é medir a pressão no tornozelo — o Índice Tornozelo-Braquial (ITB). Esse teste verifica a saúde das artérias antes de recomendar o uso de meias de compressão: se a pressão arterial nas pernas estiver muito baixa, o uso de meias poderia ser perigoso, pois bloquearia o pouco sangue que chega aos pés.
4. Quando Exames Mais Profundos são Necessários?
Em casos complexos — como quando há suspeita de problemas supra-inguinais (acima da linha da virilha, na pelve ou no abdome) — é preciso olhar "além das pernas".
| Exame | Quando é indicado? | O que ele identifica? |
|---|---|---|
| Tomografia ou Ressonância (Angio-TC/RM) | Suspeita de problemas nas veias da pelve ou abdome | Obstruções graves, varizes pélvicas e fibrose pós-trombótica (cicatrizes internas) |
| Ultrassom Intravascular (IVUS) | Casos graves de obstrução profunda onde outros exames falharam | Detalhes internos da veia usando um minúsculo transdutor na ponta de um cateter |
5. A Estratégia de Diagnóstico: O Caminho do Paciente
O roteiro para descobrir a saúde das suas pernas geralmente segue este fluxo:
- Histórico e exame físico: identificação dos sintomas e sinais visíveis.
- Ultrassom Doppler das pernas: o exame padrão, realizado com você em pé.
- Avaliação especializada: caso o médico suspeite que a causa está na pelve ou no abdome, o caminho segue para exames de imagem avançados (TC ou RM).
- Decisão de tratamento: com o mapeamento pronto, decide-se juntos entre medidas conservadoras (exercícios e meias de compressão) ou intervenções modernas.
Conclusão: Informação é o Melhor Remédio
Um diagnóstico preciso garante que o tratamento não seja apenas para fins estéticos, mas para restaurar a saúde funcional das suas pernas e prevenir complicações graves. Lembre-se: você deve ser um participante ativo nesse processo. A decisão compartilhada é um pilar fundamental da medicina moderna — você tem o direito de discutir com seu médico todas as opções de tratamento e exames.
Se você sente as pernas pesadas, cansadas, ou notou manchas na pele, não ignore esses sinais: busque um especialista para realizar o seu mapeamento venoso. Na Parte 3 desta série, vamos explorar os cuidados práticos do dia a dia e como a terapia de compressão pode aliviar os sintomas e proteger a pele.
*Este texto tem caráter informativo e resume, em linguagem acessível, recomendações de uma diretriz científica internacional. O diagnóstico e o plano de investigação devem ser sempre individualizados pelo Cirurgião Vascular.
Ref: De Maeseneer MG, Kakkos SK, Aherne T, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2022.
Perguntas Frequentes
O Ultrassom Doppler de varizes dói ou tem alguma contraindicação?
Por que o exame precisa ser feito com o paciente em pé?
O que é 'refluxo' e a partir de quando ele é considerado um problema?
O 'Doppler de mão' (aquele aparelho que faz som) serve para diagnosticar varizes?
Quando preciso de tomografia ou ressonância além do Ultrassom Doppler?
O que é 'mapeamento venoso' e por que ele é tão importante antes do tratamento?
Suas varizes merecem avaliação especializada.
Cada caso é único. O Eco-Doppler Vascular mapeia o refluxo e define qual técnica — espuma, laser, radiofrequência ou cirurgia — é a certa para você.
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